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Trabalho ou panela de pressão? O que The Bear e The Pitt nos ensinam sobre nossas feridas invisíveis

Entenda por que os gatilhos emocionais no trabalho geram reações intensas, o que o sistema nervoso guarda e como recuperar a calma

Atualizado em

Você já sentiu que, em certos momentos no trabalho, sua reação foi muito maior do que o problema em si? Aquela sensação de estar com os nervos “à flor da pele”, em que qualquer erro parece um desastre catastrófico? Trata-se de gatilhos emocionais no trabalho, e eles costumam ter raízes bem mais antigas do que a tarefa daquele dia.

Nas séries The Bear e The Pitt, vemos isso acontecer o tempo todo. Seja na correria de uma cozinha profissional ou na urgência de um plantão médico, os protagonistas vivem em uma espécie de “panela de pressão” interna, prontos para explodir a qualquer instante.

Neste artigo, você vai entender, por meio da Experiência Somática, abordagem criada por Peter Levine, por que essa intensidade nem sempre tem a ver com o trabalho atual.

Muitas vezes, o que aparece é o sistema nervoso reagindo a memórias e a um estresse que o corpo guardou e que ainda não pôde processar.

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A biologia da reatividade: quando o corpo fica preso no alerta

Para a Experiência Somática, o trauma vai além de um fato triste do passado. Ele é uma carga de estresse biológico que ficou retida no sistema nervoso porque, naquele momento, faltaram recursos para lidar com ela.

O Dr. Robby, em The Pit, ilustra bem esse estado. Ele tenta manter o controle o tempo todo, mas o luto não chorado e o estresse acumulado fazem com que viva no limite.

É o que chamamos de neurocepção desregulada. O sistema de vigilância do corpo fica tão sensível que interpreta a pressão do dia a dia como uma ameaça real à sobrevivência.

Quando você não se permite tempo para sentir, esse estresse contido tende a vazar para o ambiente na forma de explosões ou comportamentos difíceis, com reflexos em todas as relações ao redor.

Como os gatilhos emocionais afetam o trabalho e as relações

No caso do chef Carmy, de The Bear, esse vazamento aparece na impulsividade. Ele dá vazão à raiva de forma desregulada e torna o ambiente ao redor mais caótico.

O Dr. Robby, por outro lado, consegue ponderar mais e se manter contido, afinal já atua em um cenário de traumas constantes e sabe que precisa segurar as pontas.

É justamente por isso, porém, que ele chega mais perto de extrapolar os próprios limites e colocar a própria saúde em risco.

Os dois retratos mostram como um mesmo gatilho pode ganhar formas opostas: a explosão de quem transborda e o colapso silencioso de quem se cobra para aguentar tudo sozinho.

O trauma de desenvolvimento e a busca pelo que é conhecido

Nossas escolhas adultas são profundamente moldadas pelo que vivemos na infância.

Carmy, de The Bear, cresceu em uma família caótica, com uma mãe alcoolista e um ambiente em que o cuidado e a agressividade se misturavam.

Isso cria o que chamamos de trauma de desenvolvimento: marcas precoces que nos fazem ver o presente com as lentes do passado.

O mais curioso (e doloroso) é que o nosso sistema nervoso tende a buscar o que é familiar, mesmo que seja abusivo.

Carmy escolhe uma profissão de alta pressão e suporta chefes “carrascos” porque, no fundo, esse ambiente de invalidação é o que ele já conhece de casa. O trabalho torna-se, então, um palco onde ele revive o vazio, a rejeição e a raiva que ficaram armazenados lá atrás.

O poder do vínculo seguro: recalibrando o alarme interno

A grande virada na história de Carmy — e na de todas as pessoas — acontece através da construção de vínculos seguros.

Diferente dos ambientes abusivos que ele conhecia, ele passa a conviver com colegas que, apesar das brigas, estão “juntos”, são amorosos e acolhedores.

Mas como isso ajuda a processar o trauma? Como mamíferos, nós nos regulamos pelo contato com o outro.

Em um ambiente amigável, o sistema nervoso começa a receber sinais de segurança que permitem “baixar a guarda”. É o que chamamos de estado vagal ventral: um lugar de conexão onde podemos finalmente olhar para a nossa dor sem sermos aniquilados por ela.

Estar com “pessoas de segurança” oferece o suporte necessário para que aquele estresse antigo, que estava congelado no corpo, possa ser sentido e liberado de um jeito tranquilo e seguro.

Ao observar como os outros lidam com o cuidado e o afeto, o indivíduo começa a recalibrar seu próprio “alarme” interno, percebendo que agora, como adulto, ele tem novos recursos e não precisa mais apenas sobreviver.

Essa é a mesma lógica que aparece na análise do filme O Filho de 1000 Homens, em que a cura do trauma de vínculo tende a acontecer justamente na relação com o outro.

O que The Bear e The Pitt revelam sobre o processo de cura

Em The Bear, que já encerrou a jornada de Carmy na quinta temporada, é possível perceber como o chef vai mudando ao longo de sua jornada pessoal.

O trauma que o trouxe de volta ao restaurante da família funcionou como gatilho inicial para um mergulho intenso em tudo o que viveu.

Estar entre pessoas acolhedoras, que juntas formavam uma nova família dentro do trabalho, mostrou-se central para o seu processo de cura.

Já o Dr. Robby segue em processo. A segunda temporada de The Pitt aprofundou o seu esgotamento, e a série já foi renovada para uma terceira temporada, prevista para 2027.

Assim como na cozinha, os colegas de plantão cuidam uns dos outros e começam a perceber o que o médico mais experiente tenta segurar sozinho, sugerindo que ele busque ajuda para lidar com tudo o que vem acumulando.

Cozinhando em fogo baixo 

As histórias de Carmy e Robby mostram que o nosso trabalho e nossas relações são atravessados pelo que carregamos na bagagem emocional.

O trauma não precisa ser uma sentença de repetição, nem o corpo uma eterna panela de pressão.

Quando encontramos espaços de segurança e nos permitimos sentir o que foi contido, o corpo volta para o presente.

Quando aprendemos a reconhecer os sinais do nosso corpo e buscamos ambientes (e terapias) que promovam segurança, abrimos espaço para que o sistema nervoso se autorregule.

O objetivo final vai além de ser mais produtivo: é conseguir olhar para a vida com a presença e a calma que você merece ter.

Ao fortalecer vínculos e cuidar da própria regulação, você deixa de ser conduzido pelas memórias de ontem e passa a habitar, com presença, o tamanho real da sua vida hoje.

Se quiser conversar, estou por aqui.

Perguntas frequentes

O que são gatilhos emocionais no trabalho?

Gatilhos emocionais no trabalho são reações intensas e automáticas diante de situações do ambiente profissional, como uma crítica, um prazo apertado ou um conflito com um colega. Em geral, eles indicam que aquele estímulo tocou em algo antigo, e não apenas no problema atual. O corpo responde como se houvesse uma ameaça real, com coração acelerado, tensão muscular ou vontade de reagir. Reconhecer esses sinais tende a ser o primeiro passo para lidar com eles de forma mais consciente.

Por que reajo de forma exagerada a coisas pequenas no trabalho?

Reações desproporcionais costumam acontecer quando uma situação presente ativa memórias e emoções guardadas no sistema nervoso. Segundo a Experiência Somática, o corpo pode reter cargas de estresse que não foram processadas, e um pequeno estímulo funciona como gatilho para tudo aquilo. Por isso, a intensidade que você sente pode ter mais relação com o passado do que com o episódio em si. Se essas reações se repetem e atrapalham o seu dia a dia, o acompanhamento com um psicólogo tende a ajudar a compreender e a transformar esse padrão.

Como saber se meus gatilhos vêm de traumas antigos?

Não existe uma resposta única, mas alguns sinais indicam essa possibilidade. Quando a reação parece grande demais para o tamanho da situação, quando o mesmo tipo de conflito se repete em diferentes empregos ou quando você percebe padrões que lembram a sua história familiar, pode haver marcas antigas envolvidas. Manter um registro do que dispara essas reações costuma ajudar a enxergar repetições. Um processo terapêutico oferece um espaço seguro para investigar essas origens com mais profundidade.

O que é a Experiência Somática e como ela ajuda?

A Experiência Somática (Somatic Experiencing®) é uma abordagem criada pelo médico e biofísico Peter Levine. Ela parte da ideia de que o trauma não fica apenas na mente, mas também no corpo e no sistema nervoso. Em vez de focar só na narrativa do que aconteceu, a proposta observa as sensações físicas para ajudar o corpo a liberar, aos poucos, o estresse que ficou retido. O trabalho é conduzido por um profissional certificado, de forma gradual e respeitando o ritmo de cada pessoa.

Como lidar com gatilhos emocionais no trabalho no dia a dia?

Alguns caminhos tendem a ajudar no dia a dia. Vale observar os sinais do corpo quando a tensão aumenta, fazer pausas para respirar antes de responder e nomear o que você está sentindo. Cultivar vínculos seguros no trabalho, com pessoas que transmitem acolhimento, também favorece a sensação de segurança. Ainda assim, quando os gatilhos são frequentes ou intensos, buscar apoio de um psicólogo costuma ser o passo mais consistente para cuidar da raiz da questão.

Maria Cristina Gomes

Maria Cristina Gomes

É psicóloga sistêmica. Atua com traumas pela abordagem Somatic Experience® além de abordar outras questões de relações interpessoais, autoestima e postura diante da vida. Atende online e presencialmente na cidade de Belo Horizonte.

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