Clarissa De Franco

Divertida Mente fala sobre o desafio de amadurecer

Animação mostra que viver todas as emoções ajuda a crescer

Animação mostra que viver todas as emoções ajuda a crescer

Divertida Mente fala sobre o desafio de amadurecer

A animação Divertida Mente traz deliciosas descobertas para crianças, jovens e adultos. Mas a principal delas é a tentativa de compreensão da complexidade da mente e do funcionamento da personalidade, por meio da personificação das vozes que todos temos dentro de nós. Algumas vozes majoritárias foram escolhidas pelo roteirista para estarem no painel de controle da mente humana, são elas: Raiva, Nojinho, Medo, Alegria e Tristeza.

Não por acaso, a Alegria está à frente das demais emoções no controle da mente da protagonista do filme, a garotinha Riley. Afinal, Alegria tem ânimo, iniciativa, consegue enxergar o lado positivo das situações e vê a si mesma como guardiã das boas memórias da pré-adolescente, que está em vias de ver sua vida totalmente transformada.

As memórias surgem a partir dos acontecimentos, das escolhas e das emoções sentidas durante os fatos da vida. Alegria se esforça para garantir que as memórias-base de Riley, que dão estrutura à mente da garota e que servem de apoio para todas as demais vivências dela, não sejam contaminadas pela Tristeza. Por este motivo, em uma boa parte do filme, Alegria tenta afastar a Tristeza das memórias, principalmente as de longo prazo e as memórias-base. Com isso, vê-se a Tristeza ainda mais desanimada, pois ela sente que sua participação na mente de Riley é sempre negativa ou nula.

Conflitos de emoções no filme representam passagem para adolescência

E eis que um acontecimento promove mudanças significativas e estruturais nessa situação: os pais de Riley decidem se mudar para a cidade de São Francisco e toda a estrutura de memórias e emoções da garota de 11 anos entra em colapso. As ilhas da personalidade começam a ruir: amigos e família deixam de ser uma referência positiva, o talento para o hóquei não mais encontra lugar de realização, o bom humor e as brincadeiras já não fazem mais sentido. Tudo isso é acompanhado de uma bagunça interna: Alegria e Tristeza são sugadas para fora da torre de controle da mente de Riley em mais um momento de disputa pela preservação das memórias. Sem Alegria e Tristeza, as demais emoções ficam confusas e temerosas em relação às decisões da torre de comando e a garota torna-se depressiva, sem clareza do que quer e do que sente. Uma bela metáfora da passagem da infância para a adolescência, aproveitada pelo diretor Peter Docter, que viu sua própria filha vivenciar situações estranhas e duras neste momento de vida.

Uma jornada perigosa se inicia em busca de assumir novamente este controle da mente. Tentando resgatar o conhecimento que Riley tem sobre si mesma e recuperar o sentido de sua personalidade, Alegria e Tristeza visitam lugares curiosos como o “Labirinto das Emoções”, o “Trem do Pensamento” e o estúdio no qual se gravam os sonhos. Por outro lado, também conhecem lugares escuros e difíceis da mente, como o “Subconsciente” e o “Abismo do Esquecimento”, enquanto percebem que as ilhas da personalidade que sustentam a mente da garota vão sucumbindo ao caos e caem uma a uma neste abismo que varre as memórias para sempre. Alegria e Tristeza encontram pelo caminho o Amigo Imaginário de Riley e o momento em que ele desaparece em definitivo junto às reformulações da maturidade é o ponto central do filme. Para os adultos, dói no coração o desaparecimento do Amigo Imaginário, como um símbolo de fim da infância.

Paralelamente à busca de Tristeza e Alegria pela volta ao controle da mente, a menina Riley passa a agir pelas emoções que a dominam: raiva, medo e nojo, e decide fugir de casa, voltando para Minnesota, sua antiga cidade. Dentro e fora da mente, percebe-se uma luta contra o tempo, a busca por algum sentido que reestruture as ações da garota de 11 anos, antes que algo definitivo e perigoso aconteça a ela.

Viver significa saber lidar com as emoções

Já quase no fim das esperanças, Alegria consegue sair do “Abismo do Esquecimento”, a partir de uma canção ditada pelo Amigo Imaginário e tem a grande percepção conciliadora e salvadora: não se deve negar a Tristeza ou nenhuma emoção. Foi justamente nos momentos de tristeza de Riley que as outras emoções chegaram e que algumas memórias-base da garota se estruturaram. Alegria entende nesse momento que todas as emoções precisam ser vividas e integradas às experiências, e desta integração depende a elaboração de sentido para se continuar a viver. Nem só de alegria se vive, mas ela pode confortar as horas tristes, dar esperança quando se tem medo, ou oferecer uma perspectiva diferente da raiva e do nojo.

Nem só de alegria se vive, mas ela pode confortar as horas tristes, dar esperança quando se tem medo, ou oferecer uma perspectiva diferente da raiva e do nojo.

A grande sacada da personagem Alegria e do filme Divertida Mente é que o sentido se dá pela aceitação e integração e não pela negação, afastamento ou esquecimento. Assim, todas as emoções devem estar presentes para que as memórias-base se tornem sólidas e Riley possa lidar com os desafios da maturidade que exigem adaptação e transformação. Desenvolver-se é, na verdade, integrar opostos, construir em cima do que se vive, sem jogar fora a dor como uma experiência de sentido. “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma…”.

Apaixonante e colorido, Divertida Mente é uma lição de psicologia para todas as idades. E que venham os novos desafios e labirintos.

Para continuar refletindo sobre o tema

Pocahontas: desapego afetivo e transformação

Cinderela: das cinzas ao sapato de cristal

Contos de fada atuais mudam imagem da mulher

Olá, essa matéria foi útil para você?
Clarissa De Franco

Clarissa De Franco

Clarissa De Franco é psicóloga, com Doutorado em Ciência das religiões e Pós-Doutorado em Estudos de Gênero. Atua com Direitos Humanos, Gênero e Religião, além de ser terapeuta, taróloga, astróloga e analista de sonhos. Saiba mais