Saúde mental no trabalho: os sinais antes de chegar no limite
Entenda como a sobrecarga de tarefas impacta a saúde mental de mulheres no trabalho e aprenda a reconhecer sinais de alerta
Eu sei que você sempre teve que dar conta — da casa, do trabalho, dos estudos, dos filhos, das cobranças por ser “perfeita” — mas eu também sei que você nem sempre deu (fica tranquila, não vou contar isso pra ninguém).
Mas pensa só: se algum dia você não der mais conta, pode ter certeza de que alguém vai ter que dar conta de você — o parceiro, a parceira, os amigos, a família, os filhos, os funcionários ou colegas de trabalho. A conta alguma hora acaba chegando.
E quando o recurso que falta é a saúde, geralmente esta é a conta mais cara que temos a pagar.
E não custa caro só pra quem sofre. É caro para o país que, por exemplo, nos últimos três anos gastou cerca de R$ 5,7 milhões com internações por transtorno de ansiedade generalizada (TAG). E se falamos da saúde mental das mulheres, a situação é ainda pior.
Estudos recentes indicam que mulheres enfrentam taxas mais elevadas de ansiedade, depressão e Burnout em comparação com os homens. No caso de transtornos de ansiedade, a proporção é de aproximadamente 2 mulheres para 1 homem.
Mas por que isso é importante?
Porque a disparidade de saúde mental entre mulheres e homens não é aleatória; é o resultado de uma complexa interação de fatores biológicos, sociais e culturais.
Como a dupla jornada afeta a saúde mental das mulheres no trabalho
Um dos principais fatores de adoecimento da mulher é a sobrecarga resultante da dupla jornada de trabalho.
Mulheres frequentemente se veem tentando equilibrar carreiras exigentes com responsabilidades domésticas e familiares, o que mais cedo ou mais tarde leva ao esgotamento físico e mental.
Quem nunca ouviu um “Com quem ficam as crianças?” em uma entrevista de trabalho, que atire o primeiro rivotril.
Um relatório da ONG Think Olga destaca que a sobrecarga de trabalho doméstico e a jornada de trabalho excessiva foram o segundo fator apontado pelas entrevistadas como tendo maior impacto em sua saúde emocional.
A desigualdade salarial, aliada às pressões financeiras, agrava ainda mais a situação. Mulheres, mesmo com qualificações equivalentes aos homens, frequentemente recebem salários inferiores, o que aumenta o estresse e a ansiedade relacionados especialmente à segurança financeira.
O relatório “Esgotadas” revela que a situação financeira é o fator que mais gera insatisfação para as brasileiras atualmente.
Pressões no Ambiente de Trabalho
Pensa que parou por aí? Além das pressões econômicas e da sobrecarga de trabalho, muitas mulheres enfrentam ambientes de trabalho hostis, marcados por assédio moral e sexual.
O medo constante de sofrer violência é citado por 1 em cada 6 (16%) entrevistadas como fator de impacto em sua saúde mental, segundo o relatório da Think Olga.
Essa conta de dar conta de tudo tá tão cara que, a partir de maio de 2025, a avaliação de riscos psicossociais se tornará obrigatória na gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST).
A nova regulamentação da NR-1, promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), exige que as empresas identifiquem e gerenciem fatores como estresse, assédio e carga mental excessiva. Nesse caso, os homens também precisam de um olhar mais cuidadoso.

Quais são os sinais de alerta
Apesar dos desafios e discussões que precisamos ter sobre machismo, racismo, exclusão econômica e social, além do nosso estilo de vida pautado em desempenho, mostrando o quanto nossa sociedade por si só já é adoecedora, é vital que, individualmente, as mulheres estejam atentas aos sinais de alerta que indicam que sua saúde mental no trabalho está sendo prejudicada.
Sendo assim, fique atenta a:
- Mudanças no humor: Irritabilidade, tristeza constante ou mudanças repentinas de humor. Tudo isso, em níveis muito mais persistentes do que durante uma TPM, por exemplo.
- Problemas de sono: Insônia, sono excessivo ou dificuldade em relaxar. A sensação vai de alerta constante à exaustão total.
- Fadiga constante: Não importa quantas horas você durma, porque quando acorda, já está exausta!
- Alterações no apetite: Essa engana, porque a mulher sabe que apetite costuma ter vida própria… Mas nesse caso, a perda ou aumento significativo do apetite é mais persistente (dura mais tempo do que uma fase de TPM, por exemplo).
- Dificuldade de concentração: Problemas em manter o foco, tomar decisões ou realizar tarefas simples, como não conseguir se lembrar de uma senha usual, decidir o que vai fazer no almoço ou sobreviver à hora do banho das crianças.
- Isolamento social: Você se afasta de amigos e familiares, porque nada mais tem cor, sabor ou prazer. Mesmo aquele passeio que você tanto adorava fazer.
- Ansiedade e preocupação excessiva: A preocupação é tanta que a sensação é de que você não vai conseguir descansar nunca, e quando descansa, sente medo, acha que algo muito ruim está prestes a acontecer — mesmo sem nenhum motivo concreto para se sentir assim.
- Sintomas físicos: Dores de cabeça, problemas digestivos, tensão muscular sem causa aparente. Dói tudo porque o corpo fala o que a mente cala.
Leia também: O que estou sentindo é normal?
Estratégias de autocuidado e proteção da saúde mental no trabalho
Diante dessas pressões, você consegue entender que autocuidado não é um luxo, mas uma necessidade?
Aqui estão algumas estratégias eficazes e que você precisa priorizar para não pagar caro na conta da saúde:
- Não é não, e ponto: Aprender a dizer não para família, parceiro, filho ou chefe e definir limites claros entre trabalho e vida pessoal é fundamental. Ninguém disse que dizer não era fácil, mas o benefício é garantido!
- Sono é sagrado: Se em algum momento você perceber que vai cair na armadilha do “trabalhe enquanto eles dormem”, volte à sua sanidade criando uma rotina de sono — procure dormir e acordar nos mesmos horários, prezando a quantidade de horas que precisa para se sentir descansada e garantindo que o ambiente seja o mais tranquilo possível durante à noite (de preferência, longe das telas).
- Comer, rezar e amar: Dos últimos dois a gente fala depois, mas nutrir o corpo com alimentos equilibrados e evitar excessos de açúcar, cafeína e álcool é uma das maneiras que você tem de deixar a conta da saúde mais gorda.
- Mexa-se: Todo mundo sabe que tá para nascer a mulher que fica parada, mas praticar atividades físicas regularmente também é remédio, afinal, o exercício libera endorfinas e pode ajudar a reduzir o estresse.
- Faxina na mente: Meditação, mindfulness, respiração profunda ou prática de yoga são algumas ótimas ideias para acalmar a mente. E o melhor: a maioria não custa nada! É só ganho na sua conta da saúde.
- Conexão social: Manter contato com amigos e familiares, participar de atividades sociais e buscar apoio em grupos é uma das definições de saúde, segundo a própria OMS. O que isso significa? Que o café com as amigas podia ser receita de médico.
Veja também: 10 mitos sobre terapia que você não tem coragem de admitir
Buscando ajuda profissional
Por último, mas não menos importante, é bom que você sempre lembre que se os sintomas persistirem, é crucial buscar ajuda profissional.
Psicólogos e psiquiatras podem oferecer suporte especializado e ajudar a desenvolver estratégias personalizadas. Você não precisa esperar a crise chegar para procurar um psicólogo, mas se estiver, não deixe para depois.
Ao reconhecermos e abordarmos os desafios únicos enfrentados pelas mulheres no dia a dia, damos um passo importante em direção à criação de um ambiente mais equitativo e sustentável.
Proteger a saúde mental das mulheres não é apenas uma questão de justiça individual, mas um benefício para toda a sociedade.
Por isso, é fundamental que instituições, empresas e indivíduos trabalhem juntos para criar espaços de apoio e políticas inclusivas.
Cuidar de quem cuida vai além de um simples dever: é um compromisso coletivo para garantir um futuro mais saudável e equilibrado para todas.
FAQ – Saúde Mental no Trabalho
O que é saúde mental no trabalho?
Saúde mental no trabalho refere-se ao bem-estar psicológico das pessoas no ambiente profissional. Ela envolve a forma como a pessoa lida com estresse, pressão e exigências do dia a dia, e como esses elementos se conectam à saúde emocional, física e social. Ambientes saudáveis tendem a equilibrar demandas profissionais e bem-estar, enquanto contextos tóxicos sugerem prejuízo claro à saúde.
O que é a NR-1 e qual a relação com saúde mental no trabalho?
A NR-1 (Norma Regulamentadora 1) define diretrizes gerais sobre a gestão de riscos ocupacionais nas empresas brasileiras. Desde maio de 2025, a regulamentação obriga organizações a considerar fatores psicossociais (como estresse, assédio e sobrecarga mental) na gestão de segurança e saúde no trabalho. A medida tende a beneficiar especialmente mulheres, que historicamente apresentam taxas mais altas de transtornos relacionados ao trabalho.
O que é Burnout e como ele se conecta ao trabalho?
Burnout é um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse excessivo e prolongado, geralmente ligado ao ambiente de trabalho. Costuma se manifestar por meio de baixa produtividade, sensação de impotência e desconexão com as atividades profissionais. Reconhecer os sinais cedo e procurar tratamento adequado faz diferença para evitar quadros mais graves.
Quais são os primeiros sinais de que a saúde mental no trabalho está em risco?
Os primeiros sinais incluem cansaço que não passa com o descanso, alterações no sono, dificuldade de concentração e mudanças persistentes de humor. Sintomas físicos como dores de cabeça frequentes e tensão muscular sem causa aparente também merecem atenção. Quando esses sinais duram mais de duas semanas, é recomendado procurar avaliação profissional.
O que as empresas podem fazer para promover a saúde mental no trabalho?
Empresas podem identificar e gerenciar riscos psicossociais como estresse e assédio, oferecer programas de apoio psicológico e incentivar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal por meio de horários flexíveis. Também é importante promover ambientes inclusivos e investir em iniciativas de bem-estar como yoga, meditação e atividades físicas. A presença de canais seguros para denúncias de assédio é parte essencial dessa estrutura.
Psicóloga clínica (CRP 05/80118), especialista em Psicopatologia e pós-graduanda em Neuropsicologia, com formação em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Atende mulheres em crises emocionais e transtornos de humor e personalidade. No Personare, oferece consultas de Psicoterapia.
Saiba mais sobre mim- Contato: oi@tatimagalhaes.com
