Marcia Fervienza
Por Marcia FervienzaLeia em 21 min.29/06/2015 

Você possui algum trauma mal resolvido?

Não é o tempo que cura tudo, mas sim o que você faz com ele

Não é o tempo que cura tudo, mas sim o que você faz com ele

Dizem que o tempo cuida de tudo e cura tudo. Será mesmo? Outro dia li em uma rede social que não é o tempo que cura tudo, mas o que fazemos com ele. E acho mesmo que é por aí. Uma das situações mais comumente vista em atendimentos psicológicos é de pessoas que viveram situações traumáticas que nunca foram adequadamente elaboradas, e o impacto que as mesmas têm em seu dia a dia, suas relações, etc. “Mas isso já passou há muito tempo. Já está mais do que resolvido!”, muitos costumam dizer. Está mesmo? Provavelmente não.

Por que é assim? Para compreendermos um pouco melhor o mecanismo dos traumas, é preciso entender que o inconsciente (lugar onde todas as nossas experiências ficam registradas, mesmo aquelas que não lembramos) é atemporal. Ou seja, para o inconsciente de Freud, tudo que vivemos e experimentamos é convertido em energia para o inconsciente. E o inconsciente, de forma bem simplificada, só entende de energia intensa ou suave.

Ou seja, diante de uma situação extrema, de trauma, de perda, de dor, cada psique de cada um está predisposta a “quebrar” de um jeito: uns se deprimem, outros tem crises de ansiedade, outros desenvolvem transtorno obsessivo compulsivo.

Ou seja, diante de uma situação extrema, de trauma, de perda, de dor, cada psique de cada um está predisposta a “quebrar” de um jeito: uns se deprimem, outros tem crises de ansiedade, outros desenvolvem transtorno obsessivo compulsivo.

Ainda assim, continuamos falando de energia reprimida não elaborada. Não ficamos doentes porque está escrito no nosso DNA que vamos adoecer. Ficamos doentes porque algo não foi tratado. Quando temos um gene que nos predispõe a ter câncer, precisamos fazer mais controles e ficar mais atentos, mas é preciso do fator ambiental (um estilo de vida que contribua para o desenvolvimento de um câncer) para ativar aquele gene. O mesmo ocorre com o lado psicológico: algo ocorreu que nos levou a “quebrar” daquela maneira. E, embora o remédio dê conta do sintoma, ele não vai tratar a causa. Por isso, sem remédio, o sintoma retorna. Assim, o caminho que realmente pode ajudar a resolver o problema é a terapia.

Terapia torna o trauma inofensivo

Com a terapia, surgem outros obstáculos. De que forma vamos encontrar o trauma/sentimento/dor que estamos guardando a sete chaves e que nos levou a “quebrar” daquela forma? Não é fácil, porque nosso consciente é bastante astuto: com o intuito de nos proteger de sentir aquela dor novamente, ele não consegue apagar a memória, mas apaga o caminho até ela. Então, a energia fica lá, a memória também, mas sem um caminho que leve até ela. Estamos, então, em um labirinto, onde não sabemos onde é a porta de entrada, nem a porta de saída. Assim, qualquer evento e experiência pode disparar aquele “trauma” tão bem guardado a sete chaves, como uma música, um cheiro, uma visita a um lugar, qualquer coisa.

O trabalho da terapia é desenterrar aquele evento para poder esvaziar a sua força e torná-lo inofensivo para você.

O trabalho da terapia é desenterrar aquele evento para poder esvaziar a sua força e torná-lo inofensivo para você.

No entanto, para desenterrá-lo, é preciso poder reconstruir o trajeto até ele. Esse caminho, como um mecanismo de autoproteção, não está mais lá, mas toda a força do evento sim, tenha ele acontecido há cinco dias ou há cinquenta anos.

Por isso, o processo terapêutico é uma demorada trajetória de autoconhecimento: este é consequência do processo, não a causa. Mas vale a pena. E, para muitos psicólogos, é o único caminho que oferece realmente uma cura. E não estou aqui “demonizando” as medicações, já que elas oferecem um excelente suporte e podem ser necessárias para a vida inteira, em alguns casos. Mas só podemos falar de cura mesmo através do processo terapêutico.

Por isso, não é verdadeiro dizer que o tempo cura tudo. Não cura não. Só nós podemos nos curar.

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Marcia Fervienza

Marcia Fervienza

Astróloga há mais de 15 anos e psicóloga, atua como colaboradora em Astrologia para diversas revistas e possui trabalhos publicados em vários países. Oferece atendimentos astrológicos presenciais e virtuais.