Hellen Reis Mourão
Por Hellen Reis MourãoLeia em 28 min.17/12/2015 

Por que reis são doentes, velhos ou fracos nos contos de fadas?

Personagem simboliza enfraquecimento da dominação masculina na sociedade

Personagem simboliza enfraquecimento da dominação masculina na sociedade

Os contos de fadas ocidentais apresentam uma estrutura recorrente: neles, o rei costuma estar doente ou velho e, por conta disso, precisa ser substituído. Vemos isso, por exemplo, nos contos: “João Fiel”, “A Princesa Enfeitiçada”, “As Três Penas” e “O Gato de Botas” – todos dos irmãos Grimm.

De acordo com a psicoterapeuta analítica alemã Marie-Louise Von Franz (2005), histórias que apresentam um rei com três filhos são extremamente frequentes. Nestas famílias não há mãe ou irmãs, sendo este contexto inicial puramente masculino. O elemento feminino que existe numa família completa não está representado. Somente na coleção de Grimm, que é uma fração no mundo dos contos de fadas, existem ao menos 50 ou 60 histórias que se iniciam dessa forma.

Além disso, nos famosos “A Branca de Neve”, “Cinderela”, “Rapunzel” e “A Bela Adormecida”, a princesa sempre se casa com um jovem príncipe e se torna rainha ao lado dele. Em “Branca de Neve”, por exemplo, o pai – que é o rei – é fraco e some de cena após o aparecimento da madrasta. Isso mostra que o elemento feminino precisa amadurecer e passar por um processo de provas e iniciações para que atinja novamente a consciência.

Em “O Rei Sapo”, o jovem príncipe é redimido pela princesa, que o leva para o castelo, tornando-o rei e ela, rainha. Ou seja, o elemento feminino precisou ser buscado em “outro reino”.

O rei enfraquecido que aparece nos contos de fadas pode ser compreendido como o símbolo vigente do patriarcado que está doente, pois lhe falta uma contraparte. Afinal, sem a rainha não há fecundidade.

O rei enfraquecido que aparece nos contos de fadas pode ser compreendido como o símbolo vigente do patriarcado que está doente, pois lhe falta uma contraparte. Afinal, sem a rainha não há fecundidade.

Além disso, a consciência coletiva perde a sua criatividade, sendo necessária a busca por esse equilíbrio.

Aspectos masculinos ainda são visto como superiores

Essas histórias mostram que nossa sociedade ocidental vive em um período denominado Patriarcado, que é pautado pelo desenvolvimento dos aspectos masculinos e paternos da consciência coletiva. O princípio paterno, ou Logos, quando predomina tanto na consciência pessoal quanto coletiva, luta para se libertar do inconsciente, representado nos mitos como um útero.

Essa ênfase no Logos em nossa sociedade possui aspectos positivos e negativos. Pelo lado positivo, o patriarcado proporciona o desenvolvimento da consciência, da tecnologia, da organização e da cultura. No entanto, pelo lado negativo nos afastamos do inconsciente e daquilo que é considerado materno e feminino. Ou seja, o princípio do Eros.

O desenvolvimento unilateral e exacerbado do Patriarcado nos trouxe a superpopulação, a exploração dos recursos naturais, o capitalismo selvagem e o uso indiscriminado do poder. O dinamismo Matriarcal, anterior ao Patriarcado, está intensamente ligado ao inconsciente, à origem da vida e da consciência. Mas, infelizmente, ele é visto pelo Patriarcado como ameaçador e por isso foi tratado com preconceito e desvalorização ao longo do tempo.

Mesmo com o advento da Psicologia Analítica, que nos trouxe os conceitos de Anima e Animus – estudos das Mitologias e das culturas predominantemente matriarcais – ainda reduzimos o feminino a conceitos como “inconsciente”, “primitivo” e possuímos a mesma visão de Erich Neumann em sua obra “A História da Origem da Consciência” (1995), de que o Patriarcado é sumariamente superior ao Matriarcado.

Neumann reconhece a importância do Matriarcado para o desenvolvimento da criatividade, mas sucumbe ao reduzi-lo apenas à mãe, à infância e ao primitivismo, enquanto o Patriarcado foi colocado como a instância mais evoluída de desenvolvimento psicológico. Segundo o autor, uma mulher moderna possui uma consciência patriarcal e um ego denotado pelo herói masculino.

No entanto, essa é uma visão reducionista, pois tanto homens quanto mulheres podem possuir uma consciência Matriarcal ou Patriarcal. O que ocorre hoje é que pessoas com uma personalidade mais matriarcal ainda são consideradas imaturas ou infantis. No entanto, um não pode viver sem o outro. Quando se privilegia somente um dos lados da polaridade de opostos, ambos ficam amputados e incompletos.

O que ocorre hoje é que pessoas com uma personalidade mais matriarcal ainda são consideradas imaturas ou infantis. No entanto, um não pode viver sem o outro. Quando se privilegia somente um dos lados da polaridade de opostos, ambos ficam amputados e incompletos.

O Ego precisa se relacionar com o inconsciente, pois ele é fonte de renovação e criatividade. Precisamos compreender que os arquétipos Patriarcal e Matriarcal são formas estruturantes tanto de homens quanto mulheres. Tanto que na Mitologia Grega possuímos exemplos dos mais variados tipos, como deusas nas quais o princípio patriarcal era dominante: Hera, Atena; e deuses notavelmente matriarcais, como Posidon, Hades, Dionísio.

O psiquiatra Byington, no artigo “A Interação Arquetípica Matriarcal e Patriarcal na Psiquiatria”, diz que podemos fazer justiça à importância do dinamismo Matriarcal, quando lhe conferirmos seu papel dominante nos primórdios da vida e, também, o considerarmos como um dinamismo arquetípico presente pelo resto de nossos dias. Ele aparece na estruturação da consciência individual, tanto do homem quanto da mulher, e na consciência coletiva através da sensualidade e da mentalidade mágico-mística, lado a lado do arquétipo Patriarcal.

Para o reconhecimento e entendimento desta atitude exagerada da consciência coletiva, com ênfase no Patriarcado, o estudo dos contos de fadas apresenta uma saída que pode trazer equilíbrio tanto para o indivíduo quanto para o coletivo. Afinal, as histórias são as manifestações do inconsciente coletivo mais puras e isentas de carga cultural. A leitura e a compreensão dos contos visam compensar, criticar, confirmar e curar a consciência.

Por que costuma haver casamento no fim dos contos?

Outro aspecto importante dos contos de fadas ocidentais é que o casamento ocorre ao final da maioria deles, além de ser algo extremamente aguardado. Já nos contos orientais, como os japoneses, é algo que ocorre com bem menos frequência.

O casamento é um tema bastante abordado na Alquimia, na operação alquímica conhecida como coniunctio – que é a união final dos opostos e o grande objetivo da Opus Alquímica (ou trabalho alquímico). A imagem simbólica da coniunctio é o casamento ou intercurso sexual entre o Sol e a Lua, ou o rei e a rainha.

Os contos de fadas ocidentais, então, mostram um paralelo com a alquimia e uma necessidade intensa da busca da união dos opostos: feminino e masculino. Quando o aspecto feminino e Matriarcal não é valorizado em uma sociedade, reflete diretamente nas mulheres e nas mães. Nestes casos, a mulher fica insegura em relação à própria natureza, sem saber o que ela é e o que poderia ser. Com isso, se uma mãe não reconhece seu próprio valor como mulher, ela acaba transmitindo, involuntariamente, essa convicção para a filha.

Essa união do masculino com o feminino é a meta do nosso processo de individuação. Para Jung, o caminho da realização passa pelo encontro do homem com a anima, e da mulher com o animus. Anima e animus são as pontes com o inconsciente, ou seja, fazem a negociação do ego com o inconsciente e articulam a interação matriarcal-patriarcal. Portanto, são eles, por meio do casamento interior com o ego, que vão auxiliar a consciência.

O importante, com o estudo dos contos de fadas, é compreender que a consciência Matriarcal e Patriarcal não é um estágio imutável o qual a pessoa permanece, mas algo que muda conforme a necessidade. Não somos restritos a uma única forma de consciência e, por isso, precisamos aceitar a diversidade. Assim, a luta de poder entre os sexos perderá o sentido. Os contos de fadas, portanto, podem nos auxiliar na busca de nossa verdade mais profunda e no entendimento e respeito por nossa complementaridade.

Referências Bibliográficas:

  1. BYINGTON, C. A. B. A Interação Arquetípica Matriarcal e Patriarcal na Psiquiatria – Um Estudo da Psicopatologia Simbólica Junguiana.
  2. DIECKMANN, H. Contos de fadas vividos. São Paulo: Paulinas, 1986.
  3. EDINGER, E. F. Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.
  4. NEWMANN, E. História da Origem da Consciência. Ed. Cultrix. São Paulo: 1995.
  5. VON FRANZ, M. L. Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.
  6. NEWMANN, E. A interpretação dos contos de fada. Ed. Paulus. São Paulo: 2005.
  7. VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.
  8. VON FRANZ, M. L. A individuação nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 1999.

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Hellen Reis Mourão

Hellen Reis Mourão

É analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ.