Maria Cristina
Por Maria CristinaLeia em 3 min.03/06/2019 

Pais tóxicos existem?

Como superar os conflitos e dificuldades em nossa família de origem

Pais tóxicos realmente existem? Como lidar quando aqueles que mais deveriam amar, supostamente, mais causam os danos?

A palavra “tóxico” refere-se a qualquer substância ou agente nocivo que, ao entrar em contato com o organismo, pode causar grandes danos à saúde de um indivíduo. Não sei ao certo quando essa palavra começou a ser utilizada nas relações interpessoais. Mas é no mínimo estranho pensar que alguém é capaz de entrar na vida do outro com quem tenha alguma relação íntima apenas com objetivo de ferir e causar dano, ainda mais quando se trata de um pai ou de uma mãe. Então, será possível?

Convido você a esquecer um pouco o termo tóxico e tudo que ele representa e a refletir sobre pessoas e relações. Quando algo é nomeado de maneira intensa e negativa cria-se um rótulo difícil de superar. Mas às vezes designar um rótulo negativo a algo tem a função de extravasar uma dor profunda que necessita ser expressa e nomeada de alguma forma. E talvez seja também a maneira mais comum que é escolhida para descrever determinada relação que lhe fez mal, ainda mais em se tratando de seus pais.

Para utilizar uma terminologia com um teor tão destrutivo, possivelmente é assim que você se sente: destruído. Pode ser que olhe para sua vida e veja como a influência das ações de seu pai ou sua mãe tem enorme efeito negativo em suas relações, inclusive com você mesmo. E então na ânsia de respirar e ter uma nova vida, talvez você queira esquecer do passado ou excluir um ou outro definitivamente.

Dessa forma, você estará simplesmente esquecendo de você mesmo pois, queira ou não: você é seus pais!

A leis ocultas que regem os grupos familiares

E se eu te dissesse que a solução para lidar com eles é justamente oposta de excluí-los de sua vida?! Para compreender melhor este processo é preciso ter em mente que existem algumas leis sistêmicas que atuam em todas as famílias. As leis são: Pertencimento, Ordem e Equilíbrio. Quem percebeu melhor a forma destas leis atuarem nas famílias foi Bert Hellinger, disseminador do método que auxilia na cura das relações em famílias conhecido como Constelação Familiar.

Segundo o terapeuta alemão, quando há conflitos severos nas famílias certamente alguma lei está sendo negligenciada, ou mesmo todas elas. Se a lei do Pertencimento é desconsiderada, alguém da família poderá ser excluído, geralmente por julgamento moral. Com isso, todo o sistema familiar sofrerá as consequências.

Assim, mesmo que alguém cometa um crime ou algum ato grave contra outro membro do sistema familiar não pode ser excluído e esquecido, caso contrário, as gerações futuras podem compensar essa exclusão geralmente repetindo comportamentos, fazendo sintomas ou criando ciclos de autossabotagem.

A lei da Ordem por sua vez diz sobre a hierarquia existente onde quem vem antes tem prioridade e deve ser reconhecido como tal. Em relações entre pais e filhos esta é a lei mais atuante. O problema irá ocorrer quando a ordem é invertida e filhos acham-se no direito de serem maiores que seus pais, julgando, criticando, condenando, excluindo ou até mesmo com cuidados excessivos.

Segundo Hellinger, há três padrões comuns entre pais e filhos que são prejudiciais para ambos:

  1. O padrão mais comum ocorre quando os filhos se recusam a aceitar os pais como são, fazendo críticas ou julgamentos morais.
  2. Uma segunda dinâmica ocorre quando os pais querem dar algo aos filhos que pertence ao destino deles próprios e que é prejudicial. Neste caso, aquilo que os pais conquistaram ou sofreram devidos às suas próprias escolhas e circunstâncias pessoais e que não foi herdado de uma geração anterior, também não pode ser transmitido à geração seguinte. Contudo é comum que os filhos, por amor, assumam dívidas, doenças, obrigações e até injustiças sofridas ou infligidas.
  3. E por último, uma dinâmica bem comum é a inversão da ordem chamada parentificação, quando os pais tentam receber dos filhos e os filhos tentam dar aos pais. Podem ser filhos que desde pequenos são colocados no lugar de cuidar de seus pais, ou mesmo aqueles que buscam nos filhos apoio ou suprimento emocional.

Pais Tóxicos, Constelação Familiar e Lei do Equilíbrio

Segundo a constelação familiar, ser pai e mãe é uma função e deve ser diferenciada dos papéis de homem e mulher. Para Bert Hellinger a função do pai e da mãe é perfeitamente cumprida a partir do momento que a vida é gerada. Assim, se você está vivo, seu pai e sua mãe fizeram o que precisavam fazer. Não há como negar a grandiosidade da vida e não há nada que tenha acontecido que tenha mais valor do que este presente.

Por isso, a lei do Equilíbrio não existe na relação de pais e filhos, apenas entre casais, amigos ou parceiros. Nunca será possível aos filhos compensarem aos pais o que eles deram. E é inegável que cada um é constituído a partir de seu pai e de sua mãe. Por isso que excluir um deles é excluir um lado seu, goste você ou não.

É possível fazer o esforço para se lembrar que seus pais fazem parte de um emaranhado em suas próprias famílias de origem. Muitas vezes, estão presos a situações que vêm se repetindo através de gerações. Eles não conseguiram romper com este ciclo, mas você pode!

A dor que é real. O que fazer com ela?

Compreender as leis sistêmicas não quer dizer esquecer tudo que foi vivido e sofrido e fingir que nada aconteceu. Claro que há marcas. E talvez elas permaneçam por longo tempo.

O fato é que julgar e acusar por tudo que já foi feito não ameniza nenhuma dor.

Mas se você é adulto e ainda passa por situações negativas, então cabe a você colocar os limites necessários.

A sua transformação depende da postura que você adota diante deles e da sua vida. A postura de amor real, de quem sabe o seu lugar no sistema, que está ciente das leis sistêmicas e as respeita é o que lhe trará paz.

Dessa forma é possível seguir em frente, sem desrespeitar nem julgar os pais pelos atos cometidos e ainda assim honrar a vida que lhe foi dada da melhor maneira possível. Os atos cometidos terão suas consequências. Mas você não é o juiz que irá julgar quais serão elas.

Bert Hellinger sugere algumas frases de reparação que podem ser ditas apenas internamente, ajudando a reparar e a trazer a solução necessária para todo o sistema.

Assim, mesmo que os filhos tenham sido magoados pelos pais, eles podem dizer internamente: “sim, vocês são os meus pais. Tudo o que esteve em vocês está também em mim. Reconheço-os como pais e aceito as consequências disso. Fico com a parte boa do que me deram e deixo-lhes a tarefa de enfrentar o destino de vocês como bem entenderem.” Com isso, liberam a si e aos pais, e cada um assume as consequências de seus atos.

Os filhos também podem dizer: “o que você fez é responsabilidade sua. Mas você continua sendo meu pai/mãe. Não importa o que você tenha feito, estamos ligados. Estou feliz por você ter me dado a vida. Mesmo que seus atos tenham sido horríveis, sou seu filho, não seu juiz.” Com isso, os filhos aceitam os pais sem se responsabilizar pelos atos deles. Eles são adultos e devem assumir os próprios erros.

Para superar e ir além das dificuldades nas relações com os pais é preciso enxergar o real e não o idealizado.

Além de ser grato por eles terem cumprido bem a função deles de terem lhe dado a vida. Agora que você é adulto pode andar com as próprias pernas e tomar toda a força deles e de seus antepassados para fazer grandes realizações e viver uma vida plena.

Muitas pessoas podem conseguir colocar em dia a relação com o pai e a mãe, voltando ao lugar de ser apenas o filho, sem críticas, julgamentos e cobranças; fazendo o amor regressar ao sistema familiar, mesmo que coisas terríveis tenham acontecido. Quando elas obtém sucesso nesta ação, todos os membros do sistema são beneficiados: os pais, elas mesmas e os seus filhos.

Referência: livro “A Simetria Oculta do Amor”, de Bert Hellinger.

Maria Cristina

Maria Cristina

É psicóloga e atende em consultório em BH e online, por Skype. Tem amor pela profissão e o desejo constante de auxiliar as pessoas a enfrentar suas crises e a buscar o autoconhecimento.