Taísa Bohrer
Por Taísa BohrerLeia em 5 min.25/11/2016 

Você está se punindo com a comida?

Alimentação pode ser usada como castigo quando tentamos fugir do que sentimos

Pensar em comer o tempo inteiro, calcular diariamente as calorias dos alimentos ou recusar convites para ir a eventos por medo de exagerar nos docinhos e passar do limite. Você já viveu alguma dessas situações?

Comer é um ato necessário à sobrevivência, faz parte da vida tanto quanto a necessidade de dormir e respirar. Os estímulos como os da fome são essenciais para que saibamos quando é hora de se alimentar, se não morreríamos de fome sem saber. Porém, temos deixado as nossas emoções decidirem com muito mais frequência quando, quanto e como vamos alimentar o nosso corpo.

Comer mal pode ser uma punição por achar que não cuida do seu corpo

E se eu não estou bem com o meu corpo, a minha alimentação poderá ser ainda uma forma de reforçar a punição que acho que mereço. Estar bem com o seu corpo não tem nada a ver com o seu peso, e sim com a forma como você se sente em relação a ele.

Já aconteceu comigo, em momentos que eu não estava em paz com meu corpo e me sentia fracassada por estar com umas gordurinhas a mais. A comida deixava de ser algo prazeroso para se tornar uma forma de punição. Eu comia muito mais do que sentia fome, ou comia vários alimentos processados de uma forma compulsiva, porque emocionalmente achava que merecia me sentir mal por não ter cuidado do meu corpo. Perceba como isso pode ser destrutivo, como podemos nos enganar e pensar que estamos nos dando um prazer, porém, na verdade estamos apenas reforçando um pensamento: “não sou bom o bastante, logo mereço uma punição”.

Como mulher, tive muitos problemas com a minha autoestima e em não me achar bonita fisicamente. Porém, após vivências de autoconhecimento, coaching e terapias eu digo que é possível se sentir bem na sua própria pele, se conectar ao seu corpo de forma amorosa e consciente e, através de mudanças de mentalidade feitas com paciência, melhorar a relação com sua alimentação.

É mito achar que alimentação saudável precisa ser sem graça

Um dos mitos que eu sempre esclareço quando tenho chance é o de que para viver com mais saúde e energia precisamos levar uma alimentação sem graça, sem comidinhas que nos remetem a boas lembranças, por exemplo. Temos uma conexão emocional com a comida muito forte e seria uma tortura excluir completamente os alimentos que nos trazem sensações de conforto. A relação entre o que comemos e sentimos faz parte da nossa vida e influencia as nossas atitudes mais do que imaginamos.

Comida-conforto: o que você ingere quando está com problemas?

Imagine que você chega em casa depois de um longo dia de trabalho, no qual seu colega ou chefe lhe criticou sobre algo que não era sua culpa, ou melhor, sobre algo que você sabe que deu o seu melhor. Ou, então, você teve uma conversa com aquela amiga que sempre lhe entende, mas neste dia o papo não fluiu tão bem assim. Ou a pessoa parceira não enxergou como você está cansado de fazer tudo sozinho e ainda não se ofereceu para ajudar.

Sem pensar muito, quando temos estes dias (e todos nós temos), onde é que normalmente vamos tentar “afogar” nossas angústias e frustrações? Na comida! Algumas pessoas vão sentir vontade de comer chocolate, pois geralmente contém açúcar e gordura em altas quantidades, o que faz o cérebro reagir lançando uma boa dose de hormônios do prazer. Outras vão ter vontade de comer aquele prato de arroz, feijão e fritas que a mãe fazia sempre, para sentir que estão recebendo um colinho imaginário. Cada pessoa tem a sua válvula de escape quando pensamos em “comida-conforto”. Este termo em inglês, “comfort food”, está relacionado aos pratos que geralmente são ricos em gordura e carboidratos que, como mencionei antes, agem como um gatilho para que o nosso corpo sinta um pouco mais de prazer e relaxe.

Este termo em inglês, “comfort food”, está relacionado aos pratos que geralmente são ricos em gordura e carboidratos que, como mencionei antes, agem como um gatilho para que o nosso corpo sinta um pouco mais de prazer e relaxe.

O problema desta relação é que se não tivermos consciência de como e quando estamos fazendo uso da comida como um refúgio, podemos ficar dependentes destas sensações, da mesma forma que alguém pode ficar dependente do consumo de álcool e de drogas. Uma pessoa pode viver sem beber e sem usar entorpecentes, porém não é possível viver sem comer. Por este motivo, é tão importante entender como nos relacionamos com o que comemos e que é possível comer com prazer, ou seja, às vezes você pode tomar aquele sorvete para afogar umas mágoas, mas não fazer disso um hábito ou tratar a comida como a única fonte de prazer.

Qual é a sua motivação para se alimentar melhor?

Ao começar um processo de mudança de mentalidade e de hábitos é necessário entender que você não está fazendo errado porque quer, e sim porque é isso que a sua consciência atual permite. Você tem capacidade e alternativas para fazer muito melhor e com mais prazer, escolhendo alimentos que farão bem não apenas para o corpo, mas também para o seu equilíbrio geral, sem se privar ou fazer dietas que só aumentam os níveis de estresse e frustração consigo mesmo.

Ao observar as nossas ações quanto ao nosso corpo e alimentação, é possível identificar o que necessitamos de verdade, além de saber como produzir as sensações que tanto desejamos de forma mais saudável, para que possamos nos sentir bem ao manter como um hábito.

Basicamente, todos nós queremos nos sentir amados, aceitos e acolhidos. Quando não nos damos isso em primeiro lugar, vamos procurar fora, ou seja, nas interações que temos com o que está fora de nós, com pessoas, animais, objetos – e a relação com o que ingerimos não fica de fora.

Pela minha própria experiência, quando eu comecei a realmente mudar certos hábitos e incluir alimentos mais saudáveis, minha maior motivação era a estética, eu queria melhorar a minha imagem corporal, me achar mais bonita, usar uma calça jeans sem me preocupar com a barriguinha caindo por cima, ter braços mais definidos e um rosto mais fino. Todas estas preocupações que passam pela mente de muitas, se não de todas mulheres, pelo menos uma vez na vida.

Porém, aos poucos, fui percebendo que muito além de fazer mudanças no meu estilo de vida para gostar mais do que vejo no espelho, pela primeira vez em muito tempo eu estava fazendo algo por mim. Eu estava olhando para mim mesma, descobrindo outros lados da minha personalidade e fazendo o possível para me sentir bem e não depender da validação externa. Na minha opinião, desejar se sentir mais bela não é errado e nem deve ser criticado, pois este desejo pode florescer outros aspectos ainda mais profundos e verdadeiros.

Imagino que, assim como eu, muitas mulheres começam esta jornada pois querem emagrecer ou chegar a um determinado peso. E eu entendo se você se sente assim. Não se julgue e não se cobre por querer algo que parece que vai resolver todos os seus problemas. Não é assim que nos vendem a magreza? Como uma solução para todos os problemas, como se a nossa identidade estivesse completamente exposta através do nosso corpo?

Estou aqui para lhe dizer, caso você ainda não saiba, que o seu corpo é parte de você, não o contrário. Quem você é vai muito além do seu peso, cor, altura, gênero e, por isso, não há lógica em vincular o quanto alguém é feliz por estar mais ou menos dentro de um padrão estético.

Exercício ajuda a descobrir real motivo por querer emagrecer

Se você quer entender melhor o que pode estar por trás do desejo de emagrecer, sugiro que faça um pequeno exercício de autoconhecimento agora mesmo. Aplico exercícios como estes durante as minhas consultas com clientes, com maior profundidade e inserindo-as em um ambiente livre de julgamentos. O que as pessoas descobrem muitas vezes é algo que nunca haviam percebido antes, ajudando a aumentar a consciência sobre si mesmas e sobre como agir para se sentir mais conectadas com quem elas são de verdade.

Se você quiser anotar as respostas, será um exercício ainda mais intenso, pois quando escrevemos temos que organizar melhor nossos pensamentos. Vá para algum lugar em que possa ficar em silêncio por alguns minutos, sente-se confortavelmente e respire fundo algumas vezes.

Pergunte-se:

  • O que mudaria na minha vida se meu corpo estivesse mais magro (ou qualquer outra palavra referente ao que você deseja mudar no seu corpo)?
  • O que está acontecendo agora na minha vida que é desconfortável e que talvez não estaria ocorrendo se eu me sentisse mais bonito e confortável na minha pele?
  • O que eu adoraria fazer, mas não estou conseguindo, pois sinto que preciso emagrecer primeiro?
  • É mesmo verdade que preciso emagrecer antes de começar a fazer o que estou com vontade? O que realmente está me impedindo de começar?

Após responder estas perguntas, reflita se o que você realmente quer mudar é o seu peso ou a forma como se sente consigo mesmo. Às vezes, o desejo por emagrecer é, na verdade, uma distração do que é importante de verdade para você. Talvez por medo de expressar a pessoa maravilhosa que é, a ideia de cortar calorias e comer menos torna-se uma válvula de escape para fugir de assuntos mais profundos e que exigem um processo mais longo.

Você pode se amar como é ou querer mudar completamente. Não existe escolha errada

Sinto que muitas pessoas ficam confusas quanto a esta mentalidade. De um lado temos pessoas dizendo: “ame-se como você é”; e do outro temos aqueles que incentivam o esforço, a dedicação por um corpo e vida mais saudável. O discurso do amor-próprio às vezes pode parecer um certo comodismo e levar à negação de que podemos nos amar como somos, pelo fato de algumas pessoas pensarem que devem ter algo errado, pois simplesmente não conseguem se amar. Já o segundo discurso geralmente foca em ação e resultados, mas, se exagerar na dose, pode virar uma obsessão. Por isso eu escolho o caminho do meio. Eu escolho que posso, sim, começar a me amar como sou, mas sem negar que quero melhorar, que desejo me sentir mais confortável na minha pele.

Eu escolho que posso, sim, começar a me amar como sou, mas sem negar que quero melhorar, que desejo me sentir mais confortável na minha pele.

A diferença está em agir a partir do amor e não do medo de perder algo.

Sinceramente, ninguém está errado ou certo. Não podemos classificar mais as pessoas desta forma, isto é muito ultrapassado. Eu acredito que precisamos saber o que faz sentido para cada um de nós, o que nos faz sentir conectados a algo verdadeiro. Se seguirmos isso, tudo vai fluir com muito mais naturalidade, ao invés de ficarmos na dúvida se mudamos de hábitos ou deixamos tudo como está.

O que precisamos aprender com as lagostas?

Eu também acredito que um pouco de desconforto nos ajuda a evoluir. Crescer envolve sentir as nossas camadas ficando apertadas, até que tenhamos uma nova morada mais adequada para a nova versão que estamos vivendo.

Há poucos dias ouvi o exemplo da lagosta, como ela precisa ter coragem de se colocar em uma posição vulnerável e trocar o seu exoesqueleto de tempos em tempos, se quiser continuar viva e crescendo. A lagosta cresce até certo ponto, então começa a ser muito desconfortável continuar dentro do seu exoesqueleto atual. Neste momento, ela procura um local seguro em uma caverna para se proteger de seus predadores até produzir uma nova “morada” e só sai de lá quando a sua nova versão está concluída.

No final, a pessoa que narrava esta pequena história para mim, mencionou: se as lagostas, como os seres humanos, procurassem um médico e tomassem um certo medicamento para aliviar a dor cada vez que sentissem um pequeno desconforto, elas nunca cresceriam e, assim, ficariam sempre do mesmo tamanho.

se as lagostas, como os seres humanos, procurassem um médico e tomassem um certo medicamento para aliviar a dor cada vez que sentissem um pequeno desconforto, elas nunca cresceriam e, assim, ficariam sempre do mesmo tamanho.

O exemplo da lagosta ilustra muito bem como poderíamos pensar sobre as nossas transformações. Será que estamos nos permitindo passar por pequenos desconfortos para acolher a nossa versão mais desenvolvida e madura? Ou preferimos ficar sempre do mesmo “jeito” e escondemos nossas frustrações na comida, dizendo para nós mesmos que está tudo bem porque gostamos do nosso corpo do jeito que está?

Estou aqui para lembrar que você pode, sim, querer mudar e que tudo bem se, por enquanto, o motivo principal ainda é a estética. Talvez você já esteja percebendo que o seu corpo vai retribuir sua dedicação e amor a ele. Por isso, quero lhe incentivar a dar um pequeno passo hoje e fazer algo por você, pelo seu bem-estar e pela pessoa que você quer se tornar. O que você pode fazer neste momento, dentro do seu alcance, para se tratar com mais carinho?

Atendimento com a autora

Taísa Bohrer, coach de alimentação consciente e autora do artigo, guia as pessoas em uma jornada de autoconhecimento e transformações positivas, utilizando a sua relação com o corpo e com a comida como ponto de partida. Os atendimentos são realizados à distância e têm como objetivo ajudar a você se sentir bem consigo mesmo, e a usar a alimentação a seu favor, colocando foco no que pode fazer agora e dentro da sua realidade. Clique aqui para marcação de consultas e mais informações, ou mande um email para a especialista: contato@taisabohrer.com

Taísa Bohrer

Taísa Bohrer

É coach de Alimentação Consciente e atua online apoiando mulheres a reencontrar sua verdadeira beleza.