Ceci Akamatsu
Por Ceci AkamatsuLeia em 5 min.21/10/2015 

Você se deixa contaminar pelo atual momento de crise?

Saiba usar a dificuldade como um impulso de real transformação

Lidar com a crise econômica no Brasil é algo do qual não conseguimos escapar atualmente. Sejam pelas publicações na internet ou nas revistas, ou pelas conversas à nossa volta, a verdade é que onde quer que estejamos, o assunto parece inevitável. Ainda que tenhamos o desejo de nos manter otimistas, quando nos damos conta já estamos fazendo coro às reclamações e lamentações. Tomados pela revolta e angústia, sentimos aquele frio na espinha: o medo diante das ameaças que a crise nos traz.

Olhamos à volta e constatamos que os fatos parecem só reforçar as dificuldades e as impossibilidades. Então, como enfrentar um quadro tão desanimador?

Não há mudança sem transformação interna

Somos todos constituídos não só pelo nosso corpo físico, mas também pelos nossos aspectos emocionais, mentais e espirituais. Sendo assim, nossa realidade coletiva é representada pela união de nossos conjuntos individuais em todos esses níveis.

Dentro da realidade coletiva, temos nossa dimensão emocional coletiva, que é representada fisicamente pelo conjunto de tudo que somos e criamos individualmente neste âmbito, ela engloba nossas estruturas e padrões emocionais individuais. Já nosso mental coletivo é o resultado da soma de nossos padrões e modelos mentais, de ideias e pensamentos pessoais. Por fim, nosso espiritual coletivo é o resultado final da maneira como cada um de nós acessa e lida com o sagrado em nossas vidas.

Por outro lado, existe a realidade coletiva física – que é mais fácil de ser percebida, pois lidamos com ela de maneira mais direta e concreta, mas não temos a mesma clareza para os aspectos mais sutis. Como um conjunto, criamos uma “atmosfera” emocional, mental e espiritual. Se as partes que compõem essa atmosfera não se encontram harmonizadas em si e entre si, ela pode se tornar nociva.

Assim como uma doença física nos avisa que algo não está bem na saúde e precisa ser olhado com mais atenção, os pensamentos e sentimentos negativos trazidos pela crise também nos avisam que algo não vai bem e que precisamos estar mais atentos aos nossos aspectos emocionais, mentais e espirituais.

Por exemplo, todo mundo já deve ter tido a experiência de estar perto de alguém que “exala” pensamentos e sentimentos negativos e que não respeita a própria sacralidade, que não tem um respeito pela existência. Não é nada agradável, certo? Sentimos um peso, algo ruim que nos faz querer estar longe da pessoa. Mas, se por outro lado, entramos na mesma sintonia que ela, alimentamos uma dinâmica em que um reforça o “negativo” do outro, de maneira que os dois saem negativamente fortalecidos para “contaminar” outras pessoas que estejam enfraquecidas nos níveis sutis.

Não precisamos ter medo dos pensamentos e sentimentos negativos, como os trazidos pela ideia da crise, por exemplo (veja aqui 4 dicas para interromper pensamentos negativos). Afinal, não há como não sentir ou pensar de maneira “negativa”. Assim como uma doença física nos avisa que algo não está bem na saúde e precisa ser olhado com mais atenção, os pensamentos e sentimentos negativos trazidos pela crise também nos avisam que algo não vai bem e que precisamos estar mais atentos aos nossos aspectos emocionais, mentais e espirituais.

Esteja no mundo, mas não seja o mundo

Para transformar a realidade física de maneira efetiva é preciso também mudar nossa realidade mais sutil, no nível emocional, mental e espiritual. Sem isso, ainda que as mudanças aconteçam no nível físico, a tendência é que a mesma situação volte a ocorrer ou que algo na mesma qualidade se repita, afinal, a realidade não foi transformada em sua totalidade.

Esta questão me faz lembrar um programa de TV em que se falava sobre o reassentamento de moradores de comunidades carentes em instalações mais dignas. As condições precárias das moradias da favela foram substituídas por conjuntos de edifícios com uma estrutura mais decente e organizada do que os barracos. Porém, em pouco tempo o visual já mostrava o retorno daquela desorganização e precariedade anterior. As pessoas “reconstruíram” a favela na nova estrutura. O comentário que ficou em minha cabeça foi: “tiramos as pessoas da favela, mas não a favela das pessoas!”.

Isso aconteceu porque a estrutura interna daquelas pessoas – emocional, mental e espiritual – recriou de alguma forma a realidade física anterior, justamente aquela que elas mesmas não queriam para si, por mais contraditório que isso pareça. Os moradores não percebiam que aquela estrutura desagradável à sua volta era de alguma maneira construída pela realidade interna deles mesmos. É nesta situação que se torna mais fácil culpar a vida pela falta de oportunidade, o governo pelo descaso, os vizinhos por agirem errado. Isso tudo de fato pode até acontecer. Mas, antes de tudo, ocorre principalmente porque cada um contribui, mesmo sem perceber, para isso. Seria preciso uma mudança interna das pessoas para que a transformação da realidade de fato tomasse forma.

Qual o desafio dos brasileiros diante da crise?

Da mesma forma, hoje, como um país – e não como uma comunidade apenas – precisamos transformar nossas realidades individuais internas para que possamos construir uma realidade diferente em nível coletivo. O primeiro passo para isso é justamente saber trabalhar a raiva, a revolta, a indignação, e não se focar tanto no jogo de culpados. O objetivo é trazer a nossa reflexão para dentro de nós e buscar em nossa realidade individual de que forma estamos contribuindo para alimentar estes sentimentos e pensamentos.

Ainda que de fato existam todas as situações e condições externas negativas, se ficarmos presos a elas, deixamos de dar o primeiro passo para mudá-las. A vida está nos chamando para uma mudança de verdade! Que a crise seja nosso impulsionador dos passos necessários para a real transformação.

A vida está nos chamando para uma mudança de verdade! Que a crise seja nosso impulsionador dos passos necessários para a real transformação.

Que sejamos mais fortes que todos os sentimentos e pensamentos agressivos e negativos que procuram colocar a culpa nos outros e fugir da nossa própria responsabilidade. Que possamos de fato construir não só um país melhor, mas um mundo melhor! Sejamos fortes neste momento, pois a pior batalha não está fora, mas dentro de nós.

Dicas para lidar com o momento

Para a autorreflexão:

  • Como estão meus cuidados com meu corpo/saúde física e com minha casa? Procuro utilizar racionalmente os recursos como água e luz? Separo o lixo e procuro evitar desperdícios?
  • Como lido com meus sentimentos e pensamentos negativos? Como a agressividade, o pessimismo, o desânimo e as reclamações fazem parte de minha vida? Tenho a tendência de repetir situações negativas em minha vida?
  • Enxergo a beleza da vida e de meu próprio ser? Enxergo e cuido de mim, das pessoas e do mundo, reconhecendo e respeitando a sacralidade que existe em tudo?

Exercício para não se contaminar pela crise

Se respondeu sim para uma ou mais questão, experimente focar nos aspectos positivos de sua vida. Seja grato pelas pequenas coisas. Não podemos mudar o mundo lá fora, mas temos, sim, como mudar de acordo com nossa vontade o próprio espaço pessoal. Para isso, sugiro abaixo o exercício de Joshua David Stone, no livro Psicologia da Alma (Ed.: Pensamento).

Não sabemos exatamente o que é bom ou ruim, pois podemos estar na ilusão. Nesses casos, intencione e visualize que você está envolto por uma esfera dourada semipermeável, que só deixa entrar aquilo que está de acordo com a sua sacralidade. As interferências externas desarmoniosas batem na parede da esfera e escorrem por ela, impedidas de entrar. Qualquer interferência interna que não esteja de acordo com o nosso sagrado é também imediatamente sugada para fora, escorrendo pelas paredes da esfera luminosa.

Esse exercício de intenção e visualização cria nos âmbitos sutis uma atmosfera saudável, que nos serve como ferramenta de proteção e harmonização.

 

Ceci Akamatsu

Ceci Akamatsu

Terapeuta Acquântica, faz atendimentos presenciais no Rio de Janeiro, em São Paulo e à distância. É a autora do livro Para que o Amor Aconteça, da Coleção Personare.