Clarissa De Franco
  • Por Clarissa De Franco
  • Leia em 25 min.
  • 20/02/2018
  • Atualizado em 05/05/2018 às 14:39

Viva – A vida é uma festa: memória, morte e laços geracionais

Coco, nome original do longa, explica ligação entre vivos e mortos

Coco, nome original do longa, explica ligação entre vivos e mortos

Viva – A vida é uma festa: memória, morte e laços geracionais

A morte não parece um tema adequado para um longa metragem de animação infantil, mas não se preocupem com isso. Viva – A vida é uma Festa, da Pixar, é um filme sensível e traz aprendizados para todas as idades. Negada na contemporaneidade, a finitude da vida ainda é um tabu social, que demonstra a fragilidade humana diante daquela que interfere em nossos ideais de realização e onipotência.

Viva – A vida é uma festa: quando pertencer é mais importante que um sonho

A negação da morte afeta memórias ancestrais que nos conectam a quem somos, causando travas no inconsciente familiar e desajustes na compreensão de identidade. Para ajudar na aceitação desse momento e na ligação entre vida e morte, a animação traz ensinamentos belos e simples, que podem servir de recursos para pensarmos em paralelos com práticas terapêuticas, como a de Constelação Familiar.

A morte

Estudiosos da tanatologia (estudo científico da morte) abordam a necessidade de elaborarmos de maneira mais profunda e coletiva o tema na contemporaneidade. A modernidade relegou a morte para um lugar de tabu, por representar um limite definitivo para busca do ser humano em transpor a sua condição finita. Esse brincar de deuses, que temos feito com grandes avanços médicos e biotecnológicos, nos leva ver a morte como adversária, uma espécie de ofensa simbólica ao desejo de viver e realizar.

Esse brincar de deuses, que temos feito com grandes avanços médicos e biotecnológicos, nos leva ver a morte como adversária, uma espécie de ofensa simbólica ao desejo de viver e realizar.

Até os rituais em torno da morte se tornaram empobrecidos nesta humanidade contemporânea que crê que sua racionalidade dá conta de toda a complexidade da vida. Poucos sabem o que dizer a quem fica na hora de uma perda, deixando os que vivem o luto com uma dor profunda, sem acolhimento. Mas, nem sempre foi assim. Em outros momentos, velórios ocorriam na casa da família da pessoa falecida. Durante dias, a comunidade se reunia, comia, contava histórias sobre aqueles de quem estavam se despedindo, dando um contorno social à biografia do(a) morto (a).

A festa dos mortos no México

O México, cultura em que se destacam as cores e a alegria, conseguiu atravessar a modernidade sem esmagar o conteúdo simbólico e as lições arquetípicas que a morte traz, em um sincretismo religioso que mantém vivas as tradições e festas populares entre catolicismo e raízes da América pré-colombiana. Santa Muerte, hoje cultuada nas festas comemorativas do Dia dos Mortos, já foi alvo de clandestinidade. Até bem pouco tempo, era vista com maus olhos e os rituais eram feitos de forma mais privada.

A imagem da Santa Muerte pode variar de representação. Nos casos em que se vê um sincretismo com o Arcanjo Miguel, Santa Muerte é acompanhada da foice. De maneira mais frequente, seu esqueleto é coberto por vestes como as de Maria, mãe de Jesus, com terços católicos. Há ainda a representação de Santa Muerte como La Catrina, um esqueleto de uma dama da alta sociedade, que remete à época pré-colombiana.

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Memórias e laços geracionais

Além das representações da Santa Muerte, algo que é ressaltado e ensinado no filme Coco – Viva, a vida é uma festa, é o caráter unificador dos laços geracionais no longa.

Desde a Antiguidade, uma das piores maldições era o não cumprimento de rituais mortuários. Na mitologia grega, Sísifo teria se aproveitado para tentar enganar a morte, pedindo para voltar à vida porque rituais fúnebres não teriam sido realizados. Seu final não foi muito nobre. O mito nos mostra a tentativa de controle sobre a morte.

O fato é que, até hoje, ser enterrado como indigente é socialmente agressivo. Como se a biografia do morto não tivesse valor e a passagem pela Terra não tivesse existido.

É na morte e diante dela que se garante o reconhecimento social e familiar da existência. Se uma mulher passou por aqui, foi filha, talvez mãe ou esposa de alguém. A noção de pertencimento confirma nossa passagem por essa vida cheia de corpos, espíritos e mortos anônimos. A morte e seus rituais dão testemunho de nossos laços.

A noção de pertencimento confirma nossa passagem por essa vida cheia de corpos, espíritos e mortos anônimos. A morte e seus rituais dão testemunho de nossos laços.

Há uma linha terapêutica que atua com resgate dessa noção de linhagem, ancestralidade e pertencimento. São as Constelações Sistêmicas e as Constelações Familiares, técnicas terapêuticas que reconstituem a consciência de cada ser em relação aos seus laços de pertencimento, em especial os familiares. Caminho indicado prioritariamente para quem tem “nós emocionais” em relação aos membros da família.

Coco – Viva, a vida é uma festa

Um lamento me tomou quando soube da mudança do título do filme. No original, Coco. Na versão brasileira: Viva – A vida é uma festa. O filme da Pixar/Disney, que levou o Globo de Ouro e está indicado ao Oscar 2018, arranca aplausos pelo mundo. Trata lindamente de uma temática pouco frequente em filmes e animações infantis: a morte.

O lamento se deu em função da importância do título original – no qual faria um pequeno reparo, colocando “Mama Coco”. O título original faz jus a um detalhe que amarra toda trama do filme: a permanência da existência de um espírito depende da memória de Mama Coco, uma senhora, de idade, já com pouca capacidade de identificar pessoas e situações conhecidas.

Essa memória da biografia dos mortos e a noção de pertencimento familiar é o que de melhor nos oferece o longa, além de toda plasticidade estética, com colorido especial.

Essa memória da biografia dos mortos e a noção de pertencimento familiar é o que de melhor nos oferece o longa, além de toda plasticidade estética, com colorido especial.

Há que se exaltar, também, uma perspectiva de pós-morte bastante similar ao nosso mundo, em uma relação de codependência e espelho. O mundo dos mortos é uma extensão do mundo dos vivos, inclusive as caveiras têm os formatos e as expressões dos rostos enquanto vivos, algo que impressiona no filme. A música, veículo pelo qual a memória pode ser acionada entre os personagens, está apartada da família, por conta de um trauma. Restam poucos elementos para reconstruir os tecidos emocionais que garantiriam esse laço entre vida e morte, tão magistralmente desenhado em Coco.

Pelos olhos e ímpetos de um garotinho de doze anos, Miguel – personagem principal que busca um parente distante para ajudá-lo a viver um sonho – vida e morte são religadas, enquanto as feridas emocionais são ressignificadas. Uma obra de arte, com ensinamentos culturais, religiosos e psicológicos sobre como a morte no ensina o que é essencial na vida e como a memória dos mortos deve ser preservada para que a grande história continue.

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Clarissa De Franco

Clarissa De Franco

Clarissa De Franco é psicóloga, com Doutorado em Ciência das religiões e Pós-Doutorado em Estudos de Gênero. Atua com Direitos Humanos, Gênero e Religião, além de ser terapeuta, taróloga, astróloga e analista de sonhos. Saiba mais