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Inteligência artificial e inteligência ancestral: qual o limite da IA para usos em tarô e astrologia?

Entenda a diferença entre inteligência ancestral e artificial no Tarot e veja como usar a IA a favor do autoconhecimento

Atualizado em

Não vai ter jeito, vamos precisar tirar o elefante branco da sala e falar sobre uso de inteligência artificial no autoconhecimento.

Na última semana, fiz uma enquete nos stories do meu Instagram perguntando quantas pessoas já haviam usado IA para jogar Tarot ou saber sobre Astrologia. A realidade ficou escancarada ali:

  • 56% responderam que sim.
  • 12% que nunca usaram, mas já pensaram sobre.
  • 32% nunca tinha usado, embora talvez tenha ficado com a pulga atrás da orelha depois do meu questionamento.

O cenário está dado: a busca por respostas imediatas e acolhimento emocional encontrou na tecnologia um atalho irresistível.

E é justamente no abismo entre a velocidade do algoritmo e a profundidade da sabedoria viva que se revela o verdadeiro limite entre a inteligência artificial e a inteligência ancestral.

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O avanço da Inteligência Artificial no autoconhecimento no Brasil

Esse número que surgiu no meu Instagram não é um caso isolado: ele reflete um país que transformou as telas em confessionário.

O Brasil já figura como o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo, segundo relatório da própria OpenAI, atrás apenas de Estados Unidos e Índia.

De acordo com levantamento da agência de comportamento Talk Inc., mais de 12 milhões de brasileiros já recorrem a ferramentas de inteligência artificial para desabafar, pedir conselhos existenciais ou fazer o que se convencionou chamar de “terapia de bolso”.

Em uma nação apontada como a mais ansiosa do planeta pela Organização Mundial da Saúde, a promessa de um suporte disponível 24 horas por dia, gratuito e que responde em milissegundos sem julgar soa como o alívio perfeito para quem tem urgência de silenciar a própria angústia.

Quando cruzamos esse imediatismo com a busca por espiritualidade, o fenômeno ganha contornos ainda mais nítidos.

Dados do Google Trends mostram que o Brasil é o quarto país do mundo com maior interesse por mapa astral. E um levantamento da Band em parceria com o Google apontou o Tarot como a prática esotérica mais buscada pelos brasileiros na internet, à frente de astrologia e numerologia.

A migração dessas buscas para os chats de IA não demorou: pedir uma tiragem rápida de três cartas ou uma interpretação automática de Plutão virou hábito instantâneo.

Quando o oráculo vira apenas um cálculo estatístico de linguagem, porém, algo essencial se perde pelo caminho. É aqui que precisamos entender onde termina a ferramenta e onde começa o perigo da ilusão.

Onde a Inteligência Artificial não alcança a Inteligência Ancestral

Recentemente, eu, uma cartomante de origem romani, estive no Rio Innovation Week representando a minha empresa, O Tarô de Amanda. Em todos os painéis que acompanhei como ouvinte, falou-se de inteligência artificial.

Foi na fala de Regina Casé que ouvi uma ideia que mudou tudo para mim. Questionada se temia o avanço da IA nas áreas criativas, ela contou não ter esse receio, porque, no entendimento dela, a IA não cria nada: quem cria é o humano, e a máquina apenas consolida e replica o que já existe.

Parte de não sentir que o meu ofício como cartomante está ameaçado envolve entender que o oráculo é um lugar aonde você vai, composto por pelo menos três dimensões: o consulente (quem se consulta), a mensagem (o oráculo) e o mensageiro.

Na IA, essas três dimensões se perdem, porque o mensageiro é incapaz de criar sobre a mensagem, reproduzindo apenas o que está disponível no seu banco de dados.

Dificilmente a IA vai ajudar uma consulente a descobrir que a doença autoimune do pai era lúpus, ou a antecipar um torcicolo, coisas que acontecem com frequência na minha mesa de jogo. É aí que entra a inteligência ancestral.

A IA pode funcionar como oráculo?

Não, a IA não pode funcionar como oráculo.

Como o tarólogo Leo Chioda explicou num artigo aqui no Persnare, após testes de leituras de Tarot com IA, existem diversas limitações quando se tenta transformar o Tarot no ChatGPT em oráculo.

Um ponto interessante que o Leo traz é que a IA opera, para o Tarot, como um dicionário fixo dos seus arquétipos e simbolismos.

Nas minhas aulas de Tarot avançado, eu sempre pontuo que um jogo de Tarot só pode ser entendido a partir do contexto: o do tempo presente, o do consulente, o da mensagem e o das cartas com as suas posições.

Para esse fim, o humano é, e sempre será, na minha opinião, imbatível.

Como usar a inteligência artificial no autoconhecimento?

Se a inteligência artificial não substitui a ancestralidade da escuta humana, isso não significa demonizar a ferramenta nem declarar guerra ao algoritmo.

A chave está em mudar a pergunta: em vez de usar a IA como um oráculo com poderes divinos ou um terapeuta de plantão, que tal usá-la como uma assistente de estudos e de integração do seu próprio autoconhecimento?

A tecnologia é excelente para organizar a biblioteca. Quem vive a história ainda é você.

Na prática, dá para transformar a tela em uma aliada ética no dia a dia. Aqui vão alguns caminhos saudáveis para experimentar.

1. Organizar e desdobrar a sua consulta de Tarot

Aquele áudio longo da sua cartomante de confiança ou as anotações da sua última sessão podem ser colados na IA com um comando reflexivo, como:

Com base nesta leitura feita pela minha taróloga, organize um relatório prático com os três principais pontos de atenção, desafios e virtudes que preciso cultivar nos próximos três meses.

A IA entra para estruturar o plano de ação daquilo que a sabedoria humana já canalizou.

2. Mapear e visualizar trânsitos com base no seu mapa real

Anexe o relatório do seu Mapa Astral, feito por um astrólogo profissional ou gerado por uma ferramenta confiável, e peça para cruzar com os trânsitos ativos do céu. Você pode pedir algo como:

Com base nas casas do meu mapa natal anexado, liste como o trânsito atual de Saturno pode se manifestar de forma prática na minha rotina profissional.

A máquina ajuda a mastigar os dados técnicos e a visualizar o cenário sem fatalismos.

3. Traduzir os arquétipos para a sua linguagem

Nem todo mundo se conecta de primeira com o vocabulário hermético da astrologia ou com os símbolos medievais do Tarot. Você pode pedir para a ferramenta adaptar um conceito, como:

Explique o que significa ter Lua em Capricórnio usando metáforas do cotidiano ou Traduza a energia da carta do Eremita como se fosse uma cena de cinema.

Isso aproxima o símbolo da sua realidade.

4. Buscar pontes e referências

Use a inteligência artificial como uma ponte para a sabedoria ancestral, não como ponto final. Peça indicações de livros clássicos, mitos associados a um arquétipo ou como determinados autores interpretavam certo símbolo.

Nesse post no meu Instagram, sugeri alguns prompts para vocês testarem e expandirem as funcionalidades da IA com nossas ferramentas holísticas, mas do jeito certo.

O segredo de ouro é simples: use a inteligência artificial para clarear os caminhos da mente e organizar as informações, mas guarde a inteligência ancestral para o lugar onde ela sempre operou.

Na presença do corpo, na escuta sensível do outro e na coragem intransferível de fazer as próprias escolhas.

Conclusão

O Tarot e a Astrologia sobreviveram a todas as tecnologias até aqui, justamente por serem ferramentas sensíveis aos fluxos e às transformações da vida humana.

A inteligência artificial não é inimiga dessa tradição, desde que ocupe o seu lugar: o de organizar a biblioteca, e não o de substituir quem lê as cartas.

Adaptar-se, aqui, é uma forma de garantir a própria continuidade.

Amanda Guimarães

Amanda Guimarães

Comunicadora, internacionalista e cartomante, mentora e facilitadora de Tarô Avançado.Traduz o simbólico em decisões práticas para a vida. É host do podcast Entre Tapas & Cartas.

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