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Como saber se estou num relacionamento saudável?

Relacionamentos saudáveis são fonte de saúde mental. Na busca por eles, precisamos de autoconhecimento, regulação emocional e tolerância à frustração

Como saber se estou num relacionamento saudável? Como avaliar a qualidade de um relacionamento?

Essas perguntas vêm se tornando frequentes nos consultórios de psicologia, desde que aprendemos sobre os riscos que um relacionamento abusivo coloca para nossa saúde física e mental.

Relacionamento saudável: distribuição de amor e respeito

Para respondê-las, não basta falar em respeito, carinho, atenção, cumplicidade, confiança e autonomia. Sim, são itens importantes, porém o fundamental é considerar a distribuição desses itens no relacionamento. Afinal, num relacionamento abusivo (saiba o que é e como identificar um relacionamento abusivo), eles estão presentes, mas em desproporção.

O abusador recebe muita atenção e desfruta de muita autonomia. Por outro lado, a vítima não recebe o mesmo tipo de respeito ou de confiança que seu parceiro obtém.

Na construção de relacionamentos saudáveis, o equilíbrio entre direitos e deveres de cada um dos parceiros é fundamental. Não existe relacionamento saudável se este não for igualitário. Leia mais sobre relações saudáveis.

Relacionamentos saudáveis são igualitários

Na construção de relacionamentos igualitários, é importante considerar a “humanização” ou “objetificação” do outro. Termos um pouco complicados, mas que representam conceitos simples:

Quando “humanizamos” o outro, tratamos o outro como uma pessoa: levamos em conta os sentimentos e desejos do outro nas nossas negociações. Mas quando “objetificamos” o outro, tratamos o outro como tratamos os objetos: impondo nossos desejos e vontades, sem considerar o que o outro pode estar sentindo ou pensando a respeito.

É uma diferença fácil de entender quando invertermos os papéis, e imaginamos como seria “humanizar” um objeto. Imagine ter que perguntar para seu carro pela manhã se ele está ou não disposto a te levar para o trabalho. E se ele respondesse que está indisposto, o que você faria?

Percebeu o absurdo? Objetificar pessoas é absurdo também, porém infelizmente, vemos isso acontecendo com frequência.

Objetificação do outro e violência física ou psicológica

A objetificação do outro está na base de muitas formas de violência urbana: o sequestrador leva o outro contra sua vontade; o estuprador exerce seu desejo sexual sobre o outro sem avaliar se esse desejo é recíproco; o assassino elimina a vida do outro sem seu consentimento.

Da mesma forma, na violência institucional ou social, uma empresa que trata seus empregados como “recursos”, sem acomodar necessidades pessoais, familiares ou de saúde, está objetificando os trabalhadores; uma religião que limita a liberdade feminina para o vestuário ou para o trabalho está objetificando mulheres.

A escravização, que sequestrava pessoas negras na África e as trazia para o trabalho forçado nas Américas, mostra como a objetificação está na base das maiores atrocidades cometidas por uma pessoa ou grupo social sobre outros.

Objetificação do outro e violência doméstica

Quando nos voltamos para os relacionamentos pessoais, refletir sobre a objetificação do outro também é importante. A objetificação do outro está na base das formas de violência doméstica: os excessos de controle, a violência psicológica, o gaslighting (forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas ou inventadas para favorecer o abusador), o abuso físico e também sexual.

O namorado que impede a namorada de conversar com seus colegas de trabalho do sexo masculino por ciúmes está tratando a companheira como uma pessoa com desejos, sentimentos e amizades, ou como um objeto que ele controla? O marido que impede a esposa de trabalhar para que ela cuide da casa e dos filhos, apesar dela ter se formado e iniciado uma carreira, está tratando a esposa como uma pessoa com desejos e ambições, ou como um eletrodoméstico que melhora seu conforto doméstico?

Humanização do outro e relacionamentos igualitários

Você já deve ter notado que é impossível estabelecer um relacionamento saudável se este está marcado pela objetificação do outro.

Por outro lado, a humanização do outro nas relações também impõe desafios. Ela testa nosso autoconhecimento, autocontrole, equilíbrio emocional e capacidade de tolerância à frustração.

Por exemplo: o que acontece com um casal onde um gosta de socializar, e o outro gosta de atividades introspectivas? Se nenhum dos dois objetificar o outro, todas as opções disponíveis envolvem desafios emocionais: ou um deles experimentará mais solidão, ou o outro enfrentará desafios interpessoais ao socializar mais, ou farão atividades separadas e terão que lidar com sentimentos de rejeição e ciúmes. Ou equilibrarão as demandas, e lidarão com todos esses desafios!

Resumindo a ópera

Relacionamentos só são realmente saudáveis quando as relações são humanizadas, já que a objetificação do outro é fonte de violência (física e psicológica). Ao mesmo tempo, pessoas imaturas, desequilibradas, inseguras e controladoras não são capazes de sustentar relacionamentos igualitários, pois a humanização do outro exige maturidade e equilíbrio emocional. Entenda como a autoestima influencia os relacionamentos.

Relacionamentos afetivos igualitários são fonte de qualidade de vida e saúde mental para os envolvidos. Mas, na busca por eles, precisamos superar condicionamentos culturais e costumes herdados de nossos antepassados, que ainda hoje influenciam as dinâmicas das relações, além de superar falhas nos repertórios de autoconhecimento, regulação emocional e tolerância à frustração. Por este motivo, dizemos que a psicoterapia é uma importante aliada na construção de um mundo mais igualitário!

Tatiana Perecin

Tatiana Perecin

Psicóloga pela UFSCar, especialista em Psicologia Clínica / Análise do Comportamento. Trabalha com terapias contextuais, que são referência na intervenção psicológica baseada em evidências científicas de eficácia. Tem mais de 10 anos de atuação em consultório, atendendo adultos em casais em sofrimento emocional, e também casos severos.

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