Alexey Dodsworth
Por Alexey DodsworthLeia em 3 min.29/01/2014 

O tabu que cerca a transexualidade

Pessoas que mudam de sexo podem sofrer preconceito

Era uma vez – conta um antigo mito grego – um sujeito chamado Teiresias (alguns de vocês o conhecerão por seu nome romano: Tirésias) que foi escolhido pelos soberanos do Olimpo, Zeus e Hera, para decidir quem sentia mais prazer numa relação sexual: o homem ou a mulher? Por sete anos, Teiresias foi mulher e depois foi novamente convertido à forma masculina. Sobre o mistério levantado pelos deuses, Teiresias respondeu: “De dez partes, o homem só desfruta uma. As mulheres, todavia, desfrutam inteiramente todas as dez”.

Hera, sabe-se lá porque (ela era uma deusa temperamental e nervosa), cegou Teiresias. Vai ver não gostou da resposta (outro mistério, já que a declaração de Teiresias parece indicar uma vantagem das mulheres). Zeus, compadecido, converteu-o num vidente, concedendo a ele o dom da profecia.

O mito de Teiresias evoca uma questão muito antiga da história da humanidade, que é encarada de forma muito diferente em cada cultura, mas que mexe muito com o imaginário popular de qualquer época. Falo, aqui, da transexualidade, seja de pessoas que se submeteram a uma cirurgia de readequação genital ou não.

Quem são os transexuais?

Em geral, diz-se “cirurgia de mudança de sexo”, mas o termo mais adequado é “cirurgia de transgenitalização”. O transexual, sob diversos sentidos, encarna o mito de Teiresias. Durante um tempo, essas pessoas “ocupam” o corpo com o qual nasceram, funcionam como um misto de masculino e feminino. Algumas se submetem a uma cirurgia e atualmente possuem o aspecto que gostariam, de uma mulher ou de um homem, de forma a combinar com sua identidade de gênero.

Você pode até achar tudo isso muito estranho, mas imagine que um dia acordou e descobriu que estava no corpo do sexo oposto. Com as pessoas transexuais a coisa funciona assim, só que de forma mais intensa: desde muito cedo elas percebem que o corpo delas não tem absolutamente nada a ver com a mente.

Você pode até achar tudo isso muito estranho, mas imagine que um dia acordou e descobriu que estava no corpo do sexo oposto. Com as pessoas transexuais a coisa funciona assim, só que de forma mais intensa: desde muito cedo elas percebem que o corpo delas não tem absolutamente nada a ver com a mente.

Elas têm um corpo biológico, mas sua identidade de gênero é outra.

Quando não há apoio familiar, o sofrimento pelo qual essas pessoas passam é imenso. Sofrem preconceito, são vítimas de erros de entendimento, de piadas, são alvo de bullying escolar e muitas inclusive tentam o suicídio… ou o cometem. Por que uma pessoa é transexual ninguém sabe ao certo. Há diversas teorias. Mas “saber o porquê” não é tão importante quanto o ponto fundamental: cuidar de si. Ser uma pessoa feliz, ser compreendida e respeitada pela sociedade que a cerca.

No que diz respeito à ciência, a maior parte dos países ocidentais reconhece a importância da cirurgia de transgenitalização, pois constitui sofrimento extremo manter um indivíduo aprisionado a um corpo que a mente não reconhece como seu. A coisa vai muito além de um mero “problema de autoestima”. Não é que a pessoa ache seu corpo feio. A questão não é simplesmente estética. Tanto que, em nosso país, o Sistema Único de Saúde (SUS) banca todo o procedimento de transgenitalização. Num sentido jurídico, as pessoas transexuais já podem realizar mudanças de nome, embora muitas vezes a justiça submeta a possibilidade desta alteração à realização da cirurgia transgenitalizante.

Aceitos na sociedade

Note que o preconceito que talvez você sinta diante deste tema nada mais é do que fruto de um contexto cultural específico. Você não nasceu com este preconceito, ele foi aprendido. Em diversas culturas orientais e africanas, o sujeito transexual chega a ser divinizado, pois uma pessoa assim teria “poderes mágicos”.

Em diversas culturas orientais e africanas, o sujeito transexual chega a ser divinizado, pois uma pessoa assim teria “poderes mágicos”.

O acesso aos deuses através da transexualidade é parte integrante de diversas culturas. Lembrem do mito de Teiresias: para aquele que conheceu os dois sexos, é concedido o dom da profecia. Há outros mitos, sempre enfatizando poderes especiais para as pessoas que experimentam os dois sexos. Mas o que se discute aqui não é se estes mitos são reais. Mitos são partes integrantes de uma cultura e mostram a forma como esta cultura encara o mundo.

O ponto focal aqui é ir além do próprio preconceito. É muito fácil, para quem não está dentro da situação, julgar o lugar do outro e dizer que transexuais são “perturbados”, ou coisa pior. Insisto no exercício da imaginação: imagine que você, homem ou mulher, acordou no sexo oposto. Você se sentiria feliz ou faria todo o possível para reverter ao que a sua mente sabe ser a sua verdade pessoal?

Contemporaneamente, a transexualidade parece incomodar mais do que a homossexualidade. Muitas pessoas parecem já ter entendido o que é preferência sexual, mas nem todo mundo ainda entendeu o que é identidade de gênero. Para estas pessoas, a transexualidade ainda parece algo assustador.

Muitas pessoas parecem já ter entendido o que é preferência sexual, mas nem todo mundo ainda entendeu o que é identidade de gênero. Para estas pessoas, a transexualidade ainda parece algo assustador.

Há dois filmes em especial que eu gostaria de recomendar e, assim, talvez você venha a entender um pouco do mundo das pessoas transexuais: um dos filmes se chama “Transamérica”, e o outro é um filme francês um pouco difícil de encontrar, chamado “A Minha Vida em Cor de Rosa” (“Ma Vie en Rose”).

Mas, antes de ver os filmes, sugiro a você um contato – emocionante – com histórias reais através do documentário realizado por Barbara Walters. Os links abaixo conduzem ao documentário “Meu Eu Secreto”, dividido em cinco partes e com legendas em português. Prepare-se para ver um dos documentários mais sensíveis e emocionantes sobre este tema tão “cabuloso”:

– “Meu Eu Secreto”: parte 1.

– “Meu Eu Secreto”: parte 2.

– “Meu Eu Secreto”: parte 3.

– “Meu Eu Secreto”: parte 4.

– “Meu Eu Secreto”: parte 5.

Alexey Dodsworth

Alexey Dodsworth

Astrólogo há 30 anos, é escritor, membro da MENSA e atualmente cursa doutorado em Filosofia e Ética em Veneza. Tem ampla experiência em ensino de Filosofia, já tendo sido consultor da UNESCO e assessor especial no Ministério da Educação.