Hellen Reis Mourão

Cinderela: das cinzas ao sapato de cristal

Nova adaptação retrata a independência, o amor e a conquista da individualidade

Nova adaptação retrata a independência, o amor e a conquista da individualidade

Cinderela: das cinzas ao sapato de cristal

Lançado em março de 2015, o filme “Cinderela” é uma adaptação do conto homônimo. A história nos apresenta uma bela menina chamada Ella, que vivia com seus pais em um paraíso idílico, até a morte de sua boa mãe.

A morte deste membro da família e a subsequente substituição por uma madrasta má ou bruxa são comuns em contos de fadas – de acordo com a psicoterapeuta analítica Marie-Louise von Franz (2010), isso significa, simbolicamente, que a menina toma consciência de que não pode mais se identificar com a mãe, ainda que a relação positiva, essencial e afetiva permaneça. Essa morte é, portanto, o início do processo de individuação.

O conto “Cinderela” possui varias versões. Na dos irmãos Grimm, a boa mãe morre e sobre seu túmulo cresce uma árvore, onde pousa uma pomba branca que aconselha a menina. Von Franz explica que alguma coisa sobrenatural sobrevive à morte da figura materna positiva e a substitui, como uma espécie de fetiche ao qual encarna o espírito da mãe.

No entanto, o filme segue a versão do escritor Charles Perrault, segundo a qual há uma fada madrinha que ajuda a menina, ao invés da árvore, o que também simboliza esse espírito da boa mãe e da velha sábia, como veremos mais à frente.

Personalidade rude da madrasta equilibra a bondade extrema de ella

A identificação de uma mulher com a sua mãe boa constitui um sério risco para o seu desenvolvimento psíquico. É mais comum a filha seguir padrões instituídos pela sociedade e pela família; não é à toa que a moda é esmagadoramente voltada para o publico feminino. Por essa razão, ter uma mãe boa demais pode trazer à mulher muita dificuldade em desligar-se desses padrões coletivos impostos, podendo torná-la uma simples cópia da mãe. Vemos esse perigo claramente nas irmãs postiças de Cinderela: elas não possuem personalidade própria, vestem-se da mesma forma e fazem exatamente o que a mãe diz.

A mulher precisa ter um comportamento autêntico, e não um modelo feminino típico. Dessa forma, ela poderá mostrar a sua individualidade e fazer a diferença no mundo. Portanto, a madrasta simboliza a boa mãe que passou do tempo de ser boa e simplesmente “devorou” a personalidade das filhas.

a madrasta simboliza a boa mãe que passou do tempo de ser boa e simplesmente “devorou” a personalidade das filhas.

Em nossa sociedade ocidental, a figura da mãe é permeada apenas pelo lado luminoso. Os aspectos sombrios foram suprimidos e isso afetou diretamente as mães pessoais, que se sentem no dever de serem perfeitamente boas. No filme, a mãe de Cinderela a aconselha a ser sempre gentil e corajosa, ou seja, sempre boa! A madrasta vem trazer outra dimensão à personalidade dela, complementando a ingenuidade e a doçura sem limites da moça.

Ella e madrasta: caminhos tortuosos em busca de aceitação

Cinderela é aquela que busca a sua individualidade, por isso é a heroína e também aquela sofre perseguições. Ser aceita é parte do comportamento e da busca do feminino; quando isso não ocorre, gera-se sofrimento para a mulher, como se vê em Cinderela. No entanto, esse sofrimento é compensado com uma personalidade mais sólida. Vemos na animação que a heroína busca a individuação quando ela pede ao pai um galho de árvore, e não vestidos e coisas caras, como pedem as irmãs. A árvore, para Carl Jung, é símbolo do processo de individuação, pois ela mostra o crescimento natural da personalidade.

Agora, se observarmos do ponto de vista da madrasta – que no filme possui uma dimensão mais humana do que no conto -, ela faz de tudo para ser aceita e inclusa. Seus atos são validados pela dor de competir com a esposa morta pelo amor do marido, visto que é bem notório que quando alguém morre, passa a ocupar um status de alguém impecável e sem defeitos.

Seus atos são validados pela dor de competir com a esposa morta pelo amor do marido, visto que é bem notório que quando alguém morre, passa a ocupar um status de alguém impecável e sem defeitos.

Assim, Ella se torna uma serviçal da família e passa a dormir entre as cinzas. Como citado no texto sobre o conto da Cinderela, as cinzas representam a humilhação, descida de classe social, bem como a contrição e a humildade. Elas representam a experiência da morte e da transformação do corpo em cinzas por meio da queima no fogo das emoções. É uma derrota para o ego, um encontro com seus aspectos sombrios. Isso significa que o aspecto ingênuo e infantil da psique de Cinderela deve morrer, antes que ela possa entrar contato com o masculino. Ella passa, então, a se chamar Cinderela, ou Gata Borralheira. Houve uma iniciação e agora ela não é mais a mesma pessoa.

Príncipe abre mão da virilidade exagerada para envolver-se com Cinderela

A garota indignada foge para a floresta e encontra o príncipe, que está em uma caçada a um cervo. Descobrimos que ele não tem mãe e está com seu pai doente, sendo necessário que encontre uma esposa para que possa assumir o posto de rei. Mas essa esposa deve ser uma princesa.

Ao encontrar Cinderela, o príncipe desiste de caçar o cervo, pois percebe que isso era algo que ele fazia de forma automática, apenas porque todos faziam

Ao encontrar Cinderela, o príncipe desiste de caçar o cervo, pois percebe que isso era algo que ele fazia de forma automática, apenas porque todos faziam

(seguir as regras e normas sem exceção é típico do masculino). Ele se apaixona por ela – uma simples camponesa – e não desiste de fazer dela sua esposa. Ou seja, ele abre uma exceção em função do seu sentimento. Podemos então dizer que o príncipe possui uma relação mais saudável com o feminino e a questão do sentimento. Ele está apto a trazer esse equilíbrio para a consciência.

Sapatos de cristal conectam Cinderela ao que ela realmente é

No dia do famoso baile, a madrasta proíbe Cinderela de ir. Nesse instante, aparece a famosa fada madrinha. A fada, como interpretamos anteriormente, simboliza o espírito da boa mãe que permanece na heroína, e no filme ela também aparece com o aspecto de uma velha sábia, dando conselhos. É interessante observar que a única coisa que a fada madrinha não transformou foi o sapato. Esse ela criou “do nada”!

Os sapatos, assim como a roupa, estão ligados à persona, mostrando a classe social da pessoa.

Os sapatos, assim como a roupa, estão ligados à persona, mostrando a classe social da pessoa.

Com eles, mantemos os pés na terra, simbolizando a atitude da realidade, e podemos seguir um caminho e também pisar em alguém, mostrando o aspecto de poder do indivíduo. Portanto, Cinderela está em busca de uma realidade própria, sua autoafirmação na sociedade e no mundo exterior, sem seguir convenções e padrões.

No filme, o sapato é de cristal. Cristal em grego é krystallos, que significa “gelo” e simboliza tudo o que é puro, espiritual, assemelhando-se ao diamante, uma pedra de uma dureza imensa capaz de cortar até o ferro. Ele seria uma indicação da luz divina. Em contos de fadas é comum o herói encontrar um diamante ou outra pedra preciosa ao final de sua jornada, simbolizando a meta da individuação. Portanto, o cristal – assim como o diamante – é o símbolo da meta do indivíduo na vida. Ele simboliza a individualidade mais profunda do ser, que não pode ser destruída.

O sapato de cristal é a única coisa que sobrevive após o término da magia e é a única coisa que realmente pertence à Cinderela e que vai mostrar a sua verdadeira identidade ao príncipe.

O sapato de cristal é a única coisa que sobrevive após o término da magia e é a única coisa que realmente pertence à Cinderela e que vai mostrar a sua verdadeira identidade ao príncipe.

Ele representa a realidade única da personalidade da Cinderela, o seu valor mais profundo diante da aparente pobreza. Agora ela pode se tornar rainha e enfrentar as irmãs e a madrasta, pois encontrou a sua meta.

O príncipe, já um rei devido à morte do pai, vai até Cinderela com o sapato perdido e, assim como no conto, descobre a sua princesa, já que a peça só cabe no pé da verdadeira dona. Quando isso ocorre, ele se volta para uma nova dimensão de sua alma, a da exceção em favor do sentimento, e Cinderela se volta para uma coragem e uma força interior antes desconhecidas. Ela finalmente torna-se rainha, e o reino encontra a renovação e o equilíbrio necessários.

O filme, então, nos mostra como o amor pode ser o catalisador do processo de individuação. Cinderela, em seu amor pelo príncipe, começa a seguir algo que ela nem sabia bem ao certo o que era e se era possível alcançar – apenas não conseguia mais ficar parada, inerte. Portanto, o amor nos mobiliza e nos faz sair do lugar-comum e da acomodação, levando conosco a nossa realidade mais profunda.

Referências bibliográficas:

  1. VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.
  2. VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.
  3. VON FRANZ, M. L. A sombra e o mal nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 2002.
  4. VON FRANZ, M. L. A individuação nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 1999.
  5. VON FRANZ, M. L. O gato – Um conto da redenção feminina. 3 ed. Paulus. São Paulo: 2011.

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Hellen Reis Mourão

Hellen Reis Mourão

É analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ. Saiba mais