Hellen Reis Mourão
  • Por Hellen Reis Mourão
  • Leia em 24 min.
  • 16/09/2015
  • Atualizado em 16/09/2015 às 11:32

Caminhos da Floresta: quando luz e trevas andam juntas

Filme subverte o conceito de herói e mostra a importância de admitir os próprios defeitos

Filme subverte o conceito de herói e mostra a importância de admitir os próprios defeitos

Caminhos da Floresta: quando luz e trevas andam juntas

O filme “Caminhos da Floresta” (Into the Woods/2014) é uma adaptação de um musical da Broadway que reúne vários personagens de contos de fadas, como Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e João e o Pé de Feijão. Todas essas histórias se entrelaçam ao redor de um padeiro, de sua esposa e da bruxa má.

Vou começar a análise do filme com uma breve explicação sobre esses personagens clássicos.

Personagens clássicos são humanizados, com defeitos e conflitos internos

A Cinderela já foi analisada de forma mais profunda neste artigo. Sua história traz uma lição de amadurecimento e humildade, mostrando como ela consegue fortalecer a sua personalidade em meio aos maus tratos, tornando-se, assim, uma princesa.

Chapeuzinho Vermelho é uma menina ingênua. Ela é criada em meio a uma família composta só por mulheres (a mãe e a avó) e, por isso, possui uma imagem do masculino como devorador e mau (o lobo) – imagem essa passada de geração em geração, de mulher para mulher. No filme, entretanto, Chapeuzinho não é tão ingênua. Ela chega a ser bem desobediente e mimada, sendo retratada de forma mais tridimensional, com qualidades e defeitos.

Rapunzel, a garota presa em uma torre sem portas por uma bruxa que queria apenas ter a filha só para ela, retrata o problema angustiante da mãe que enclausura a filha com a desculpa de protegê-la do mundo. As aspirações, os sonhos e a vida não vivida da mãe são depositados naquele novo ser. O conto mostra que a mãe superprotetora e boa demais pode levar a filha a muitos sofrimentos, inclusive a uma gravidez precoce (fato esse que está no conto original e que foi omitido no filme).

João e o Pé de Feijão é um conto voltado para os meninos, que mostra o amadurecimento. João é um menino sem pai, preso a uma mãe crítica, que sobe aos céus e rouba os tesouros do gigante. Ele enfrenta a sua preguiça por meio de uma megalomania (gigante) e consegue voltar ileso à realidade, capaz de ganhar seu próprio sustento.

Herói ou anti-herói?

Bem, mas nenhum desses personagens é o verdadeiro herói da saga. Todas essas são subtramas que giram ao redor do Padeiro, que é o verdadeiro herói do filme. Ao contrário dos outros personagens, o Padeiro não tem nome (assim como sua esposa e a bruxa). Isso significa que se trata de uma figura impessoal, que se encontra no inconsciente coletivo. O que não é muito bom, pois não tendo nome, não nos ligamos a ele de forma pessoal, ou seja, as lições e o aprendizado que ele traz ainda não estão sendo totalmente assimilados pela consciência coletiva.

Vejo aí, então, uma crítica do autor da obra à nossa sociedade. Todos esperam que o herói do filme seja másculo, que vença monstros e vilões e que não seja um simples padeiro. o ser humano possui um impulso para buscar seus tesouros internos.

o ser humano possui um impulso para buscar seus tesouros internos.

Entretanto, para conseguirmos alcançar essa plenitude, não devemos negar e esquecer o nosso outro lado – a sombra. Nossa faceta menos bonita e nossas mazelas, que no filme são representadas pela floresta escura.

Excesso de autoconfiança encobre fragilidades e nos deixa desprevenidos

Bem, o Padeiro e sua mulher conseguem todos os objetos e, todos os demais personagens encontram seus finais felizes. Mas parece que algo ficou para trás. Sem o conhecimento dos personagens, um feijão cai ao solo, crescendo e trazendo de lá a esposa do gigante que João matou. Isso é muito interessante, porque em nossa vida, quando resolvemos um conflito e tudo parece ter um eterno final feliz, um novo desafio surge no nosso inconsciente. A vida é cíclica – se não tivermos conflitos e desafios para resolvermos, não crescemos nem saímos de nossa zona de conforto.

Quando saímos de alguma situação conflituosa, temos a tendência a nos supervalorizar, o que é importante, uma vez que essa autoconfiança nos faz nos mover. Mas ficar nesse estado é perigoso.

Quando saímos de alguma situação conflituosa, temos a tendência a nos supervalorizar, o que é importante, uma vez que essa autoconfiança nos faz nos mover. Mas ficar nesse estado é perigoso.

Essa megalomania é confrontada pela gigante que busca vingança – é a vingança contra a megalomania humana! Os personagens estavam tão autoconfiantes e com o ego inflado que se esqueceram da sua própria fragilidade.

Reconhecer falhas para alcançar a integridade

Na segunda parte do filme, a megalomania reprimida aparece com toda a força e os personagens vão mostrando seu lado negro. Na medida em que testemunham seus próprios defeitos e o enredo se aproxima do desfecho, podemos perceber a grande lição do filme: não há como encontrar um final feliz e nos tornarmos mais completos e humanos se não olharmos com honestidade para nós mesmos, para nossos aspectos sombrios, nossa mesquinhez, ganância e vaidade. Enquanto não fizermos isso, não teremos consciência daquilo que plantamos e seremos sempre pegos de surpresa por monstros vingativos.

Para continuar refletindo sobre o tema

Aprendendo com os seus erros

Aceite seus excessos e faltas

A culpa é sempre dos outros?

Cinderela é lição de amadurecimento e humildade

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Hellen Reis Mourão

Hellen Reis Mourão

É analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ. Saiba mais