Ceci Akamatsu
Por Ceci AkamatsuLeia em 3 min.18/10/2018 

Amor-próprio: afeto recebido na infância impacta seu jeito de amar

As feridas de sua criança interior podem gerar autossabotagem em relacionamentos

Quando vemos uma criança sendo maltratada, geralmente nos sentimos mal e queremos impedir a agressão. Por que nos permitimos, então, maltratar nossa criança interior? A maneira como cuidamos de nós é determinante para o amor-próprio. E o afeto recebido na infância impacta diretamente no seu jeito de amar, nos seus relacionamentos.

A criança interior representa a nossa pureza, aquilo que é mais verdadeiro e livre dentro de nós. Está ligada à criança que fomos e às experiências vividas durante a infância.

Identificar e curar feridas que remetem a esta fase da vida pode impactar diretamente a forma como nos enxergamos e nos cuidamos.

Geralmente, o amor-próprio está relacionado ao jeito de amar que aprendemos e a sermos amados em nossa infância, sobretudo no que se refere à nossa relação com as figuras materna e paterna.

As raízes do amor-próprio se encontram no período que abrange desde a nossa concepção, passando pela gestação até a infância. As dinâmicas e referênciais que absorvermos e construímos nesse período constituem as bases de quem somos hoje.

Falta de afeto na infância pode atrapalhar relacionamentos na vida adulta

Se nossos pais, por exemplo, eram muito preocupados em suprir as necessidades materiais e financeiras ou não sabiam como nos oferecer carinho e apoio emocional, tendemos a repetir isto ao longo da vida.

Perpetuamos esse comportamento buscando pessoas parceiras que nos tratem da mesma forma, ou repetindo tais atitudes com as pessoas que nos relacionamos. Afinal, esse é o padrão de cuidado e amor que aprendemos.

Ainda que não seja intencional, nem sempre os pais conseguem oferecer o afeto na infância que o filhos necessitam.

Quem não recebe apoio emocional e carinho durante a infância, cresce com esta ferida, com sede por afeto.

Essa necessidade por algo que lhe faltou pode ser demonstrada de duas formas distintas: desenvolvendo carência excessiva ou, num outro extremo, transmitindo a imagem de estar acima das emoções.

Ou a pessoa acredita que necessita muito do reconhecimento e valorização de seu par ou, por outro lado, que não precisa de ninguém.

Porém, estes sentimentos nada mais são do que um mecanismo desenvolvido para compensar a falta de afeto na infância. Logo, não levam a uma vivência harmoniosa do amor.

É comum atribuirmos nossa falta de amor-próprio aos acontecimentos do decorrer da vida. Não percebemos que sua raiz é bem anterior ao que vivemos e sentimos no presente.

Está no histórico de nossa infância. Um profundo vazio e falta de carinho gravados em nossas memórias inconscientes, que sabotam nossa vida.

Necessidades físicas, emocionais, mentais e espirituais nem sempre são supridas de maneira saudável, mesmo sem a intenção dos pais. Com isso, passamos a ter atitudes para conseguir suportar faltas ou excessos da nossa criação.

Quem se mostra carente pode acabar em uma busca desenfreada por um vínculo afetivo que supra seu vazio. Quem se mostra superior às emoções, por sua vez, tende a sabotar e afastar as oportunidades de vínculos de afeto.

Essa atitude remete, mesmo que de forma inconsciente, ao medo criado na infância de desejar o afeto da pessoa amada e não obtê-lo, ou obtê-lo de maneira distorcida.

De uma maneira ou de outra, a ferida emocional a partir da falta de afeto na infância pode atrapalhar nossos relacionamentos de maneira geral.

Excesso de afeto e/ou cuidados também são nocivos

O outro extremo também pode ser prejudicial. Algumas pessoas conseguem enxergar atitudes exageradas e superprotetoras dos pais como algo nocivo. Porém, outros podem entender essa atitude como algo saudável.

Muitas vezes, não percebemos quando existe exagero. Dessa forma, abrimos espaço para um sentimento de culpa quando nos irritamos com as pessoas que nos amam.

É comum atribuirmos nossa falta de amor-próprio aos acontecimentos do decorrer da vida. Não percebemos que sua raiz é bem anterior ao que vivemos e sentimos no presente. Está no histórico de nossa infância.

Superproteção pode nos tornar apegados aos pais, atrapalhando nossos relacionamentos afetivos, além de dificultar nossa realização em todas as áreas da vida. Criamos laços de uma certa dependência e culpa.

Mesmo que os pais já até tenham mudado sua maneira de agir, ou nem mesmo estejam mais presentes, continuamos a agir de acordo com o que vivenciamos quando crianças, pois é este padrão que fica gravado em nós.

Os excessos, mesmo em relação a algo tão positivo como amor, afeto e cuidado, também criam feridas que precisam ser curadas em prol do amor-próprio.

Curando as feridas da criança interior

Cuidar da criança interior significa mimá-la positivamente, educando-a e estabelecendo limites saudáveis e disciplina positiva. Como a maioria de nós não tem esses referenciais, os limites e a disciplina se tornam chatos e pesados. Mas é possível ressignificar estes aspectos.

É muito importante lembrar que nossos pais não são os culpados pelas feridas de nossa criança interior. É possível que eles também não tenham tido um referencial saudável. Porém, uma vez conscientes destas dinâmicas, temos a escolha de transformá-las.

A medida que olhamos com mais atenção para nossa infância, podemos delinear quais referênciais andam nos influenciando e quais mecanismos ditam nossa maneira de manifestar o amor, nosso jeito de amar.

Caso não consigamos sozinhos identificar e curar estes padrões negativos, a orientação terapêutica pode ser de grande ajuda.

Não podemos mudar a história e as atitudes dos outros, assim como não podemos mudar o que já aconteceu em nossas vidas.

Mas podemos transformar nossa maneira de enxergar e sentir o passado, construindo, assim, novas bases para o futuro.

Comece esse processo reservando um tempo para cuidar de você, para viver momentos de prazer. O prazer em nossa vida é um aspecto importante a ser observado, pois, geralmente, nossas feridas nos levam a ter uma relação pouco saudável com o prazer, em todos os níveis.

Reflita comigo:

  • Físico: você se permite ter momentos de descontração e lazer? Consegue relaxar e aproveitá-los?
  • Emocional: você consegue identificar quando age como uma criança birrenta, mimada ou rebelde? Percebe suas reações exageradas, e por vezes atribui sua causa a outras pessoas? Você sente culpa em sua vivência de momentos prazerosos?
  • Mental: como funcionam seus diálogos internos? Você é o seu melhor amigo? Procura se motivar, mostrar  há de melhor em mais positivo em si e na vida?
  • Espiritual: tem se sentido conectado com o todo? Tem confiança na vida ou você só olha para o negativo?

Compaixão e perdão

Ninguém é o que é ou age como age à toa. Há sempre um histórico por trás. Isso nos ajuda a compreender o porquê de determinadas atitudes, mas não significa, entretanto, que seu passado justifique atitudes nocivas.

Exercitar a compaixão nesse sentido não significa concordar ou ser condescendente com atitudes negativas.

Significa, sim, um novo olhar sobre os eventos da vida, com menos julgamento, raiva e rejeição. Diminuir o peso de atitudes e sentimentos com raízes no passado nos torna mais leves para seguir em frente.

Ceci Akamatsu

Ceci Akamatsu

Terapeuta Acquântica, faz atendimentos presenciais no Rio de Janeiro, em São Paulo e à distância. É a autora do livro Para que o Amor Aconteça, da Coleção Personare.