Logo Personare vertical
Pesquisar
Loading...

Como entender um sonho pela terapia comportamental

Na terapia comportamental ao analisar como entender um sonho é possível entender os sentimentos do cliente, mesmo que sejam sentimentos que não possam ser expressados na vida desperta

Como entender um sonho pela terapia comportamental

Como entender um sonho pela terapia comportamental?

A ideia de interpretação de sonhos como uma ferramenta para o trabalho do psicólogo nasceu com Freud e seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, publicado em 1900. Posteriormente, Jung avançou no tema com seus conceitos de inconsciente coletivo e arquétipos. As abordagens que derivam das contribuições de Freud e Jung são reconhecidas por utilizar o trabalho com sonhos como ferramenta terapêutica.

Mas esse recurso não é uma ferramenta exclusiva das abordagens psicanalíticas. A análise do comportamento também trabalha com sonhos como ferramenta nas sessões de psicoterapia. A análise de sonhos na terapia comportamental pode ser muito instrutiva para o cliente, e também para o terapeuta .

Como funciona a terapia comportamental

Para entender a análise de sonhos na terapia comportamental, primeiro é importante compreender uma das bases da análise do comportamento, que é: “o comportamento nunca acontece no vácuo”.

Tudo o que as pessoas fazem acontece dentro de um contexto, e esse contexto pode alterar o significado daquele comportamento. Vou dar um exemplo: imagine duas pessoas fumando maconha.

  1. Uma delas é um adolescente que fuma maconha com seus amigos para se encaixar no grupo social
  2. A outra fuma maconha por recomendação médica para aumentar o apetite que anda baixo por causa dos efeitos colaterais da quimioterapia.

O comportamento de fumar pode ser igual, mas quando você considera o contexto, o significado muda completamente, não é?

Entender o contexto é muito importante. Não só porque ele altera o significado do comportamento, mas também porque algumas vezes ele impede ou dispara comportamentos específicos. Em outras palavras, a pessoa agiria de maneiras diferentes em ambientes diferentes, mesmo se sentindo do mesmo jeito.

Por exemplo, uma pessoa com sede normalmente bebe água. Mas se esta pessoa estiver perdida em um deserto, está num ambiente onde esse comportamento não é possível. Então você não verá essa pessoa bebendo água, não importa quanta sede ela sinta.

Em resumo, observar apenas o comportamento nunca é o suficiente para entender o que a pessoa está vivendo. Observar o comportamento dentro do contexto oferece uma análise muito melhor. Mas e quando nem isso explica o que a pessoa está sentindo?

Como entender um sonho na terapia comportamental?

Quando nem a análise do comportamento dentro do contexto esclarece sobre sentimentos, utilizamos a análise de sonhos na terapia comportamental. Porque nos sonhos nosso comportamento está livre das “amarras” do contexto. Ali o nosso cérebro “cria” o ambiente de acordo com o que estamos mais propensos a fazer, e isso revela nossos sentimentos mais intensos.

  • Você já reparou como pessoas em dieta sonham com comida? E que, quanto mais restritiva a dieta, mais frequentes esses sonhos?
  • Já reparou que pessoas que estão em abstinência sexual têm sonhos desse tipo?
  • Ou também: quem está apaixonado por alguém com quem não pode se envolver sonha com essa pessoa?
  • Já notou como é comum que pessoas em luto sonhem com o ente querido que faleceu?

Em todos esses casos, o sonho indiretamente nos conta do que essa pessoa sente falta. Que coisas ela deseja fazer mas não tem oportunidade na vida acordada? Essas coisas o sonho revela.

Por outro lado, quando estamos preocupados, assustados ou passando por períodos tensos, os sonhos de angústia se tornam comuns. Mas o que isso quer dizer? Que desejamos viver mais angústia ainda? Claro que não. Quando estamos angustiados, nosso desejo é poder enfrentar logo e acabar com o problema.

Mas isso nem sempre é possível. Por exemplo, um vestibulando que está fazendo cursinho vive uma situação de ansiedade que só poderá ser resolvida lá no final do ano. Porém a propensão a enfrentar logo esse desafio está presente o tempo todo. O medo de falhar também. Então ao longo desse ano é provável que esse adolescente experimente muitos sonhos de angústia.

E que nesses sonhos várias vezes o jovem vai falhar ou fracassar. A tentativa do cérebro é a de encontrar formas de sobreviver a essa ameaça de fracasso, e a esse desafio que parece tão presente, mas que ainda não temos como confrontar na vida real.

Outra coisa importante: se por um lado o sentimento presente no sonho pode ser fácil de relacionar com a vida real, as imagens normalmente não são. Sonhos tendem a ser vivências bizarras, “oníricas” por definição, ou seja, ilógicas, irreais.

Na tentativa de criar um ambiente onde os comportamentos que estão reprimidos durante o dia possam acontecer, o cérebro usa imagens que ele tem armazenadas. Essas imagens podem ter vindo da nossa vida real, mas também de filmes, de livros, de coisas que imaginamos, ou o que acontece com mais frequência: são misturas de tudo isso.

Uma professora de análise do comportamento que tive na faculdade dizia que interpretar sonhos é como jogar “Imagem-e-Ação” com seu cérebro. Ele tem uma mensagem a transmitir e não pode dizer a mensagem diretamente; precisa fazer uma representação dela. Mas ao invés de usar mímicas para isso, a regra do “imagem-e-ação” do sonho é utilizar imagens que o cérebro armazenou.

Benefícios da análise de sonhos na terapia comportamental

O trabalho com os sonhos na terapia comportamental permite entender os sentimentos do cliente, mesmo que ele não possa expressar esses sentimentos na vida desperta.

Alguns destes sentimentos podem já ter sido notados pela pessoa que sonhou. Alguns podem ser desconhecidos, e a análise dos sonhos na sessão ajuda percebê-los com clareza.

Nesse sentido, a análise dos sonhos na terapia comportamental é um caminho para aumentar o autoconhecimento do cliente, bem como ajuda a discriminar sentimentos conflitantes ou contraditórios; identificar experiências emocionais que estão causando sobrecarga ou sensação de privação.

De posse dessas informações, terapeuta e cliente estão mais equipados para, juntos, construir estratégias para atravessar os períodos turbulentos da vida.

Olá, essa matéria foi útil para você?
Tatiana Perecin

Tatiana Perecin

Psicóloga pela UFSCar, especialista em Psicologia Clínica / Análise do Comportamento. Trabalha com terapias contextuais, que são referência na intervenção psicológica baseada em evidências científicas de eficácia. Tem mais de 10 anos de atuação em consultório, atendendo adultos em casais em sofrimento emocional, e também casos severos. Saiba mais