Para onde vai a raiva quando a silenciamos?

Reprimir a raiva pode deixar marcas físicas, mentais e emocionais

Para onde vai a raiva quando a silenciamos?

O que você faz quando está com raiva? Você se permite admitir que a sente? A raiva é um sentimento tabu muito incompreendido em nossa sociedade. Aprendemos desde cedo que senti-la é feio, ruim, errado. Nos ensinaram que precisamos fingir que não a sentimos e segurá-la entre os dentes. Não aprendemos a lidar com a raiva, apenas a escondê-la, a rechaçá-la, negligenciá-la e encoberta-la. E para onde vai a raiva quando a silenciamos?

O que é raiva?

A raiva é um sentimento natural como qualquer outro. Assim como sentimos alegria, tristeza, nojo, amor. Ela faz parte de nossa natureza e, usada adequadamente, é saudável para a nossa sobrevivência. Ela nos impulsiona para frente, para agarrar o que é nosso por direito, defender nossos espaços, proteger nosso ambiente e ir atrás dos objetivos. A raiva estimula o nosso potencial de ação, de garra.

Em nossa sociedade, há uma ideia amplamente difundida de que a raiva é um sentimento negativo, que leva necessariamente à destruição das relações. Contudo, o que a faz negativa ou positiva é a maneira com que nos comportamos diante dela.

o que a faz negativa ou positiva é a maneira com que nos comportamos diante dela

Por exemplo, brigar e entrar em conflito é diferente de se posicionar. Você pode usar a sua raiva tendo um comportamento empático ao invés de destrutivo. Esclarecer este mal entendido é fundamental para a saúde emocional de todos nós e para a educação das crianças.

Como a repressão da raiva reflete em nossa saúde

Ao sermos ensinados de que é errado sentir raiva, o que estamos fazendo é reprimir e conter a emoção em nós e, com isso, contemos inúmeros mecanismos saudáveis que estão associados a esse sentimento. A raiva é uma emoção que aciona a musculatura do corpo e exige ação física, um movimento.

Para que possamos reprimir esse sentimento, é preciso conter a sensação da musculatura, pois se entramos em contato com esse potencial muscular, entramos também em contato com a raiva que queremos reprimir. Quando contemos algum sentimento, buscamos dessensibilizar tudo aquilo que em nós, inclusive no corpo, faz com que entremos em contato com ele. Não é por fingir que não existe que o sentimento deixará de existir. Pelo contrário, as emoções inibidas e mal elaboradas permanecem inconscientemente atuantes e acumuladas em nossas estruturas mental, emocional e corporal.

Para conter a raiva, inibimos o movimento e circulação de energia no corpo. Com isso, a repressão desse sentimento pode gerar inércia, sensação desproporcional de cansaço constante, dificuldade em fazer as coisas, depressão e falta de energia.

Outra forma oposta de repressão da raiva é o uso dessa ação em forma de violência. Como não aprendemos desde cedo a lidar com a raiva e não tivemos a oportunidade de amadurecer nossa capacidade de senti-la e saber o que fazer com ela, esta pode ser canalizada de maneira violenta devido a inabilidade e imaturidade em lidar com sua intensidade. Com isso, uma repressão contínua pode gerar um padrão muscular de flacidez ou enrijecimento, assim como um padrão comportamental de passividade ou violência.

Ao bloquear a raiva, inibimos o nosso potencial de ação

A repressão da raiva envolve mecanismos psíquicos e corporais que terminam tendo um efeito genérico de bloquear o nosso potencial agressivo como um todo, gerando uma sensação de insatisfação com a vida e as relações. A agressividade, no sentido estrito da palavra, nada tem a ver com violência ou destruição. Tem origem no Latim e é derivada do verbo aggrendi, que significa alcançar algo ou se movimentar em direção a alguma coisa.

Agressividade é o direcionamento de energia para a autoafirmação, posicionamento, autopreservação e realização. Para estar no mundo de maneira saudável, precisamos de nosso potencial agressivo ativo.

O que fazer quando sentimos raiva

  • A raiva exige movimento, ação. Quando sentimos raiva, o primeiro passo é identificar e assumir para si mesmo que estamos com raiva. Isso já ajuda a desmistificar esse lugar tabu que a raiva se encontra reprimida e colocá-la em seu devido lugar, assumindo-a para você. “Estou com raiva. Estou com raiva por conta disso e disso e disso”. Às vezes é tão reprimido que pode ser difícil identificar a presença dela. Pode vir camuflada com a ideia de “estar chateada” ou “apenas irritada”. Não há nada de errado em estar com raiva. Você pode ter empatia pelo outro e isso é ótimo e necessário, mas se existe raiva dentro de você, não adianta coloca-la escondida para fingir que está tudo bem. Você pode compreender e, ao mesmo tempo, sentir raiva porque determinada situação apertou algum ponto dolorido e difícil em você. E tudo bem isso! Faz parte de todos nós. O importante é saber como lidar com isso. Então, o primeiro passo: assumir para si mesmo que está sentindo raiva.
  • O segundo passo é compreender o que te trouxe essa raiva. O que apertou seu calo e que calo é esse. Que ponto dolorido seu foi tocado que gerou a raiva? Perceba o que te trouxe raiva e o que está por trás dela. Aproveite para se questionar: Tem alguma ferida antiga que foi tocada que ainda precisa curar? Assuma a sua responsabilidade por sua raiva.
  • O terceiro passo é fazer algo de positivo com ela. Que atitude positiva você pode tomar com relação a isso? Se posicionando de forma afirmativa, empática e não-violenta? Decidir mudar o que está sendo necessário? Resolver alguma situação mal resolvida? Usar essa energia de ação para realizar algo em sua vida? Colocar em movimento algum projeto?

Antes de se posicionar positivamente em relação a situação que lhe deu raiva, muitas vezes é preciso descarregar o impulso de raiva. A raiva é um sentimento que gera, no organismo, impulsos de socar, chutar, morder, gritar. Uma boa opção para canalizar a energia de ação da raiva, principalmente no momento auge em que nenhuma ação positiva consegue ser feita, é descarregar esses impulsos de forma saudável. Colocar o corpo em movimento. Correr, fazer exercício físico, socar um saco de boxe ou mesmo um colchão, gritar em um travesseiro, para que tal impulso possa se esvaziar e dar mais espaço para uma ação positiva.

Se a raiva está sendo inibida pela inércia, movimentar o corpo também ajuda a sair da estagnação, da falta de energia, da falta de vontade de levantar da cama. O movimento ajuda a canalizar de forma saudável o que está preso dentro de si, para então poder fazer algo efetivo em sua vida para transformar a situação que não está agradável.

Utilize a raiva a seu favor

Perceba de que maneira você tende a lidar com a raiva. Experimente olhar para ela de frente e ver o potencial de transformação positivo e maravilhoso que tem na energia de ação que vem com ela. Utilize-a a seu favor e a favor da vida! Você vai ver o quanto ela e seu potencial agressivo, de mãos dadas com você, podem te impulsionar e te ajudar a resolver problemas, ocupar seu lugar no mundo, ser justo consigo mesmo e com o outro, sem desrespeitar e violentar ninguém.

Para Reich, pai da psicoterapia corporal reichiana, o potencial agressivo de uma pessoa é essencial para a sua saúde emocional. É função da psicoterapia ajudar a pessoa a entrar em contato com suas próprias emoções, e dar-lhes um destino viável, sem necessidade de bloqueá-las.

No processo de psicoterapia corporal, abrimos espaço para o desbloqueio das repressões e emoções inibidas, para que, assim, se possa lidar com as situações da vida de maneira mais saudável e madura. Vamos, então, resgatando o potencial agressivo e o colocando na direção da saúde do corpo e da mente, ajudando na realização e potencialização de tudo o que for necessário para o seu bem estar, sem precisar passar por cima do bem estar de ninguém. Empatia, colaboração e empoderamento andam juntas e se fazem presentes quando aprendemos a lidar com nossos sentimentos.

Luisa Restelli

Luisa Restelli

Psicóloga e Psicoterapeuta Corporal, com formação em constelação familiar sistêmica. Realiza atendimentos individuais e de casal no RJ e ministra grupos terapêuticos, workshops e palestras pelo Brasil.