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Carência afetiva: como ela se torna um convite para relacionamentos abusivos

Entenda como a carência afetiva anula seus filtros de escolha e como identificar os sinais de um abusador antes que a relação se torne um ciclo de dor.

Atualizado em

Quando uma pessoa sofre de carência afetiva, os filtros para escolhas mais sensatas de parceiros simplesmente desaparecem.

Esse estado emocional funciona como um campo fértil para abusadores, sociopatas e manipuladores. É a receita infalível para se deixar levar e, depois de um tempo, estar mergulhada numa armadilha de difícil saída.

A pessoa carente se torna uma presa fácil porque o abusador tem um tipo de inteligência que percebe exatamente o que ela deseja e oferece na medida exata num primeiro momento.

Compreender essa dinâmica é o primeiro passo para não pautar sua vida nas mãos do outro e fortalecer seu amor-próprio.

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Como o abusador identifica e seduz a pessoa carente

O abusador oferece exatamente o que o carente deseja num primeiro momento. Essa entrega inicial é muito sedutora e costuma incluir:

  1. Sexo incrível e carinho: Mimos e uma fala sempre doce.
  2. Validação constante: Reconhecimento por tudo e por nada.
  3. Promessas: Garantias de uma vida estável e aparente entrega.
  4. Intelecto e humor: Simpatia, inteligência afiada e compreensão excessiva.

Como tudo isso é envolvente, quem está carente não percebe que, junto com as qualidades, as atitudes de possessividade já estão presentes. Preste atenção aos indicativos:

  • Ele afasta a pessoa gradualmente da família, recusando encontros e festas.
  • Quando vai a compromissos sociais, demonstra claramente com atitudes que não queria estar lá.
  • Afasta a pessoa dos amigos sob o pretexto de que “só eles juntos já se bastam”.
  • Revela ciúme de todos que roubam o tempo do casal ou de tudo o que a pessoa preza.
  • Faz a pessoa se sentir amada e insubstituível enquanto restringe sua liberdade.

Como tudo é feito de forma dedicada, justifica-se o incômodo acreditando ser tudo por amor.

TESTE: Você sabe lidar com a carência?

A inversão do quadro: quando a máscara cai

Quando o abusador percebe que a pessoa foi conquistada, o cenário se transforma. O que era doce torna-se brutal:

  1. Agressividade: A fala mansa e a simpatia dão lugar a insultos, brutalidade e cara fechada.
  2. Instabilidade: A vida vira um campo de batalha com acusações e fantasias que fazem a pessoa se desdobrar para provar sua inocência.
  3. Exploração: O que era entrega revela-se manipulação egoísta.
  4. Vingança e Controle: Passa a pautar todos os programas do casal para depois mostrar como a pessoa se comportou mal.
  5. Chantagem e Violência: O ciúme vira possessividade cruel. Discussões intermináveis podem desembocar em agressões físicas e verbais.
  6. Dívidas: O carente empresta dinheiro e chega a se endividar para pagar dívidas do abusador, que se faz de vítima enquanto vive às custas da parceira.

O ciclo da repetição e a falsa esperança de mudança

E o carente, como fica nisso tudo? 

A pessoa carente se desdobra para recuperar o “começo de sonho” e acaba se desidratando emocionalmente.

A pessoa se consome e não ouve ninguém. O que está claro para amigos e família não é claro para ela, que insiste, numa teimosia cega, que vai conseguir resgatar a doçura dos primeiros tempos (e muitas vezes o dinheiro), convencida de que a responsabilidade é dela.

Se a pessoa chega a ter um lampejo de lucidez e toma uma atitude mais firme, o abusador sabe que pode perder terreno e volta a ser gentil, pois sabe que é disso que precisa para que ela caia mais uma vez em sua armadilha. E pouco tempo depois, a dinâmica perversa é retomada.

O perigo do “retorno” e a paciência do abusador

A repetição desse padrão se dá várias vezes na vida de quem ainda não aprendeu a se respeitar ou o que significa amor-próprio. Às vezes, eles se separam. Para a pessoa carente, é um alívio poder voltar para sua essência, mas o abusador é paciente.

Ele nunca sai do radar de sua vítima. Rodeia, mostra o quanto mudou, convida para um almoço, volta a ser a pessoa divertida e amável dos primeiros tempos. De novo sedutor.

E se a pessoa não aprendeu, vai acreditar que as pessoas mudam assim, sem um tratamento terapêutico, sem reflexão, que mudam “do nada”.

Mas quem não entendeu que ninguém se transforma por milagre é a pessoa carente, que acaba cedendo ou repetindo o padrão com outra pessoa.

Como superar a codependência e retomar o controle?

Muitas vezes, a pessoa carente é alguém de bom coração que se recusa a acreditar que um abusador não sinta empatia. É preciso entender que determinados tipos de transtorno de personalidade não se afetam pelos sentimentos dos outros.

Não têm empatia e agem no impulso do próprio egoísmo. Por não terem essa percepção mais afiada, por serem excessivamente crédulas, as pessoas carentes podem cair na mesma armadilha mais de uma vez, e até com a mesma pessoa.

Os sinais de um abusador estão lá, mas o carente se recusa a enxergar.

Se você se identificou com esse personagem carente, saiba que a codependência afetiva pode ser solucionada. Não por milagre, mas com trabalho interno e tratamento terapêutico, focando em:

  • Autoconhecimento: Entender as razões que a empurraram para esse labirinto.
  • Fortalecer a autoestima: Fazer escolhas sem precisar abrir mão de quem você é para ser aceita.
  • Autonomia: Aprender que você pode suprir as próprias carências. A solução para sua solidão afetiva não está no outro.
  • Compreender para transformar: finalmente, poder fazer escolhas na vida que você não sinta que tem necessidade de abrir mão de quem é para agradar, para ser aceito, para viver em paz. 

O abusador se acha perfeito e não acredita que tenha problemas, mas quem sofre é você. Procure ajuda. O outro pode complementar sua vida, mas não pautá-la.

Fazer escolhas equilibradas, saber identificar quando caiu num relacionamento abusivo e sair dele antes que seja tarde são coisas que se pode aprender.

Procure ajuda e aprenda que pode suprir as próprias carências sem achar que a solução para sua solidão afetiva está no outro. Não está. O outro pode complementar sua vida, mas não pautá-la. Isso é com você! 

Celia Lima

Celia Lima

Psicoterapeuta holística com abordagem junguiana há mais de 30 anos e estudiosa de Psicologia da Saúde e Hospitalar. Utiliza os florais, entre outras ferramentas, como método de apoio ao processo terapêutico, como vivências xamânicas, buscando um pilar metafísico para uma compreensão mais ampla da vida, da saúde física e emocional.

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