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Luto: como dar a notícia da morte de alguém

Alguns cuidados são fundamentais na hora de comunicar uma morte, evitando causar mais sofrimento a quem vai receber a notícia

Alguém próximo a você morre. E agora, como dar a notícia da morte? Quem já viveu esse momento sabe do que estou falando. Se você ficou encarregado de avisar familiares ou alguém que será fortemente impactado por essa morte, com toda certeza está se sentindo inseguro. O maior medo é causar ainda mais sofrimento a uma pessoa que vai inevitavelmente lidar com o luto.

Como evitar causar ainda mais dor? Vamos falar sobre alguns cuidados fundamentais para se ter neste momento de luto e morte.

Cuidado número 01: dê a notícia aos poucos

Dizemos que o luto é um processo porque ele leva tempo. Isso acontece, pois a morte é uma informação difícil de digerir. Ela “sobrecarrega” o cérebro, causa uma sensação de paralisia (quase como um estômago cheio causa a sensação de que não se pode engolir mais nada).

Então, sempre que possível, use a estratégia de dar a notícia aos poucos, com tempo entre as etapas, para que a pessoa possa processar cada parte da informação de uma vez. Leia mais aqui sobre como lidar com o luto.

Em falecimentos por doença lenta isso acontece naturalmente, o que explica porque o luto nesses casos parece mais leve do que o luto por acidentes ou doenças fulminantes. Mas mesmo em casos repentinos, na medida do possível, permita que a pessoa vá se aproximando da notícia gradualmente, e garanta o máximo de tempo entre as fases.

Cuidado número 02: garanta que há companhia

Sempre que for necessário dar uma notícia deste tipo, garanta que a pessoa que vai receber a notícia esteja acompanhada. Se você puder dar a notícia pessoalmente, melhor. Mas caso isso seja impossível, faça contato primeiro com alguma pessoa próxima do enlutado que possa estar fisicamente presente com ele/ela quando você for contar o que aconteceu.

A tarefa deste acompanhante é garantir a segurança física de quem vai receber a notícia, caso a pessoa se sinta mal. Quanto mais idosa ou frágil a pessoa, maior a importância de estar acompanhada nesse momento, mas mesmo pessoas jovens e fortes não devem receber uma notícia assim sem companhia.

Cuidado número 03: tenha tempo disponível

Como dito acima, absorver uma informação como essa não é nada fácil. Especialmente em casos de morte súbita, a pessoa que recebeu a notícia pode “não entender”, duvidar do que você disse, pedir para repetir várias vezes, ou até mesmo agir como se ignorasse o que acabou de ouvir. Isso pode durar mais que alguns minutos: é a famosa “negação”.

Ela acontece pois temos dificuldade real de processar uma mudança tão profunda e tão súbita em nossas vidas. Para lidar com isso, garanta que você tenha calma, paciência, e principalmente tempo disponível para estar com a pessoa até ela conseguir entender a notícia. Veja aqui como nossa relação com a morte foi impactada pela pandemia.

Outro motivo que justifica essa reserva de tempo é o fato de que, quando a pessoa absorver o que houve, ela vai manifestar emocionalmente o impacto da notícia. Ela pode chorar ou se desesperar, mas não se assuste. Essas reações são normais. Apenas esteja com o enlutado e garanta que ele esteja em segurança.

Como dar a notícia da morte de alguém: reações iniciais

A boa notícia é que a fase aguda de manifestação emocional costuma durar poucos minutos. Kate Braestrup, que trabalhou por anos com a polícia do Maine indo até a casa das pessoas avisar do falecimento de familiares vitimados em acidentes, conta em seu livro “Here if you need me” o que aprendeu com essa experiência.

Ela diz que sucumbir às emoções nesse momento é uma reação universal, mas também é universal o fato espantoso de que essa primeira onda de sofrimento nunca dura mais do que meia hora. Fisiologicamente, não conseguimos manter esse nível de agitação por mais tempo do que isso.

Então, após dez ou vinte minutos, a pessoa naturalmente se acalma, e começa a fazer perguntas muito razoáveis tais como “onde está o corpo, quando podemos fazer o enterro”, etc. E com essas perguntas, começa a longa jornada de se ajustar a uma notícia que meia hora atrás parecia impossível acontecer.

Dica extra: confie no processo

O luto é um processo incrivelmente doloroso, mas também profundamente natural. Diferente de uma doença mental, o luto é parte integrante da vida e, por esse motivo, nossos cérebros são fisiologicamente equipados para lidar com ele.

Imagine quanto luto nossos ancestrais viveram, ao longo de milhares de anos de seleção natural. Se o luto fosse o suficiente para incapacitar uma pessoa, bastaria a morte de um membro de uma tribo para destruir a tribo toda.

Na verdade, pelo contrário, somos descendentes de pessoas que sobreviveram ao luto muitas e muitas vezes ao longo de sua vida. Ele pode ser sentido como algo devastador, mas, surpreendentemente, somos mais fortes do que ele.

O fato de que vinte minutos depois de uma notícia tenebrosa uma mãe possa já estar enxugando as lágrimas e fazendo perguntas racionais sobre o corpo do filho, é uma prova da tremenda resiliência psicológica dos seres humanos frente ao luto.

Isso não significa que essa mãe já esteja livre do sofrimento, mas significa que em algum lugar de sua mente a informação foi integrada, e o processo de se ajustar a essa nova realidade foi iniciado.

Esse processo permite que o enlutado reconstrua sua vida, reaprenda a viver após uma perda devastadora. O nome desse processo é luto, e você pode confiar nele.

Tatiana Perecin

Tatiana Perecin

Psicóloga pela UFSCar, especialista em Psicologia Clínica / Análise do Comportamento. Trabalha com terapias contextuais, que são referência na intervenção psicológica baseada em evidências científicas de eficácia. Tem mais de 10 anos de atuação em consultório, atendendo adultos em casais em sofrimento emocional, e também casos severos.

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