Ana González
  • Por Ana González
  • Leia em 5 min.
  • 21/06/2017
  • Atualizado em 04/06/2018 às 15:03

Filme “Relatos Selvagens” e os submundos de Plutão

Histórias mostram lado obscuro da natureza humana e simbolizam atuação do planeta em nossas vidas

Filme “Relatos Selvagens” e os submundos de Plutão

Falar a respeito de Plutão é sempre um desafio e um mistério. Esse cenário é simplificado quando utilizamos imagens do cinema para nos ajudar na compreensão de suas manifestações. Elas possibilitam uma “materialização” das expressões possíveis de Plutão e de seus significados. Não, não será possível esgotar as possibilidades de significação. Mas o filme escolhido de forma direta e quase didática nos apresenta um amplo quadro dessas possibilidades. Como isso funciona? Assim: acompanhamos as personagens em suas andanças e lemos as imagens. Vamos construindo sentidos e estabelecendo relações simbólicas. Ora, podemos relacionar os sentidos mitológicos de Plutão às funções da psique e, por incrível que pareça, às histórias vividas pelas personagens do filme escolhido.

podemos relacionar os sentidos mitológicos de Plutão às funções da psique e, por incrível que pareça, às histórias vividas pelas personagens do filme escolhido.

Vejamos mais de perto. O filme “Relatos Selvagens”, sob a direção de Damián Szifron, de 2014, é excelente por seu elenco, roteiro, foto e apresenta seis histórias sem ligação entre si. Mas, elas têm uma semelhança: trazem emoções intensas e situações-limite vividas por suas personagens. São seis histórias com situações de violência e vingança, injustiça, raiva, corrupção e traição. Em todas elas há uma explosão do lado selvagem da natureza humana. Esse fio que as une me roubou a atenção e me conduziu a Plutão.

Neste artigo, vamos descrever rapidamente as histórias, relacionar algumas dicas de como são as interpretações possíveis de Plutão. Vamos dar direções de como esses dados do cinema e do planeta poderão se juntar.

As seis histórias plutonianas

Ao começar o filme, antes da apresentação dos créditos de atores e equipe técnica, somos colocados em um aeroporto e conduzidos junto a outras pessoas a uma viagem. Só que se trata de uma trama perversa. Alguém que pilota o avião, por raiva e vingança, juntou todas as pessoas que a magoaram em vida em uma viagem com destino certo para a morte.

Alguém que pilota o avião, por raiva e vingança, juntou todas as pessoas que a magoaram em vida em uma viagem com destino certo para a morte.

Sim, é contundente e nos prepara para a intensidade que o diretor deseja imprimir no filme. O avião se move rapidamente à terra, e atinge um casal de idade (os pais?) e também nós, espectadores. Ousadia do diretor do filme! Mais ou menos recuperados do susto, podemos ver, na tela do cinema, os créditos e com eles uma série belíssima de retratos de animais selvagens. Não é coincidência, pois nada nesse filme é inocente, como em todo produto de bom diretor. Não esqueçamos que o nome do filme é “Relatos Selvagens” e que essa primeira história (Pasternak) tem a função de nos colocar intencionalmente nesse mundo rude e violento. Sem repetir o tranco inicial, as outras histórias repetirão uma boa dose de intensidade e de sobressaltos.

 

A segunda história (“As Ratazanas”) nos traz duas funcionárias de uma lanchonete à beira da estrada, que se deparam com o passado. Uma delas tem que dar atendimento a um político que fez mal a sua família. A outra, que também tem contas não resolvidas em seu passado, toma em suas mãos a tarefa desse acerto de contas. Ela se apropria da situação para realizar o que tinha decidido consigo mesma: retirar-se dessa sociedade com cujos parâmetros não mais pactua.

 

No terceiro relato (“O mais forte”) vemos dois motoristas em uma estrada, entrando em competição por vaidade e orgulho. Eles se matam depois de acessos de fúria, tendo atrás de si apenas um cenário desértico de montanhas como pano de fundo.

 

A quarta (“Bombita”) traz um engenheiro especialista em implosões que se depara com questões burocráticas do sistema de trânsito onde mora. Daí em diante, assistimos a brigas, sua prisão e o despertar de um (anti) herói que serve de porta-voz à sua comunidade, mobilizada pelas redes sociais.

 

Na quinta (“A Proposta”), temos um atropelamento com morte. O responsável por esse acidente é filho protegido de família rica. Daí, assistimos à construção de uma rede de corrupção com muitos envolvidos. No último segundo dessa história, sem saber ao certo o que ocorreu, ao abrir-se uma porta pela qual se vê um grupo na calçada, quem foi atingido pelo tiro que teria um destino certo?

 

Na última história (“Até que a morte nos separe”), há uma festa de casamento em que podemos testemunhar a queda das máscaras que protegem a hipocrisia social. Muitos dos aspectos escondidos no (sagrado) ritual do casamento são desmascarados.

Como podemos observar, todas as histórias apresentam contextos de intensidade emocional, questionamentos sociais, toques de tragédia e de violência. Indícios da presença de Plutão? Fui a algumas fontes e encontrei interpretações referentes a esse planeta a seguir apresentadas.

Plutão: o planeta do submundo

Na mitologia, sabemos que Plutão (e/ou Hades) rege o mundo dos mortos onde se guarda o que ficou escondido e reprimido. Plutão preside mutações das eras geológicas e o mundo atômico. Quem de nós já não ouviu que a força plutoniana carrega em si a capacidade desintegradora da fissão nuclear? Mas, ele também se relaciona com as camadas mais arcaicas da psique. Nos livros de Astrologia, para sua conceituação, repetem-se os substantivos morte e destruição, renascimento e transformação, regeneração, força e sexualidade. Também encontramos: apelo das massas e coletividade, grande mudança, perspectiva de valores, turbulência e revolta. No Mapa individual, ele é indicado como aquele que dirige o self a encontrar um novo centro e plena consciência do seu potencial. Psicoanálise, dogmas políticos, metamorfose.

Plutão e Número 9: da impotência aos grandes feitos

Interessante, não é mesmo? Aspectos mais amplos e outros ligados a uma manifestação individual. Nessas histórias, encontraremos essas duas dimensões. As personagens são levadas aos limites de estresse, reagindo a essas dimensões: temas vindos da coletividade e outros que são da manifestação individual. O que está atrás de tudo nessas ações violentas? Por que motivo esse movimento não pode ser interrompido antes de seu final que em quatro delas conduz à morte? O que acontece na verdade?

No relacionamento do indivíduo com a sociedade, há limites estabelecidos em convenção que se tornam insuportáveis. Há rompimentos e a convivência social perde a estabilidade. Há liberação de condutas e acaba aflorando o que está escondido nos mundos de Plutão. Emoções e comportamentos em geral inaceitáveis que falam de sobrevivência básica e de luta até a morte. Sim, nem todos conduzem à morte. Há também alguns finais felizes à moda de Plutão, como na história de Bombita em que ele surge como um herói restaurando a moral de todos os que se consideram injustiçados e impotentes pela máquina burocrática do estado. Ele responde a uma demanda coletiva. Sem dúvida, bonito! E há outros finais felizes e também outras informações referentes às manifestações de Plutão.

Prepare-se para seu encontro com Plutão

Finalizando, todos nós encontraremos suas manifestações em algum momento de nossas vidas, seja por suas ligações com pontos importantes dos Mapas (luminares, Casas angulares e seus regentes), seja porque ele nos visitará na forma de trânsitos e progressões. Experimentaremos níveis de suas intensidades. Faz parte da vida topar com ele nas esquinas e nos jornais da realidade que nos cabe. Coisas dos submundos de Plutão.

Como lidar com ele, então? Identificar o perigo (leia-se, conhecer seu funcionamento) e, logo, encontrar recursos para a administração dos fatos. Sua manifestação nos traz muitas vezes perdas e dor. Mas há saídas. Transformação, renovação e até experiência de renascimento. Podemos crescer em consciência na intenção de um desenvolvimento espiritual. Não nos esqueçamos do mito de Perséfone. Ela desceu ao reino de Hades, viveu um processo de empoderamento e de transformação. Foi uma viagem para se tornar rainha!

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Ana González

Ana González

Astróloga e formada e pós-graduada em Letras. Coordena uma pesquisa sobre a História da Astrologia, em São Paulo. Autora do livro "Você sabe (mesmo) ler? Leitura, o sutil mundo das palavras". www.agonzalez.com.br Saiba mais