Por que algumas pessoas se viciam em apostas e outras não?
Vício em apostas leva o SUS a 12 consultas por dia. Entenda por que as bets viciam e veja onde buscar ajuda agora
Estamos em julho de 2026 e o cenário do vício em apostas é alarmante. O que antes era visto como entretenimento inofensivo se tornou uma crise de saúde pública: a explosão das famosas “bets”.
Como coordenadora de grupos terapêuticos voltados para dependência química e comportamental, acompanho de perto o avanço das bets e o rastro que elas deixam na saúde mental de quem aposta e de suas famílias.
Quero aqui trazer informações sobre como “nasce” o vício em apostas, por que alguns se viciam e outros não, e, principalmente, qual o caminho de saída.
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Resumo sobre o vício em apostas
- A ludopatia (o vício em jogos e apostas) já é a quarta dependência mais comum no Brasil, atrás apenas de álcool, tabaco e maconha.
- O vício em apostas é um vício comportamental que ativa no cérebro a mesma descarga de dopamina de uma droga pesada.
- Nem todo mundo desenvolve dependência: estruturas emocionais mais frágeis tendem a maior vulnerabilidade.
- O componente financeiro funciona como agravante, alimentando a fantasia do “milagre” que resolveria a vida.
- A recuperação começa quando a pessoa aceita que convive com uma doença crônica e busca apoio especializado.
- O SUS oferece atendimento gratuito e confidencial, e há grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos.
Por que o vício em apostas explodiu no Brasil?
O fenômeno não é novo em essência, mas em substância. Quando comecei a pensar neste tema, lembrei de um paralelo que vivi de perto ainda criança: o cigarro.
Houve um tempo em que o “Homem Marlboro” representava o ápice do sucesso, da liberdade e da virilidade. Levamos décadas para compreender que aquela imagem de liberdade era, na verdade, a moldura de uma dependência química severa.
Algo parecido tem acontecido com o álcool. A droga, uma das mais aceitas socialmente, já está na mira da Geração Z, que mostra estar priorizando a saúde física, bem-estar e menor exposição social ao palcool.
Não à toa, o “canto da sereia” mudou de tom. Não é mais o cigarro ou álcool, e sim o clique.
Influenciadores e celebridades anunciam as bets de forma indiscriminada, vendendo a ideia de dinheiro fácil e adrenalina como se não estivéssemos diante de um vício tão corrosivo quanto o álcool ou as drogas químicas.
Dados alarmantes no Brasil
O tamanho do fenômeno impressiona: em 2025, o Brasil se tornou o quinto maior mercado de bets do mundo, com faturamento estimado em cerca de R$ 22 bilhões.
As consequências já aparecem nos dados de saúde:
- O SUS já registra uma média de 12 consultas diárias para viciados em apostas.
- Segundo o Ministério da Saúde, a procura por atendimento em saúde mental ligado às apostas cresceu quase 140% em cinco anos.
- Ainda de acordo com o Ministério, a ludopatia já é a quarta dependência mais comum no país, atrás apenas de álcool, tabaco e maconha.
O milagre do “feijão mágico” financeiro está cobrando seu preço na saúde mental da população.
Por que algumas pessoas se viciam em apostas e outras não?
No trabalho terapêutico voltado para dependência química e comportamental, ouço frequentemente perguntas como:
- “Por que meu amigo que joga consegue parar e eu não?”.
- “Por que até os 40 anos eu não tive problemas com álcool, e depois passei a ter?”.
A resposta não é simples, mas é profunda. O vício não pode ser pensado como uma falha de caráter, porque tem causas multifatoriais que envolvem biologia, história de vida e estrutura emocional.
Imagine a psique humana como uma casa. Algumas casas possuem paredes sólidas e fundações profundas; outras apresentam rachaduras estruturais invisíveis a olho nu.
Para algumas pessoas, a substância ou o comportamento (como a aposta) funciona como um “cimento” para essas rachaduras. O problema é que esse cimento é corrosivo.
Ele oferece um alívio imediato para a ansiedade, a solidão ou a sensação de inadequação, mas, com o tempo, ele destrói a própria estrutura que tentava consertar.
O vício é uma tentativa de cura que deu errado. É a busca por um estado de inteireza por meio de um objeto externo que jamais poderá preencher um vazio interno.
Quem tem uma estrutura psíquica mais resiliente pode experimentar o estímulo sem se tornar escravo dele. Quem carrega vazios profundos, por outro lado, encontra na aposta uma “solução adictiva” que parece mágica, mas pode ser devastadora.
A ilusão do comportamento inofensivo
No caso das bets, existe um perigo silencioso: elas não envolvem a ingestão de uma substância. Não há o cheiro do álcool ou a fumaça do cigarro.
É um vício comportamental, o que o torna, em muitos aspectos, mais insidioso. Isso porque o cérebro do apostador reage à expectativa do ganho com a mesma descarga de dopamina de uma droga pesada.
É uma montanha-russa neuroquímica que altera o julgamento e a percepção da realidade.
No jogo, o componente financeiro atua como um agravante. Mais do que prazer, o apostador busca o “milagre” que resolverá sua vida. É uma regressão ao pensamento mágico infantil, em que o esforço é substituído pela sorte.
E para quem tem a “casa psíquica” fragilizada, a aposta deixa de ser um jogo e passa a ser a única via de esperança, tornando o risco de queda ainda maior.
Mas é importante lembrar que, assim como qualquer outro vício, o risco financeiro das bets é apenas a ponta do iceberg; o verdadeiro prejuízo é a falência emocional e a perda da liberdade de escolha.
O caminho da recuperação
No trabalho com dependentes de álcool, remédios e outras drogas, percebo um padrão claro: a recuperação só começa quando o indivíduo aceita que possui uma doença crônica.
O vício é, em grande medida, uma doença do ego, uma vez que o adicto acredita que pode controlar o incontrolável. Ele se sente onipotente diante da substância ou do jogo, até que a realidade o esmaga.
Por isso é que, abaixo, elenco os pilares que observo serem fundamentais para quem deseja sair de qualquer ciclo vicioso.
4 pilares para recuperação do vício em apostas:
- Admitir a impotência: entender que, diante daquela prática ou de uma substância, o indivíduo perdeu o poder de escolha.
- Vigilância eterna: a dependência não tem cura, tem tratamento. É uma condição que exige cuidado diário, “um dia de cada vez”.
- Fortalecimento da estrutura: não basta parar de apostar ou de ter contato com sua substância de escolha; é preciso tratar as rachaduras da “casa”. Isso envolve terapia, autoconhecimento e desenvolvimento de novas habilidades de enfrentamento.
- Capacidade de estar só: muitos vícios nascem da incapacidade de suportar o próprio silêncio e o vazio existencial. Aprender a habitar a própria companhia é o maior antídoto contra a busca por estímulos externos frenéticos.
Carl Jung, em sua famosa correspondência com Bill W. (cofundador dos Alcoólicos Anônimos), cunhou a expressão “Spiritus contra Spiritum”. Ele argumentava que a sede pelo álcool (o espírito destilado) era uma busca distorcida pela sede espiritual, pelo sentido da vida.
O vício nas bets é, também, uma busca por um milagre em um mundo que parece ter perdido o encanto e a segurança.
Para vencer o “espírito” das apostas, é necessário um espírito de maior grandeza: o da consciência, da comunidade e do propósito real.
A pergunta mais importante
Portanto, se você se sente atraído pelo brilho fácil das telas de apostas ou de algum outro tipo de anestesia para sua angústia existencial, pergunte-se:
- Qual buraco na minha estrutura eu estou tentando tapar?
E se você ainda se pergunta se deve “testar” sua sorte, minha resposta é clara: o risco não compensa, especialmente porque não sabemos de antemão quem possui a vulnerabilidade para o vício.
Brincar com mecanismos de aposta é como caminhar em um campo minado sem saber onde as minas estão enterradas.
Lembre-se sempre de que a verdadeira sorte não está no ganho financeiro imediato, mas na preservação da sua integridade mental e na capacidade de viver uma vida em que você, e não um algoritmo, detém o controle.
Busque ajuda para o vício em apostas
Se você, ou alguém que você ama, está enfrentando o peso do vício em apostas (bets), substâncias ou comportamentos compulsivos, saiba que você não está sozinho(a).
O vício é uma doença que prospera no isolamento e no silêncio, mas que encontra cura na conexão e no suporte especializado. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza, mas um ato de coragem e preservação da vida.
Atendimento médico e psicológico
O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece tratamento integral e humanizado. Você pode procurar a Unidade Básica de Saúde (Posto de Saúde) mais próxima ou dirigir-se diretamente aos centros especializados:
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): unidades especializadas em saúde mental. Para casos de vício, procure o CAPS AD (Álcool e Drogas), que atende também dependências comportamentais, como o jogo.
- Teleatendimento do SUS (Meu SUS Digital): atendimento online gratuito e confidencial para maiores de 18 anos com compulsão por apostas, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. No aplicativo Meu SUS Digital, acesse “Miniapps” e depois “Problemas com jogos de apostas?” para fazer um autoteste e ser encaminhado. Dúvidas: ligue 136.
- Atendimento profissional: psicólogos e psiquiatras da rede pública ou privada estão preparados para oferecer acolhimento sem julgamento e estratégias de redução de danos.
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Grupos de apoio mútuo
A troca de experiências com quem vive o mesmo desafio é um dos pilares mais fortes da recuperação:
- Jogadores Anônimos (JA): apoio específico para o vício em apostas e jogos de azar. jogadoresanonimos.com.br
- Alcoólicos Anônimos (AA): reuniões presenciais e online para dependência de álcool. Ligue (11) 3315-9333 ou acesse aa.org.br
- Narcóticos Anônimos (NA): apoio para dependência de substâncias químicas e remédios. na.org.br
Canais de escuta e emergência
- CVV (Centro de Valorização da Vida): apoio emocional e prevenção do suicídio. Atendimento 24h, gratuito e sigiloso. Disque 188 ou acesse cvv.org.br
- Disque 100: Direitos Humanos. Útil para orientações gerais e denúncias de violações ligadas à vulnerabilidade social.
Lembre-se: a recuperação é um processo contínuo, um dia de cada vez. O primeiro passo é romper o segredo. Existe uma rede pronta para acolher você hoje.
Perguntas frequentes sobre vício em apostas
O vício em apostas é considerado uma doença?
Sim. O transtorno do jogo, também chamado de ludopatia, é reconhecido como um transtorno de saúde mental e, segundo o Ministério da Saúde, já é a quarta dependência mais comum no Brasil, atrás apenas de álcool, tabaco e maconha. Isso significa que a dependência de apostas não se resume a falta de força de vontade, e sim a uma condição de saúde que pede acompanhamento profissional. Reconhecer esse ponto costuma ser o primeiro passo para buscar tratamento adequado.
Por que as bets viciam tanto?
As apostas online ativam o sistema de recompensa do cérebro e provocam descargas de dopamina semelhantes às de drogas pesadas, principalmente pela expectativa do ganho. Como o resultado é imprevisível, o cérebro fica em constante estado de antecipação, o que reforça o comportamento. Some-se a isso o componente financeiro, que alimenta a fantasia de resolver a vida de uma vez, e o acesso fácil pelo celular. Essa combinação ajuda a explicar por que muitas pessoas perdem o controle sobre o quanto e o quando apostam.
Quais são os sinais de que estou viciado em apostas?
Alguns sinais costumam indicar perda de controle: apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção, tentar recuperar perdas apostando mais, mentir sobre quanto se joga, se endividar, negligenciar trabalho, estudos ou relações e sentir irritação ao tentar parar. Se você se reconhece nesses padrões, vale procurar ajuda profissional, como um CAPS AD ou um psicólogo, que pode avaliar o nível de dependência e indicar os próximos passos.
Como parar de apostar?
Não existe fórmula única, mas alguns passos costumam ser decisivos: admitir a perda de controle, buscar apoio especializado (psicólogo, psiquiatra ou CAPS AD), participar de grupos como os Jogadores Anônimos e tratar as questões emocionais por trás do vício com terapia. Ferramentas de autoexclusão, que bloqueiam o acesso a sites de apostas, também ajudam a reduzir o gatilho. A recuperação tende a funcionar melhor quando é acompanhada, um dia de cada vez, e não enfrentada sozinha.
Onde conseguir ajuda gratuita para o vício em bets?
O SUS oferece atendimento gratuito e confidencial. Você pode procurar a UBS mais próxima ou um CAPS AD (Álcool e Drogas). Também há grupos de apoio como os Jogadores Anônimos (jogadoresanonimos.com.br). Em momentos de crise emocional, o CVV atende 24h pelo telefone 188, de forma gratuita e sigilosa. Pedir ajuda é um ato de coragem.
Psicóloga clínica (CRP 05/80118), especialista em Psicopatologia e pós-graduanda em Neuropsicologia, com formação em Terapia Comportamental Dialética (DBT). Atende mulheres em crises emocionais e transtornos de humor e personalidade. No Personare, oferece consultas de Psicoterapia.
Saiba mais sobre mim- Contato: tatianamagalhaes.psico@gmail.com
