Ceci Akamatsu
  • Por Ceci Akamatsu
  • Leia em 3 min.
  • 07/01/2019
  • Atualizado em 07/01/2020 às 23:52

Traição: qual a sua parcela de responsabilidade?

Falta de verdade nos relacionamentos pode levar a traumas como a infidelidade

Traição: qual a sua parcela de responsabilidade?

Talvez uma das maiores dores que exista seja passar por uma traição. Afirmo  isso a partir da minha própria vivência pessoal e após anos fazendo atendimentos nos quais a traição era o tema principal.

O único caminho que encontrei para a libertação de tanta dor foi dar este passo: olhar para minha vida e ver como eu mesma havia construído, sem perceber, a traição afetiva.

Na vivência como terapeuta, observo que outras pessoas também só alcançam sua libertação de fato quando assumem sua própria parcela de responsabilidade.

Ainda que pareça radical e muito difícil compreender como uma pessoa que é traída pode ter contribuído para a construção da traição, vale a pena fazer tentar entender o que está por trás dessa situação.

É possível mudar o quadro de sofrimento e sentimento de impotência.

Entenda a seguir como a traição é construída e como é possível superá-la e até mesmo evitá-la.

Traição e autorresponsabilidade

É importante compreender que toda traição é construída ao longo do tempo, tanto por quem traiu quanto por quem é traído. Representa acúmulo de sentimentos, comportamentos, padrões negativos, que bem provavelmente não percebemos.

O ato da traição é apenas o momento em que esta energia negativa acumulada eclode.  

Uma vez que passamos a trabalhar nossa verdade e responsabilidade sobre nossas experiências, sejam elas positivas ou negativas, não só superamos a traição, mas também podemos fortalecer o relacionamento ou as próximas relações.

Para quem não passou por essa experiência e não quer passar por ela, é um caminho para evitá-la.

Por que acabamos criando experiências afetivas negativas?

Em nome do amor, tentamos mudar para nos adaptar ao outro, e isso faz parte dos relacionamentos saudáveis. Porém, muitas vezes, a mudança necessária para atender a pessoa amada e harmonizar a relação nos machuca demais, ferindo nossa verdade.

Quando nossos medos e carências são tão intensos que passamos a preferir manter a relação e nos machucar do que assumir esta verdade, estamos na realidade traindo a nós mesmos. São exatamente essas auto-traições que ajudam a construir a traição no relacionamentos.

Afinal, a energia da traição que cultivamos no relacionamentos com nós mesmos inevitavelmente transborda para a relação com o outro.

Isso não quer dizer que necessariamente vamos trair ou ser traídos na vida afetiva, mas que estamos contribuindo para uma predisposição à traição.

O preço da traição

Se abrimos mão da nossa verdade, deixamos nossas decisões serem motivadas pelo medo. Isso significa que nosso eu machucado, aquele que carrega todas as dores, traumas e crenças negativas, passa conduzir a relação.

Passamos a viver o relacionamento a partir de cobranças e reclamações, nos sentimos diminuídos, fugimos dos conflitos e buscamos cegamente a segurança.

Nos tornamos infelizes na relação, mas continuamos na mesma. Ou por outro lado, construímos a relação baseada em ilusões, mentiras e omissões, que sustentamos em nome da harmonia. 

Mesmo que continuemos tratando bem o outro, não demonstrando para ele os sentimentos negativos dentro de nós, inevitavelmente as frustrações e mágoas vão se acumulando no relacionamento, ainda que de maneira oculta.

Aparentemente pode ser que tudo pareça bem, mas esta harmonia é ilusória.

Assumir a verdade, sobretudo quando ela significa que não temos como continuar na relação, pois as conciliações de diferenças se tornam muito dolorosas e desarmoniosas, pode ser tão doloroso quanto a própria vivência da traição.

A energia da traição que cultivamos no relacionamentos com nós mesmos inevitavelmente transborda para a relação com o outro

Dúvida, insegurança, frustração, desesperança, sentimentos de solidão, abandono, rejeição, fracasso podem emergir intensamente. Por isso, tendemos a evitar dar este passo e a continuar levando o relacionamento.

Por que manter relações que nos fazem mal?

Perpetuar uma relação que nos faz sentir insatisfeitos e/ou desvalorizados pode, de maneira intencional ou não, nos levar a buscar e atrair uma pessoa cuja companhia faça-nos sentir valorizado. 

O mesmo se aplica à pessoa amada. A insatisfação e a frustração podem estar bastante ocultas no caso de relacionamentos que parecem harmoniosos.

Geralmente, o sentimento de estar procurando problema onde não existe ou de medo do que vamos descobrir nos faz desistir da ideia de olhar mais profundamente para nossa relação.

Porém, a verdade sempre vêm à tona. Ela pode demorar mais tempo ou menos, mas caso não nos trabalhemos para enxergá-la e assumi-la conscientemente, ela se manifestará de maneira inconsciente.

Como uma bola de neve, a falta de verdade vai crescendo e se acumulando ao longo do tempo até nos atropelar na forma de eventos mais traumáticos, como a traição

Por mais difícil que seja assumir a verdade, ainda que nos tire da zona de conforto e possa até causar dor, acima de tudo, nos traz paz e fortalecimento. A dor pode ser mais facilmente curada e superada quando voluntariamente trabalhamos para nos manter na verdade.

Deixá-la vir à tona de maneira inconsciente sempre traz sofrimento, e as mágoas e rancores gerados levam mais tempo para serem trabalhados.

Fortalecer a autoestima para assumir a verdade na vida amorosa

Para saber lidar com a verdade é preciso cultivar a autoestima, em seus pilares do amor-próprio e poder pessoal.

Somente estando fortalecidos e minimamente de bem com nós mesmos poderemos cultivar relacionamentos saudáveis e evitar eventos desagradáveis, sejam as brigas e desarmonias, sejam eventos mais traumáticos como a traição.

Uma boa autoestima pressupõe estarmos em nossa verdade e vive-versa. Na prática, isso significa que, apesar de enxergar os erros do outro e todas as formas que ele nos aborrece, isso não o torna errado ou uma pessoa pior que você.

Por outro lado, se desagradamos o outro, não quer dizer que estejamos errados, mas simplesmente que somos diferentes.

Aceitar as diferenças como algo natural da vida e não como uma afronta pessoal é essencial para nos fortalecermos.

É importante também estarmos atentos aos nossos próprios limites, ao que damos conta ou não, para assim nos comprometermos somente de maneira verdadeira.

Caso contrário, acabamos prometendo o que não vamos conseguir cumprir, causando frustração para ambos os lados.

Saber observar, aceitar e respeitar limites do outro também é importante. Só assim poderemos criar expectativas mais realistas e evitar decepções.

Com nossas questões sendo bem resolvidas dentro de nós, não projetamos problemas que são nossos no outro.

Reclamações e cobranças se tornam mais leves e realistas, mais fáceis de serem solucionadas. Lidamos com a relação de maneira mais verdadeira e sólida.

Os laços de amor geralmente nos permitem trabalhar nossas maiores superação e aprendizados como pessoa. Nos esforçamos para mudar e nos adaptar com mais dedicação porque amamos o outro.

Porém, se este aprendizado se torna mais doloroso e sofrido do que gratificante, é hora de repensar a relação, seja quanto ao nosso próprio posicionamento e atitude, seja questionando se a relação é mesmo válida para nós.

Somente na verdade estamos respaldados. O caminho da verdade nada mais é do que o próprio caminho do amor.

Não do amor romântico, mas do amor verdadeiro, que nos preenche o coração e nos traz paz e plenitude. Cultivar este amor é o melhor remédio curativo e preventivo para as experiências negativas em nossa vida.

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Ceci Akamatsu

Ceci Akamatsu

Terapeuta Acquântica, faz atendimentos presenciais no Rio de Janeiro, em São Paulo e à distância. É a autora do livro Para que o Amor Aconteça, da Coleção Personare.  Saiba mais