Carolina Senna
Por Carolina SennaLeia em 10 min.16/03/2018 Atualizado em 07/05/2018

Seu trabalho te define?

Colocar o senso de valor apenas na carreira fora de casa pode sinalizar preconceito oculto

Colocar o senso de valor apenas na carreira fora de casa pode sinalizar preconceito oculto

Seu trabalho te define?

Imagine a cena: você – homem ou mulher – perde o emprego. Uma demissão em massa, por corte de custos. Você se chateia, mas não teme pela sua situação financeira, pois seu parceiro ou parceira tem condições de sustentar bem o casal e os filhos. Pouco tempo depois, porém, você recebe o convite para trabalhar em outro lugar e reingressa no mercado de trabalho.

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Provavelmente, seu senso de valor, que havia ficado abalado com a demissão, se restabelece. E, independente se você gosta ou não do novo lugar, se esse emprego estimula seus talentos ou não, você saiu da categoria do “desemprego” para a do “emprego”. Afinal, se alguém lhe perguntar – “com o que você trabalha?” – você terá o que responder.

Agora, imagine a mesma situação. Só que desta vez você não retorna ao mercado de trabalho. Você tem dois filhos e, com a nova possibilidade de não trabalhar fora, pode cancelar a escola/creche em período integral, pode abrir mão de alguma ajuda que tenha em casa ou do transporte escolar. Com essa situação, você (repito: homem ou mulher) pode passar a cuidar mais do lar e dos filhos. Financeiramente a conta fecha bem. Mas, gostaria que você refletisse:

  1. Como você se sentiria?
  2. Como se sentiria ao preencher um formulário no campo profissão e selecionando a opção “do lar”;
  3. Em um evento social, se lhe perguntassem com o que você trabalha? Como se sentiria ao responder: não trabalho, cuido do lar e dos filhos;
  4. Sentiria o mesmo senso de valor se a resposta fosse “trabalho na empresa X”?

Tenha a honestidade com você. Se respondeu que se sentiria feliz por poder se dedicar mais aos filhos e à família, pois sempre reclamou do pouco tempo que sobrava para eles, parabéns! Você não está na “matrix” e esse artigo não é para você. Entretanto, se os sentimentos que brotaram não foram positivos, continue lendo.

Depositamos nosso senso de valor na carreira

Estamos programados, enquanto sociedade, a seguir um padrão. Grande parte do nosso senso de valor está naquilo que produzimos e fazemos numa carreira fora de casa. Num antigo seriado de TV chamado “Heroes” (NBC), há uma cena que ilustra bem isso. Nela, um motorista de táxi pergunta ao protagonista quem ele é. O mocinho começa a explicar com o que trabalha, quando o motorista o interrompe. “Não perguntei o que você faz. Perguntei quem você é”, diz.

Nosso trabalho define, em grande parte, quem somos e nossas conquistas profissionais e financeiras tornam-se selos de qualidade para nosso senso de valor.

Nosso trabalho define, em grande parte, quem somos e nossas conquistas profissionais e financeiras tornam-se selos de qualidade para nosso senso de valor.

Nos sentimos mais ou menos, de acordo com o que alcançamos entre promoções e a carreira, status social e bens.

Isso impulsiona as pessoas a trabalharem mais. Algumas buscando mais sucesso e novas conquistas. Outras, uma condição financeira que as permita ter o que consideram conforto, mas que, muitas vezes, também são formas de buscar status e fortalecer o senso de valor.

Um exemplo disso, são os altos índices de inadimplência atuais devido a trocas de celular por modelos mais modernos, compras de bens de consumo como o tênis da moda etc. Essas compras de artigos que não são de necessidade básica, ocorrem inclusive em pessoas com renda até 2 mil reais e podem ser facilmente cortadas ou consumidas em menor escala, se revermos nossos valores.

Muitas pessoas que vivem esse cenário são pais e mães. Casais que estão nessa busca do status e do sucesso, mas que também quiseram ter filhos. Poucos, no entanto, fizeram as contas do quanto precisariam terceirizar a criação dos mesmos para trabalhar fora.

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Por que nosso senso de valor está na profissão?

A saída da mulher para o mercado de trabalho, foi uma conquista sem precedentes. Contudo, o preconceito em relação ao que era considerado “trabalho de mulher” permaneceu. Em geral, cuidar da casa e dos filhos como atividade principal ainda é considerada “tarefa menor” e hoje é repudiada não só por homens, como também por mulheres. A educação e o cuidado com os filhos é, na maior parte do tempo, realizada por avós, babás – ou ainda pela escola e pela creche. Encarar a cozinha, em muitos casos, se tornou um tabu ou motivo de vergonha.

Vendo esse cenário, podemos entender porque se torna cada vez mais difícil nos sentirmos bem e valorizados na sociedade se não estamos no mercado de trabalho. Ou seja, se somos “do lar”. Podemos compreender um pouco mais os sentimentos que brotaram nas perguntas iniciais deste artigo. Estamos gradativamente quebrando as barreiras do preconceito em relação ao que a mulher é capaz de fazer no mercado de trabalho e na sociedade, mas permanecemos com preconceito em relação ao que antes era o lugar reservado às mulheres.

Por que o lar era reservado às mulheres?

Podemos buscar explicações nessas diferenças de papéis, ao longo da história, em nossas raízes pré-históricas. Se pensarmos em nossos ancestrais “das cavernas”, os homens iam caçar, enquanto as mulheres cuidavam da cria e do refúgio. Numa leitura simplista, podemos considerar que as mulheres fossem consideradas frágeis e, por isso, a necessidade de ficar no que então era chamado de lar. Contudo, se olharmos para as primeiras manifestações artísticas da história, quase todas as representações humanas datadas de 30.000 a 5.000 anos antes de Cristo são de figuras femininas – com quadris largos, barrigas semelhantes às de mulheres grávidas e seios fartos, como a Vênus de Willlendorf, na imagem em destaque.

 

A interpretação mais difundida pelos historiadores é a de que nossos ancestrais pré-históricos reverenciavam as mulheres como seres divinos. A capacidade de gerir e dar a luz a um ser humano era tida como algo sobrenatural. E, portanto, o feminino era visto como a fonte e manutenção da vida. Considerando isso, não seria a permanência da mulher na “caverna” uma forma de proteger e reverenciar esse feminino? A necessidade de tratar com muito cuidado e atenção algo que é, por natureza, sagrado. Muitas manifestações posteriores artísticas e espirituais continuaram a relacionar o feminino ao divino e sagrado. Aproximadamente há 4.000 anos atrás é que o modelo social patriarcal se tornou dominante e a divindade começou a ser retratada na figura de homens. Provavelmente, foi ao longo do fortalecimento da sociedade patriarcal que tenhamos perdido essa relação com o lar como algo reservado ao sagrado.

Provavelmente, ao longo desses 4.000 anos, o que antes era considerado sagrado e especial, tenha começado a ser visto como frágil e limitado. Acredito que, nesse período, fomos perdendo nossa reverência às tarefas do lar e do cuidado com os filhos e passamos a ver isso como algo inferior ao que entendemos e valorizamos como o “trabalho de homem”.

O fortalecimento do patriarcado

Provavelmente isso se fortaleceu na Revolução Industrial, quando a mulher saiu de casa para o mercado de trabalho, mas a mão de obra feminina tinha salários menores que os homens. Os cargos de chefia e gestão, com melhores remunerações, eram destinados ao sexo masculino.

Os cargos de chefia e gestão, com melhores remunerações, eram destinados ao sexo masculino.

Nas classes mais abastadas, o papel do feminino era reservado ao lar, porém não mais como sagrado. Acreditava-se que ter uma carreira não era algo para uma mulher, como se fossem menos que os homens. Podemos dizer que, na época, existia não só uma falta de consciência e respeito à mulher, como também um preconceito com o trabalho doméstico. Educar os filhos, cuidar de uma casa, criar mecanismos para manter a família unida, por exemplo, eram consideradas tarefas menos importantes. E, infelizmente, essa visão permanece até hoje.

Depois do movimento feminista da década 60, o espaço da mulher no mercado de trabalho veio mudando e seu reconhecimento como profissional também. Transformações essas que foram posteriormente regulamentadas na Constituição de 1988, no Brasil. É provável que, nessa época, o preconceito em relação ao trabalho “do lar” tenha se fortalecido entre mulheres também, como se quiséssemos romper com o passado ou com algo que foi símbolo, por tanto tempo, do pouco valor que a sociedade conferia às mulheres. Não percebemos, porém, o quanto isso é um preconceito oculto em relação ao próprio feminino.

Mergulhando no preconceito oculto

Essa visão de que o cuidado com os filhos, o lar, os alimentos e a família são coisas menos importantes é uma visão bem sutil. Se debatermos objetivamente, a maioria dos pais e das mães no mercado de trabalho dirão que a família é prioridade. Mas, na prática, se sentirão menos valiosos se seu tempo principal for dedicado a eles. Esse pode ser o seu caso, na hipótese de ter se sentido desconfortável com as perguntas no início do artigo. Porém, é possível que, se não tivéssemos vivido essa mudança histórica de 4.000 anos atrás, cuidar da casa e da família tivesse o mesmo grau de importância que a construção de uma carreira fora.

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Nesse ponto, você pode estar considerando o artigo utópico, já que para a maioria dos casais pode parecer inviável financeiramente um membro do casal não ter uma renda ou trabalhar menos para se dedicar ao lar. Para muitos essa é, de fato, a realidade.

Porém, outras tantas pessoas poderiam fazer a conta na ponta do lápis. Mas como?

  1. Avalie seus gastos dos últimos 6 meses;
  2. Identifique o percentual destinado a itens que não são essenciais. Em outras palavras, o quanto você gastou com compras, serviços ou experiências, que não são imprescindíveis?
  3. Some todos esses gastos e divida por 6 e terá o custo mensal desse estilo de vida;
  4. Avalie se você consegue abrir mão dessa parcela da sua renda gasta com extras para trabalhar menos ou numa atividade que lhe permita horários mais flexíveis;

Se parecer difícil abrir mão de um estilo de vida, precisamos refletir: o que ele nos traz? Eu preciso trocar o celular por necessidade ou porque me sinto bem com um aparelho mais novo? A dificuldade em abrir mão de algumas dessas coisas muitas vezes reside no senso de valor que elas nos trazem. A busca por nos sentirmos importantes, reconhecidos.

Que mulher você quer ser neste ano?

Não é difícil de entender porque depositamos nossa autoestima em realizações e conquistas. Afinal, qual o espaço que temos hoje na sociedade para falar de mulheres do passado que criaram famílias, muitas vezes numerosas, com pouco ou nenhum apoio do marido? Esse foi o caso da minha avó. Na década de 40, no Nordeste, em meio a dificuldades financeiras e com o marido ausente na maior parte do tempo, ela foi capaz de criar 12 filhos saudáveis e dentro de valores morais e éticos. Enquanto pouco falamos de mulheres como ela, de suas histórias e realizações, celebramos frequentemente empresários, engenheiros, inventores de seu tempo.

Quando reverenciamos figuras femininas na nossa história recente, na maior parte das vezes, também refere-se às suas conquistas profissionais e fora de casa.

Não estou desmerecendo o contexto profissional, mas precisamos encontrar um equilíbrio. O que minha avó, naquele momento, teve que passar? Imagine como teve que desenvolver as capacidades de constante superação pessoal, determinação, liderança e aprendizado contínuo, criatividade para encontrar as melhores soluções. Se olharmos por esse prisma, o ambiente doméstico não é menos. Talvez, seja mais desafiador do que longas horas à frente do computador.

O impacto em você e na família

Enquanto estamos buscando nosso senso de valor fora, deixamos de perceber quais são os pequenos valores diários que nossos filhos estão absorvendo quando ficam horas vendo desenhos na TV ou quando passam tempo demasiado com outras pessoas. Não notamos quais impactos nossa ausência – como pais e mães – têm na construção do senso de valor deles, nas carências emocionais e nos atuais ou futuros problemas de relacionamento.

Não notamos quais impactos nossa ausência – como pais e mães – têm na construção do senso de valor deles, nas carências emocionais e nos atuais ou futuros problemas de relacionamento.

A visão da cozinha como algo também menor, nos levou a uma alimentação pouco saudável. O cardápio familiar é cada vez mais preenchido pelos alimentos prontos e industrializados que são uma das principais causas de algumas epidemias e condições médicas que vivemos atualmente como as de obesidade, doenças autoimunes e diabetes, só para citar algumas.

A busca incessante por esse senso de valor na carreira e no status e o número excessivo de horas dedicados ao trabalho, tem tido como consequências o estresse, como a Síndrome de Burnout, com altos índices de ansiedade e depressão. O Brasil é o primeiro país em índices de ansiedade no mundo, o segundo em estresse e o quinto em depressão. Esses são apenas alguns exemplos do impacto da desvalorização do lar em nossa vida e na dos nossos filhos.

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Existe caminho de volta?

Acredito que sim. Se organizamos a sociedade, os papéis e as configurações de trabalho que se estabeleceram nas últimas décadas, podemos reconstruir a forma como enxergamos nossa casa, nossos filhos e nossas responsabilidades familiares. Um casal pode debater melhor se ambos irão trabalhar em tempo integral, parcial ou se um dos dois ficarão exclusivamente em casa. Podem refletir se existem outras fontes de renda além do “trabalho fora”, explorando ideias de empreendedorismo, trabalhos freelancer e outras formas de sustentar a família.

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Não são mudanças simples e, para que ocorram, talvez o primeiro passo seja iniciar um processo de autoconhecimento. Um caminho para entender se:

  1. Você prefere o trabalho “fora” por explorar melhor seus talentos e a expressão de sua missão de vida ou porque teria vergonha de se tornar alguém “do lar”?
  2. O seu estilo de vida – horários, bens, condição financeira e etc – é algo que você precisa para atender necessidades ou são acessórios do seu senso de valor social?
  3. Você teve filhos (ou deseja ter) porque acredita ser o caminho natural da vida ou porque ama crianças e tem prazer em conviver com elas?
  4. Você não gosta de cuidar da casa e cozinhar ou nunca tentou tornar isso uma atividade prazerosa?
  5. Seus filhos ficam tempo integral na escola porque você acredita que lá serão estimulados e irão aprender mais ou porque seu trabalho não possibilita que você fique uma parte do dia com eles?

Essas são apenas algumas perguntas para aguçar sua reflexão. Se acredita que hoje você viva esse preconceito e gostaria de repensar sua condição familiar, outra dica é buscar auxílio num processo terapêutico. Ele pode ajudar a responder genuinamente essas perguntas e tantas outras mais profundas que talvez impulsionem você a repensar a vida, sair da “matrix” e, quem sabe, passar a olhar de outra forma para o trabalho “do lar”. Questões que estimulem a resgatar nossas raízes ancestrais e honrar o que historicamente foi o papel do feminino. Para que hoje, homens e mulheres possam exercê-lo-lo com carinho, reverência e orgulho.

Carolina Senna

Carolina Senna

Sócia-fundadora do Personare e diretora da empresa há 14 anos. Nesta trajetória, passou a entender a fundo as causas e consequências dos grandes males da "vida moderna", como estresse e depressão.