Por que mulheres tão competentes ainda duvidam do próprio valor?
Entenda por que mulheres que duvidam do próprio valor mesmo sendo competentes e como construir uma relação mais justa consigo
Por Gabi Squizato
Algumas das mulheres que mais duvidam do próprio valor são, justamente, as mais preparadas da sala.
Imagine duas pessoas começando um novo trabalho: as duas estudaram, têm experiência e entregam bons resultados. Ainda assim, uma delas passa dias pensando se realmente merece estar ali. A outra levanta a mão, dá opiniões, aceita desafios e segue aprendendo enquanto faz.
Essa cena acontece todos os dias e costuma despertar uma pergunta dolorosa em muitas mulheres: “o que há de errado comigo?” Talvez a resposta seja: absolutamente nada.
O que existe, muitas vezes, é uma combinação entre histórias pessoais, mensagens recebidas ao longo da vida e expectativas sociais. Elas fazem a competência crescer em um ritmo muito mais rápido do que a forma como aprendemos a enxergar a nós mesmas.
É por isso que tantas mulheres preparadas seguem sentindo que, a qualquer momento, alguém vai descobrir que elas não são tão boas quanto parecem. Esse sentimento costuma ser chamado de síndrome da impostora.
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Competência e identidade nem sempre crescem juntas
Existe uma ideia muito difundida de que confiança é consequência da competência. Deveria ser, concorda? Mas, na prática, essa relação nem sempre funciona assim.
É possível estudar, fazer especializações, acumular experiência, resolver problemas complexos e ainda sentir que falta alguma coisa para finalmente merecer reconhecimento.
Isso acontece porque desenvolver uma habilidade técnica é diferente de atualizar a própria identidade.
Como assim? Você aprende uma nova competência em meses, mas às vezes leva anos para acreditar que ela realmente faz parte de quem você é, dependendo muito de como está desenvolvida a sua autoestima.
É como se a realidade avançasse mais rápido do que a imagem que você construiu de si mesma.
Enquanto as pessoas ao seu redor enxergam uma profissional preparada, você continua conversando internamente com uma versão antiga, que ainda acredita precisar provar seu valor o tempo todo.
O que muitas mulheres aprendem desde cedo
Nenhuma menina nasce acreditando que precisa ser perfeita para merecer reconhecimento, mas essa ideia costuma ser construída aos poucos, começando bem cedo.
Essa cobrança silenciosa tem tudo a ver com o perfeccionismo, que costuma cansar mais do que proteger.
Em muitas famílias e contextos sociais, meninas recebem elogios quando são educadas, organizadas, prestativas e discretas, principalmente quando obedecem e não contestam. Aprendem a evitar conflitos, a agradar, muitas vezes a qualquer custo, a não incomodar.
Enquanto isso, muitos meninos são incentivados a explorar, competir, testar limites, correr riscos e confiar que descobrirão o caminho enquanto caminham.
Isso não acontece em todas as famílias, nem da mesma forma para todas as pessoas, mas é um padrão que ainda aparece com frequência na nossa cultura.
O resultado nem sempre é visível na infância, mas fica claro como a água na vida adulta. Muitas mulheres sentem que precisam estar completamente preparadas antes de dar qualquer passo:
- levantar a mão para dar uma ideia em uma reunião;
- pedir um aumento;
- se candidatar a uma vaga;
- publicar um conteúdo;
- dizer “eu consigo, eu dou conta”.
Enquanto isso, pessoas menos preparadas podem agir com muito mais tranquilidade, simplesmente porque aprenderam, desde cedo, que errar faz parte do processo.
Muitas vezes, isso tem menos a ver com capacidade e mais com a forma como aprendemos a nos autorizar e a existir no mundo.
Uma identidade que ainda não se atualizou
O problema costuma estar menos na competência e mais em uma identidade que ainda não se atualizou. Imagine alguém que mudou de casa, mas continua colocando a mão no lugar do interruptor da casa antiga toda vez que entra em um cômodo.
Com a autoestima acontece algo parecido: sua vida muda, seu currículo muda, sua experiência muda, mas a imagem que você tem de si mesma nem sempre acompanha essas transformações na mesma velocidade.
Você continua se percebendo como aquela profissional insegura do início da carreira, mesmo quando as evidências mostram outra realidade.
É por isso que tantas mulheres têm dificuldade para aceitar um elogio. Quando alguém diz “seu trabalho ficou excelente”, elas pensam: “foi sorte”, “qualquer pessoa faria”, “nem ficou tão bom assim”.
Fazem isso porque o elogio entra em conflito com a história que ainda contam sobre si mesmas. E o cérebro costuma confiar mais nas histórias antigas, aquelas bem batidas, do que nas evidências novas.
Por isso vale aproveitar a neuroplasticidade e ir apresentando novas evidências a ele.
A sensação de fraude sobrevive aos resultados
Uma das características mais curiosas da chamada síndrome da impostora é que ela não desaparece necessariamente quando a pessoa alcança sucesso. Às vezes, pelo contrário, pode até crescer.
Imagine só: chega uma promoção, surge um cargo maior, os clientes aumentam, a responsabilidade também. E, junto com tudo isso, aparece um pensamento silencioso: “agora vão descobrir que eu não sou tudo isso.”
Se o problema fosse falta de competência, cada conquista resolveria a insegurança, você não acha? Mas isso raramente acontece, porque conquistas externas não mudam, sozinhas, a maneira como alguém se percebe.
Quem acredita que precisa provar seu valor encontra uma forma de explicar cada resultado sem reconhecer a própria participação.
Pensam coisas como “foi sorte”, “foi indicação”, “o mercado estava bom”, “as pessoas foram generosas”. Curiosamente, quando algo dá errado, a conclusão costuma ser bem mais rápida: “foi culpa minha”, “eu sabia que não era boa o suficiente mesmo”.
Nossa mente tende a proteger as crenças que já conhece e procura evidências para confirmá-las. Por isso, aprender a reconhecer o próprio valor também exige revisar as histórias que contamos sobre nós mesmas.
Existe uma diferença entre humildade e invisibilidade
Durante muito tempo, muitas mulheres confundiram reconhecer a própria competência com arrogância, como se admitir “eu faço isso bem” fosse uma demonstração de vaidade. Mas existe uma diferença importante entre se dar crédito e se sentir superior.
Arrogância é acreditar que só você é melhor do que todos os outros. Reconhecer a própria competência é apenas olhar para a realidade com honestidade. Da mesma forma que exagerar suas capacidades distorce a realidade, diminuí-las também distorce.
Quando você faz de conta que sabe menos do que sabe, entrega menos do que poderia e ocupa um espaço menor do que conquistou, ninguém ganha com isso, nem as pessoas que poderiam se beneficiar do seu trabalho, nem muito menos você.
Como fortalecer uma percepção mais justa sobre o próprio valor
A forma como você se enxerga não é definitiva. Ela pode ser atualizada pela disposição de observar a realidade com mais honestidade. Algumas perguntas podem ajudar nesse processo:
- Quais evidências da minha competência eu costumo ignorar?
- Quais elogios sempre encontro uma maneira de desvalorizar?
- Estou avaliando meu desempenho pelos fatos ou por uma história antiga sobre mim?
- Em quais situações sinto que ainda preciso provar que mereço estar ali?
- Se uma amiga tivesse exatamente a minha trajetória, eu julgaria a competência dela da mesma forma que julgo a minha?
Essa última pergunta costuma ser especialmente reveladora, porque muitas mulheres oferecem aos outros uma generosidade que nunca oferecem a si mesmas.
Júpiter em Leão e o convite para reconhecer a própria luz
Ao longo desta série, temos falado sobre os convites simbólicos de Júpiter em Leão. No primeiro artigo, refletimos sobre ocupar o seu espaço, depois, sobre a coragem de ser vista. Agora, talvez o convite seja ainda mais íntimo: permitir-se reconhecer a própria luz.
Leão fala sobre expressão, criatividade e identidade. Júpiter amplia tudo aquilo que toca. Para quem passou anos aprendendo a minimizar as próprias conquistas, esse trânsito pode trazer exatamente o desconforto necessário para revisar uma pergunta antiga:
Quanto da minha vida ainda está sendo guiado pela necessidade de provar meu valor?
Talvez essa pergunta não tenha uma resposta imediata, e é até bom refletir com calma, mas ela pode abrir espaço para uma relação muito mais verdadeira consigo mesma.
Perguntas frequentes
O que é síndrome da impostora? A síndrome da impostora é um fenômeno psicológico em que pessoas competentes têm dificuldade para reconhecer o próprio mérito e vivem com a sensação de que, em algum momento, serão descobertas como uma fraude, mesmo diante de resultados consistentes.
Por que tantas mulheres duvidam do próprio valor? Diversos fatores podem contribuir para isso, incluindo experiências pessoais, mensagens recebidas durante a infância, padrões culturais e a forma como muitas mulheres aprendem a lidar com erro, reconhecimento e exposição.
É possível ser competente e ainda assim sentir insegurança? Sim. Competência e autoimagem não evoluem necessariamente na mesma velocidade. É comum desenvolver habilidades muito antes de conseguir reconhecer plenamente o próprio valor.
Como saber se estou diminuindo minha competência? Se você costuma atribuir seus resultados apenas à sorte, minimizar elogios, acreditar que nunca está suficientemente preparada ou sentir necessidade constante de provar que merece estar onde está, vale observar como está construindo a percepção sobre si mesma.
Como desenvolver uma relação mais saudável com o próprio valor? O primeiro passo é aprender a olhar para sua trajetória com honestidade. Reconhecer competências não significa ser arrogante. Significa permitir que sua percepção acompanhe as evidências da realidade e deixar que sua identidade cresça junto com sua experiência.
Especialista em inteligência emocional aplicada a negócios, comunicadora e pós-graduada em Psicanálise e em Psicologia Transpessoal. Consultora de negócios para prestadores de serviços, criou a técnica da Liberação Emocional, que lhe permite enxergar a alma humana por trás do negócio e unir o emocional ao estratégico. Já formou mais de 4 mil alunos em diversos países. No Personare, é professora do curso Transição Profissional Turbinada.
Saiba mais sobre mim- Contato: gabi@gabisquizato.com
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