Thaís Khoury
  • Por Thaís Khoury
  • Leia em 4 min.
  • 13/05/2020
  • Atualizado em 16/06/2020 às 21:34

Eu mereço ser amada?

Não perca seu tempo tentando responder à pergunta errada. Invista sua energia tentando compreender o que realmente pode te dar respostas mais claras

Eu mereço ser amada?

Eu mereço ser amada? Imagino que você, assim como eu, já se fez essa pergunta em algum momento da sua vida. Talvez ainda a faça.

Para mim, ela sempre se esvaía em uma lamúria sem que eu chegasse a qualquer resposta objetiva, porque a pergunta que eu estava fazendo era errada.

E o meu objetivo aqui é que você não perca seu tempo tentando responder à pergunta errada e, sim, que você invista sua energia tentando compreender o que realmente pode te dar respostas mais claras.

Merecimento: uma virada de chave

Se você procurar pelo significado de merecimento no dicionário, vai encontrar mais ou menos o seguinte:

  1. Aquilo que torna alguém ou algo digno ou passível de receber prêmio ou castigo 
  2. Aquilo que empresta valor a algo
  3. Aquilo que há de bom, vantajoso, admirável ou recomendável em alguém ou algo 
  4. Importância, preço, valor. 

“Passível de receber prêmio ou castigo” e “empresta valor a algo”, essas definições nos dão uma boa ideia do que normalmente entendemos por merecimento.
Note que existe uma tendência em perceber o merecimento como algo que é definido pelo critério do outro. É uma referência que, aparentemente, só está no outro e no valor que o outro atribui a nós.

Quando questionamos se merecemos amor é como se ficássemos passivos, à espera de nos encaixarmos no critério de alguém que, então, irá nos amar.

Minha proposta para você, agora, é adotar uma perspectiva pessoal para o merecimento, ou seja, considerar o fato de que ele também é um valor atribuído a nós, por nós mesmos.

Uma frase do Marquês de Maricá talvez elucide bem o que quero dizer: “Ninguém avalia tão caro o nosso merecimento, como o nosso amor próprio”.

Portanto, virar essa chave é o primeiro passo. O segundo, é refazer a pergunta.

Você merece o seu próprio amor?

Quando você se vê no espelho, o que sente pela pessoa refletida? Se você fosse o melhor amigo dessa pessoa, estaria preocupado com suas decisões e atitudes ou ela seria alguém que te inspira? Pense bem antes de responder.

Uma coisa é o discurso, e outra são as nossas decisões que, sob uma análise honesta, podem acabar denunciando muito desamor de nossa parte

Se você se trata com carinho e respeito, muito provavelmente você não deve se perguntar com frequência se merece ser amado pelos outros.

Não há grandes dúvidas. Você mesmo já oferta amor para si na forma de escolhas que faz, do cuidado e atenção com que trata suas necessidades, dos limites que consegue deixar claro, etc.

.Você não está refém do critério do outro, pois já conta com seu próprio amor. O critério do outro é considerado, mas não te coloca em dúvida sobre o seu merecimento.

Agora, se constantemente você tem essa dúvida inquietante e até hoje nunca conseguiu respondê-la, possivelmente, ao se olhar no espelho, o julgamento não seja muito positivo e amoroso.

E por que isso acontece? Porque para se ver com olhos amorosos seria preciso que, no momento em que se formava sua personalidade, você tivesse recebido uma espécie de “código do amor”.

Para muitos, ele foi distorcido e tornou-se uma referência insatisfatória e perniciosa na vida adulta.

Mas afinal, o que é esse “Código do Amor”?

Este código refere-se a um conjunto complexo de informações e registros do olhar, das projeções, expectativas, do tipo de tratamento, ensinamentos, da qualidade do toque físico e tudo aquilo nossos pais ou cuidadores proporcionam ou depositam sobre nós antes mesmo do nosso nascimento e ao longo do nosso desenvolvimento.

É tudo o que nos permite construir um senso de importância, segurança e confiança em nós mesmos. O olhar de nossos cuidadores para nós fundamenta a construção da noção de amor, cuidado e proteção.

Quando somos crianças, não possuímos discernimento nem arcabouço emocional para diferenciar condutas reprováveis de um cuidado autêntico e interessado. Menos ainda podemos nos posicionar em relação a isso.

Estamos completamente à mercê das circunstâncias e do preparo de nossos pais para lidar com nossas necessidades, sejam elas físicas ou emocionais.

Nenhum bebê/criança tem a possibilidade de compreender de maneira objetiva que seus cuidadores possam ser absolutamente despreparados para se comprometer com ela.

No entanto, se não há qualquer outra referência de contato que não aquela, sua única perspectiva de sobrevivência será se adaptar a que lhe é apresentada – seja ela positiva ou negativa.

A maioria de nós fica em algum lugar entre esses dois extremos, podendo ter vivido mais ou menos experiências que chamarei de saudáveis ou não saudáveis.

Num cenário absolutamente não saudável, os cuidados, a proteção e os ensinamentos não são benéficos nem satisfatórios.

Elementos como rejeição, abandono, negligência, chantagem, mentiras, desrespeito, exposição, abusos (do psicológico ao sexual), exigências irreais ou injustas, desconexão, violência, etc., estão presentes e são as referências de cuidado e amor.

Quanto mais sutis esses elementos, mais fácil de confundi-los. E, quanto mais expressivos, intensos e evidentes, mais danosos para a autoestima e muito mais trabalhoso de reconstruir ou corrigir na vida adulta.

Alguns dos resultados que se pode observar na vida adulta são:

  1. Dificuldade em reconhecer e identificar amor, cuidado, proteção e ensinamentos autênticos
  2. Busca inconsciente por relações que mantenham o padrão doentio por este ser familiar, embora traga muito sofrimento
  3. Confusão entre amor e expressões não saudáveis como manipulação, superproteção, invasão, repressão e abuso
  4. Inabilidade em colocar limites claros por medo de ser abandonado
  5. Supervalorização do julgamento dos outros em detrimento das próprias percepções.

Num cenário absolutamente saudável, os ensinamentos, o cuidado, a proteção e o amor vêm de forma mais consistente e benéfica.

Elementos como um bom grau de confiança, abertura para o diálogo, consideração da individualidade e privacidade da criança, um interesse autêntico em seu bem-estar, a presença da verdade, incentivo às ideias, respeito aos sentimentos e afeto genuíno ensinam a psique inexperiente de uma criança que ela importa.

O reflexo disso na vida adulta se expressa por meio de alguns elementos como:

  1. Aprendizado do autocuidado, autorrespeito, autoconfiança e autopreservação
  2. Reconhecimento honesto do próprio valor, isto é, aquilo em que se é bom e aquilo em que se precisa melhorar
  3. Encara com mais confiança, coragem e perseverança os desafios da vida
  4. Sabe dar limites claros aos outros
  5. Compreensão do movimento contínuo e das perdas e rupturas que ocorrem ao longo da vida
  6. Maior capacidade de oferecer comprometimento, lealdade e confiança a quem aprecia
  7. Seletividade nas relações pautada naquilo que aprendeu a oferecer a si mesmo previamente.

Aqui, é preciso fazer uma observação: uma referência saudável não é um modelo de perfeição. Há nuances, e experiências negativas são inevitáveis.

O diferencial será muito mais a consistência das experiências saudáveis em detrimento das experiências dolorosas.

Um código amoroso saudável não é irretocável, mas é suficientemente bom para que a criança se desenvolva mais confiante e segura.

De forma que, mesmo diante de situações potencialmente traumáticas ou sofridas, ela será devidamente acolhida e ajudada, facilitando a superação, os processos de resiliência e a manutenção de registros mais positivos em relação aos negativos.

Quando os pais ou cuidadores estão conectados afetivamente com a criança e suas necessidades, essa condução fortalece o vínculo e a percepção de amor e cuidado.

Vale lembrar que essa criança a qual me refiro é você, à sua criança interna com uma história de vida que a ensinou a enxergar seu valor e importância ou não.

E vale também para aqueles que são cuidadores de uma criança para quem serão referência. Cuidar da criança interna é fundamental para ser um cuidador saudável.

Meu código não é saudável. E agora?

Se você chegou à conclusão, a partir desse artigo, que a sua criança se construiu a partir de referências distorcidas de amor, cuidado e respeito, será difícil reconhecê-lo de pronto em sua vida. 

Tendemos a buscar, ainda que inconscientemente, aquilo a que estamos familiarizados, mesmo que seja muito ruim, e acabamos por cultivar uma dor de estimação, um desconforto conhecido. Mas não precisa ser assim.

Nosso cérebro tem habilidades incríveis e, na maioria dos casos, é capaz reconstruir ou ressignificar acontecimentos do passado de forma que padrões repetitivos de comportamento sejam alterados para criar novos caminhos a partir de novas experiências.

Como mudar o seu Código do Amor

Se você não recebeu esse código em sua história, independentemente da circunstância, você precisará construí-lo a partir de novas referências externas.

Partindo do Zero

Você pode começar por qualquer recordação que tenha de algum momento, ainda que breve, em que se sentiu visto, cuidado e especial.

Essa memória, essa sensação será o seu ponto de partida, seu primeiro tijolo na construção de autoconfiança e segurança.

Neste caso, a consulta a um profissional, como de um psicoterapeuta, seria de imensa ajuda na reconstrução deste código, pois você efetivamente será visto, ouvido e reconhecido e aprenderá a fazer isso também de dentro para fora.

Por exemplo: uma pessoa que sempre achou que a superproteção dos pais era algo positivo, fruto de amor e cuidado, pode perceber que, na verdade, estava sufocada, impossibilitada de administrar a própria vida, sem autonomia e propósito.

A partir disso, pode se sentir impelida a buscar tais atributos e testar decisões diferentes que rompem com esse padrão.

Ela pode dizer mais nãos, pode se desafiar a fazer coisas por si mesma, pode buscar pessoas que a ensinem tais habilidades, pode criar formas de se proteger de relações invasivas e de dominação, etc.

Um outro exemplo: uma pessoa que foi completamente negligenciada pelos pais e que inverteu a relação, passando a se responsabilizar por eles.

Ao se dar conta dessa relação não saudável, pode entrar em contato com a dor dessa constatação e se libertar da responsabilidade que nunca foi sua.

Assim, poderá dedicar sua energia e seus recursos não mais para manter vínculos frágeis, mas para construir o autocuidado, para validar a si mesma, para se abrir para relações mais justas e autênticas.

Atualizando uma situação circunstancial e recente

Muitas vezes, vivemos situações circunstanciais que nos fazem duvidar de nós mesmas, como uma demissão, o término de uma relação, um familiar que se afasta, etc.

É possível até que tenhamos recebido um código suficientemente bom, mas uma situação isolada pode deslocar nossa autopercepção e podemos, momentaneamente, titubear sobre nosso próprio valor.

Nesse caso, a manutenção de um diálogo interno, que considera um cenário mais amplo, será fundamental.

Os dados de realidade ajudam a relembrar quem você é. Todas as outras experiências positivas serão fundamentais para colocar este acontecimento isolado em perspectiva.

E então, você já parou para se amar hoje?

Olá, essa matéria foi útil para você?
Thaís Khoury

Thaís Khoury

É psicóloga clínica e utiliza a interpretação dos sonhos, a calatonia e a expressão criativa em seus atendimentos. Também é vegana e fundadora do Veganíssimo, empresa que produz alimentos 100% vegetais. Saiba mais