Gustavo Cunha
Por Gustavo CunhaLeia em 3 min.05/06/2015 

Satsanga Yoga: a arte de reunir pessoas

Encontros têm como objetivo amenizar solidão e depressão

Estar junto de alguém é uma experiência tão comum nos dias de hoje que apenas quando estamos sozinhos ou desejando companhia é que damos o real valor a uma conversa, mesmo que banal; a um sorriso, mesmo que fugaz; e a um toque, mesmo que ligeiro.

Por vivermos rodeados de gente, principalmente nas grandes cidades, habituamo-nos a cruzar com muitas pessoas no nosso caminho, sem sequer pararmos para enxergá-las direito, conversar com elas ou apenas cumprimentá-las. E quando o fazemos não entramos na intimidade e na profundidade da pessoa, nem tampouco revelamos as nossas fraquezas e fragilidades. E quando isso acontece, a união entre nós e os outros fica desfeita, dando origem ao afastamento, solidão e depressão.

Pode parecer completamente irreal ou difícil que tal coisa aconteça, já que a tecnologia nos ajuda a manter o contato e a proximidade com as pessoas. Mas não há nada que substitua o calor humano, a voz escutada diretamente da boca de alguém ou um carinho que afaga e aquece a alma.

Encontros de Yoga ajudam a aceitar quem você é

Esse é o propósito do chamado “Sat Sanga”. Em Sânscrito, língua antiga da Índia, Sat traduz-se como “verdade” e Sanga como “reunião”. Sat Sanga, literalmente, será uma reunião (de pessoas) que buscam a verdade, ou seja, conversar sobre a real natureza do indivíduo e a sua não-separação do todo, do universo, do pleno.

Muito comum no Yoga, o Sat Sanga clássico é dirigido por um mestre ou professor, que devido ao seu estudo, contemplação e prática dissipa as dúvidas dos buscadores e permite que cada um veja além do seu ego, rumo a uma visão mais ampla de si mesmo, como uma totalidade, um oceano de existência, sabedoria e felicidade.

Assim, o Sat Sanga é muito importante na tradição védica e em outras tradições que privilegiam o encontro, a “reunião em boa companhia” e o desenvolvimento interior capaz de alavancar o crescimento para o exterior, para obras sociais, para uma abertura ao próximo em amor e harmonia.

Um amigo, Marco Peralta, também professor de Yoga aqui em Portugal, falou certa vez acerca do Sat Sanga desta forma: “Nestes encontros, a intenção não é ter discussões filosóficas ou conceptuais, mas sim abraçar a vida tal e qual como ela acontece a cada instante. Através de uma exploração aberta e livre de pré-conceitos do que acontece realmente a cada dado momento da nossa existência, baseando-nos na nossa experiência direta da realidade e da nossa sensação de vida. Reconhecendo-nos como a própria vida, aceitando-nos e vivendo com mais consciência e presença o nosso dia a dia”.

Como acontecem os encontros?

Dentro do conceito da cultura védica, o Sat Sanga pode ter um espaço para cânticos em Sânscrito de nomes do Divino (kirtana ou mantram) e Meditação (upasana). Esses cânticos podem ser acompanhados por instrumentos tradicionais da música indostânica ou ocidentais e contemporâneos. Desta forma, é comum encontrarmos tabla e viola juntos, símbolos do encontro livre e frutífero entre pessoas de lugares diferentes.

Quando, nestes encontros, estão grupos de amigos que se conhecem de outras paragens, de outros hábitos e cotidianos, então essa relação pode crescer. Pois nesse momento as pessoas poderão escutar e inquirir sobre assuntos os quais talvez nunca tenham falado. Além disso, partilham um silêncio meditativo ou uma exteriorização cantada, que apazigua a mente e relaxa o corpo.

O resultado final de um Sat Sanga deverá ser um preenchimento interno motivador que irradia em alegria e nos faz canalizar para fora, e para todos os seres, energia positiva.

Namastê!

Gustavo Cunha

Gustavo Cunha

Ensina Yoga e estuda Sânscrito e Vedanta. Dirige um centro de Yoga em Portugal e leciona no Centro de Yoga Vaidika (Maia) e no Solverde (Granja). Ministra palestras regularmente e faz traduções de textos milenares e manuais de Yoga para Português.