Roberta Struzani
Por Roberta StruzaniLeia em 4 min.06/09/2018 

Vaginismo pode ser causa de dor na relação sexual

Descubra formas de diagnosticar e reverter a situação

Se você sente dor durante o ato sexual ou não consegue ter penetração, leia esse artigo com atenção. Você pode estar com vaginismo, também conhecido como transtorno da dor gênito pélvica/penetração.

Caracterizado como uma disfunção sexual feminina, esse fenômeno acontece quando os músculos vaginais se contraem de forma involuntária. Isto é, mesmo que você não esteja mandando os comandos para isso, sua vagina se fecha e impossibilita a penetração.

O vaginismo diz respeito a algo muito íntimo. E, por isso, pouco se fala sobre o assunto, mesmo em uma roda de amigas. Para a maioria, o constrangimento que a exposição pode causar é tão grande que chega a influenciar pesquisas e estudos.

Segundo a última edição do Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM- 5), desenvolvido pela Associação Americana de Psiquiatria, em 2014, 15% das norte-americanas sofrem desse transtorno. No entanto, estima-se que a margem de erro seja elevada, já que, por vergonha, muitas mulheres não procuram ajuda quando sofrem desse mal. Isso acontece por que quando sentem vergonha, muitas vezes não procuram ajuda e não contam para os profissionais da área da saúde.

Por outro lado, quando analisamos a busca pelo termo “dor na relação sexual” no Google, percebemos um aumento de 40% no número de pesquisas. Isso nos leva a acreditar que, de uns anos para cá, as mulheres estão se sentindo mais encorajadas a buscar apoio, mesmo que anonimamente.

De acordo com o DSM-5, manual utilizado mundialmente pelos profissionais de saúde como referência para as disfunções, a dispareunia (dor no ato sexual) e o vaginismo se uniram em nomenclatura.

As mulheres vagínicas – que estão com vaginismo – sempre tinham dispareunia. E quem tinha esse problema também apresentava sinais de vaginismo. É por isso que, entre a ala de profissionais da saúde, o termo passou a ser utilizado como transtorno da dor gênito pélvica/ penetração. No entanto popularmente entre mulheres que passam por isso ainda utilizam esses dois termos, e de nós profissionais para as pacientes também, já que fica mais fácil de explicar e detalhar.

Vaginismo: como diagnosticar

Para fins de diagnóstico, esse transtorno pode se apresentar de diversas formas. Em algumas mulheres, o músculo simplesmente se fecha, e elas sentem dor ao tentar introduzir algo na sua musculatura vaginal. Já outras sentem, além da dor, sentem ardor ou queimação.

Algumas vezes, a vagina se fecha somente para casos específicos, como o pênis do parceiro. Em outras, para qualquer tipo de penetração realizada por outra pessoa: dedos (exame ou ato sexual) ou brinquedos. Existem ainda casos em que nenhum ato de penetração é aceito: absorvente interno, aplicador de pomada ou coletor menstrual.

Além disso, as dores podem se manifestar não só na vagina, mas também em partes da vulva, como na pelve e no infra-abdômen. E isso pode ocorrer durante o ato sexual, nas preliminares, nas tentativas ou após a relação. Medo ou ansiedade intensa de sentir dor na penetração também se caracterizam como transtorno.

As causas e tipos de vaginismo

Essa contração involuntária da vagina, que impede a penetração ou provoca muita dor, acontece por defesa do corpo. De forma inconsciente, o cérebro acredita que, de alguma forma, existe uma ameaça neste ato.

Esse estigma pode ter sido criado por dois motivos: bloqueio físico – um hímen complacente, uma infecção, doença sexualmente transmissível, bartholinite etc. – ou bloqueio mental – educação religiosa ou familiar, crenças e traumas.

Em qualquer um desses casos, o vaginismo pode se manifestar desde a primeira tentativa de penetração (vaginismo primário) ou após algum fenômeno (vaginismo secundário).  

O primeiro caso é muito comum, por exemplo, em mulheres que se guardam para somente depois do casamento por opção, questões religiosas ou aconselhamento dos pais. Depois de um tempo reprimindo os instintos sexuais, o corpo costuma desenvolvê-lo como mecanismo de defesa.

Já o secundário pode surgir depois de uma situação de abuso, aborto, um parto difícil, intervenções cirúrgicas ginecológicas ou mudanças hormonais. A mulher também pode desenvolver esse transtorno quando fica muito tempo sem ter relação sexual ou se a faz continuamente, mas sem sentir prazer.

Vaginismo tem cura?

Ao longo dos meus 10 anos de carreira, atendi muitas mulheres com esse quadro, e quase todas conseguiram reverter a situação. A dificuldade maior do processo é de cunho emocional.

A região pélvica guarda emoções profundas e, por isso, o índice de mulheres que se autossabotam é muito grande. Curar-se significa enfrentar as feridas guardadas. É necessário um trabalho árduo do profissional e da paciente.

Vale ressaltar, inclusive, que tentar resolver o problema por conta própria ou com o auxílio de profissionais não especializados em sexualidade não é o melhor caminho. O uso de calmantes, anestésicos locais ou de bebidas alcoólicas para alcançar o relaxamento muscular pode agravar o quadro.

Pode ser que, ao ler toda matéria, você tente identificar na sua história o que te trouxe esse mecanismo de defesa. Mas muitas vezes são vários sinais juntos que desencadeiam isso, e não necessariamente uma coisa só.

Portanto, para corrigir essa disfunção, é preciso o acompanhamento profissional especializado em sexualidade. Ele vai saber indicar as intervenções psicológicas e físicas necessárias, assim como mudanças de hábitos sexuais e de higiene íntima de acordo com cada mulher. Cada caso deve ser tratado de forma personalizada.  

Por exemplo, quando uma menina ainda virgem escuta de todas as amigas que a primeira vez dói, ela pode acabar gerando essa crença dentro de si. É bem provável, então, que, na sua primeira vez, ela fique com tanto medo de sentir dor que, num ato de proteção, a vagina se fecha. Como num efeito looping, essa situação pode reforçar ainda mais a sua crença inicial.  

Neste caso, além do desbloqueio mental da crença limitante, a menina deve passar também por um trabalho corporal (físico) para relaxar a musculatura. Um tratamento integrado envolvendo mente, corpo e comportamentos. Usar apenas medicamentos não irá funcionar.

Roberta Struzani

Roberta Struzani

Terapeuta especializada em sexualidade e saúde ginecológica. Realiza atendimentos presenciais e online focados no autoconhecimento, na elevação da autoestima e na saúde do aparelho reprodutor feminino. Sua principal ferramenta de trabalho é o Pompoarismo.