Presença Viva: quando a cidade aprende a respirar
Um texto de pesquisadores do Centro de Mindfulness da USP sobre atenção plena, respiração e sustentabilidade interna
Por Mariana Amaral
Na Virada Sustentável 2026, a gente fala de sustentabilidade de um jeito amplo, e uma pergunta me acompanha sempre: como viver bem numa cidade do tamanho de São Paulo? Pressa, trânsito, notificação. A metrópole treina a gente para estar em qualquer lugar, menos onde estamos.
Entre os convidados que compartilham essa visão, tenho a alegria de apresentar aqui no Personare um texto de Paulo Sousa e Edilaine Cristina da Silva, do Centro de Mindfulness e Terapias Integrativas da USP (CEMITI-USP). O Paulo é psicólogo clínico e instrutor de mindfulness. A Edilaine é professora titular, instrutora de mindfulness e fundadora do CEMITI, grupo de pesquisa, ensino e extensão ligado à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP que, desde 2016, promove saúde mental e atenção plena com iniciativas gratuitas e abertas à comunidade.
No sábado, 7 de novembro, das 13h às 14h30, eles conduzem a vivência Presença Viva: Mindfulness na Cidade que Respira, no Jardim Suspenso do Centro Cultural São Paulo.
✨ Boa leitura!
Com a palavra, Paulo Sousa e Edilaine Cristina da Silva
Onde você está, de verdade?
São Paulo, 8h12. Talvez você esteja no carro, parado no trânsito, com os olhos na rua e os dedos no celular. Ou no metrô, espremido entre desconhecidos, com a mente já resolvendo os problemas que podem surgir ao longo do dia. Ou caminhando até o trabalho, cruzando centenas de pessoas pelo caminho sem ver nenhuma delas.
Em todos os casos, o corpo está ali, mas a cabeça já está na reunião das dez e na mensagem sem resposta. Em que momento do trajeto você esteve, de fato, presente?
Essas cenas são tão comuns que quase não as notamos mais. A metrópole nos treina para a pressa, e o preço pagamos com estresse, ansiedade, pouca qualidade no sono e insatisfação com a vida.
Diante desse fluxo quase imposto, porém, é sempre possível para cada um de nós perceber e escolher onde repousamos a nossa atenção e consciência. É nessa permissão para escolher que nasce a Presença Viva: Mindfulness na Cidade que Respira, proposta que levaremos à Virada Sustentável SP 2026, a partir de uma ideia simples:
Cidades mais sustentáveis começam por pessoas mais presentes.
Jon Kabat-Zinn: o cientista que levou a atenção plena ao hospital
Em 1979, o doutor em biologia molecular Jon Kabat-Zinn abriu uma clínica de redução de estresse num hospital universitário de Massachusetts (EUA). Nascia o programa Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR), que levou práticas contemplativas milenares para dentro da medicina, com método, medidas e rigor científico.
A definição dele é simples: mindfulness é prestar atenção de um jeito específico, de propósito, no momento presente e sem julgamento. Não é esvaziar a mente nem “pensar positivo”. É perceber o que acontece enquanto acontece.
Desde então, estudos clínicos associam a prática à redução de sintomas de estresse, ansiedade e depressão. É nesse terreno que atuamos no Centro de Mindfulness e Terapias Integrativas (CEMITI) da USP de Ribeirão Preto, por meio do ensino, da pesquisa científica e da extensão universitária, com um pé na evidência científica e outro na experiência viva.
Respirar: a âncora que carregamos conosco
Se a atenção é um barco, a respiração é a âncora. Ela está sempre disponível aqui, no corpo, no agora: ninguém respira ontem nem amanhã. Quando a mente dispara para a lista de tarefas ou para o pior cenário possível, voltar ao ar que entra e sai pelas narinas é um jeito simples de voltar para casa.
E acredite: há muita ciência nisso. A respiração é uma ponte rara entre o voluntário e o involuntário. Acontece sozinha, mas podemos conduzi-la. Respirações lentas e conscientes tendem a favorecer a resposta de relaxamento do sistema nervoso autônomo, promovendo um estado de regulação emocional. É fisiologia aliada à atenção.
Uma pausa de um minuto, agora
Antes de seguir, convidamos você a parar. Leia os próximos parágrafos com calma e, depois, se for confortável, feche os olhos.
Perceba como o seu corpo está neste momento. Onde ele toca a cadeira, o sofá, o chão? A coluna está curvada ou apoiada? Os ombros subiram em direção às orelhas? O maxilar está apertado? Sem corrigir nada, apenas repare. Se quiser, ajuste a postura com gentileza: coluna longa, ombros soltos, mãos descansando.
Agora, leve a atenção a uma âncora. Pode ser o ar que entra e sai dos pulmões enquanto você lê estas palavras. Pode ser o som mais distante, o mais próximo, ou o silêncio entre eles. Pode ser um cheiro no ambiente, a temperatura do ar na pele, o vento ou a brisa tocando o rosto e as mãos.
Essas sensações não são detalhes: são portas de entrada para o presente. No mindfulness, chamamos isso de ancoragem: escolher um ponto de contato com a experiência e voltar a ele quantas vezes for preciso, sem se cobrar.
Cada som, cada sopro de ar, cada respiração é uma imersão no que temos de mais precioso nesta vida: o tempo. Ele só existe como experiência quando estamos presentes para vivê-lo.
Fique aqui por mais algumas respirações. Feche os olhos para desfrutar deste convite inusitado e, quando for confortável e certo, abra os olhos devagar e volte à leitura.
O corpo no espaço e o espaço no corpo
Ao voltar da pausa, note: você estava em algum lugar. Um corpo ocupa espaço, e o espaço também nos ocupa. Estamos numa casa, que fica numa rua, num bairro, numa cidade, num estado, num país, num planeta. Em círculos cada vez maiores, tudo isso nos sustenta e é sustentado por nós.
A consciência do corpo, que a ciência chama de propriocepção e interocepção, é o primeiro passo dessa relação. Quem percebe o próprio corpo percebe melhor o que o ambiente provoca nele: o ruído que tensiona, o verde que acalma, a calçada apertada. Nossa aposta, como pesquisadores, é que perceber é o começo de cuidar.
Como está a sua relação com cada um desses círculos? Você se sente em casa na sua casa? Caminha pelo seu bairro ou apenas passa por ele?
A atenção plena não resolve sozinha os desafios urbanos, mas devolve a pergunta que antecede qualquer mudança: o que está acontecendo aqui, agora, comigo e ao meu redor?
Sustentabilidade interna e a Agenda 2030
Chamamos esse movimento de sustentabilidade interna: a compreensão de que o cuidado com o planeta passa pelo cuidado com a própria mente. Ela não substitui políticas públicas nem ação coletiva. Caminha ao lado delas.
Podemos conectar a nossa prática de interiorização pessoal com planos de ação para um planeta mais próspero, como a Agenda 2030 da ONU e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Cuidar da saúde mental e do bem-estar e ocupar o espaço público com pausa e convivência ajudam a fazer das nossas cidades um espaço de construção de comunidades prósperas e sustentáveis.
Escutar sem reagir no automático, construir uma mente compassiva, paz, justiça social e instituições eficazes começam também no modo como nos relacionamos com a nossa própria mente e as nossas emoções.
Um mundo mais justo e sustentável não se constrói só de grandes decisões. Constrói-se também de milhões de pequenas presenças.
Venha respirar com a gente
Para começar hoje, experimente três âncoras no seu dia:
- No caminho para casa: sinta os pés no chão por três respirações.
- Na rua: acompanhe um som até ele se dissolver.
- Antes de dormir: perceba o peso do corpo no colchão.
E, se quiser praticar acompanhado, a gente espera você: sábado, 7 de novembro, das 13h às 14h30, no Jardim Suspenso do Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Liberdade, São Paulo). O CEMITI-USP conduz a Presença Viva: Mindfulness na Cidade que Respira dentro da programação da Virada Sustentável SP 2026.
Em 90 minutos, a Dra. Edilaine Cristina da Silva vai guiar uma jornada sensorial com práticas de mindfulness que envolvem o corpo e a respiração em meio à agitação do espaço urbano.
A atividade é gratuita, aberta a adolescentes, adultos e idosos, sem exigir experiência prévia. Use roupas confortáveis e leve água.
Presença não é um lugar aonde se chega. É um lugar para onde se volta, respiração após respiração.
Resumo e convite
Prestar atenção ao corpo e à respiração, mesmo no meio do trânsito e da pressa, é um jeito simples de cuidar da saúde mental e da relação com a cidade. Os pesquisadores do CEMITI-USP chamam isso de sustentabilidade interna, e a prática começa com poucas respirações.
Pratique ao vivo na Virada Sustentável. Sábado, 7 de novembro, das 13h às 14h30, no Jardim Suspenso do Centro Cultural São Paulo, com o CEMITI-USP.
No mesmo dia e no mesmo lugar, o Personare faz o Retiro Urbano Personare, no Espaço Cênico Ademar Guerra: um dia inteiro de vivências gratuitas, com yoga, limpeza energética, práticas terapêuticas, astrologia e tarot com previsões para 2027. Veja a programação do Retiro.
Publicitária e articuladora cultural, Mariana Amaral é idealizadora da Virada Sustentável e da Virada Zen, iniciativas que transformam o espaço urbano por meio da arte, do bem-estar e da consciência coletiva, com projetos inovadores e regenerativos.
Saiba mais sobre mim- Contato: mariana@viradazen.com.br
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