Marianna Romão
Por Marianna RomãoLeia em 15 min.19/03/2014 

O que você ainda não sabe sobre maternidade

Contos de fada sugerem que mães devem ser perfeitas

Contos de fada sugerem que mães devem ser perfeitas

Desde muito jovens as mulheres são bombardeadas por perguntas e opiniões sobre quando serão mães ou como viverão a maternidade. E por isso estão acostumadas a ouvir certa “voz” sempre que tais exigências aparecem em suas vidas. Mas o que diz essa voz? Ao começar a refletir, lembrei-me das mulheres que namoram pessoas que têm filhos de outro relacionamento, acabam sem saber como agir com os enteados e se questionam: “Quero ser madrasta?”. Isso sem falar das mulheres que não querem ser mães e ouvem coisas do tipo: “Você não será nunca uma mulher completa assim”. Lembrei, ainda, das que sonham acima de tudo com a maternidade e questionam se darão conta da vida profissional. E outras que são criticadas por querer uma produção independente ou aquelas que se sentem culpadas por não serem mães perfeitas.

O objetivo dessa reflexão não é responder todas essas exigências, nem contradizer nenhuma delas em definitivo. Mas que bom seria se conseguíssemos flexibilizar um pouco tais “normas”, tirando o peso que é encarar a maternidade como um roteiro pré-fixado e pré-conceituado, inclusive financeiramente. Quer ver um exemplo? Na Islândia, as mulheres têm filhos desde muito novas e o país tem a maior taxa de natalidade, de mulheres que trabalham fora de casa e de divórcios da Europa. E elas seguem tendo filhos com outros parceiros. De acordo com o jornal El País e uma pesquisa sobre felicidade, publicada no jornal “The Guardian”, a Islândia é um dos países mais desenvolvidos do mundo e com a taxa de felicidade mais alta da Terra. Sabendo disso, as nossas normas sobre quando e como ser mãe não parecem mais assim tão certeiras. Por isso, se ao final do artigo esse sentimento de flexibilidade for alcançado e compartilhado entre mulheres e homens, será muito bem-vindo.

Lado negativo da maternidade costuma ser negado

De início, há uma nota mental a ser guardada: ser mãe não é um estado homogêneo, natural, nem imanente a todas as mulheres. Ninguém é obrigado a assumir o papel de pai ou mãe quando não sente vontade de fazê-lo, assim como não existe uma receita de boa mãe quando o quesito é gerar ou criar um filho. Já que não somos naturalmente destinadas para tal estado, o importante é estar consciente das suas capacidades e limitações e ser honesta consigo mesma antes de tomar qualquer atitude. Cientes da decisão de ser mãe como desejo e possibilidade, e não como fruto de pressões sociais, seguimos.

Maternidade não é só coisa boa, ainda que em um primeiro momento não pareça assim, já que o conceito está associado a algo até mesmo santificado.

Maternidade não é só coisa boa, ainda que em um primeiro momento não pareça assim, já que o conceito está associado a algo até mesmo santificado.

As relações superficiais que estabelecemos facilitam que o tema seja visto dessa maneira parcial, as pessoas lembram que a maternidade tem um lado positivo sim, mas seu lado negativo costuma ser negado. Assim, a obrigação vai além e torna-se quase moral: não apenas tem que ser mãe, mas tem que ser uma boa mãe – seguindo requisitos sobre-humanos e de certa forma arbitrários. Chegou-se a um ponto onde os pais têm dificuldade até em dizer uma simples palavra: não. O medo de ser visto como uma mãe ruim é grande e a culpa fica sempre presente.

Contos de fada e o ideal de perfeição materna

Mas os contos de fada, como sempre, já nos falavam disso: o perfil da madrasta, por exemplo, é frequentemente associado a comportamentos malvados. No entanto, é bom lembrar que a maternidade inclui a parcela madrasta, mesmo quando estamos lidando com nossos próprios filhos. O difícil é reconhecer esse sentimento em si mesma. A rejeição a um filho ou filha em determinado momento, características ou momento de sua própria vida gera confrontos com nossas dificuldades, mas também levam a um grande aprendizado. Reconhecer e integrar bem esse aspecto é expansivo para a personalidade, já que quando negamos a sua existência acabamos boicotando o crescimento do filho sem querer.

Existe ainda o fato de que a tríade “pai + mãe + filho” é para nós uma premissa de família saudável. No entanto, os arranjos familiares pouco importam, enquanto o amor e o cuidado estiverem presentes na educação e no crescimento dos filhos. Voltamos ainda com o exemplo da Islândia, lugar no qual o incentivo para “ficar juntos pelas crianças” não existe. Os islandeses entendem que as crianças ficarão lindamente bem, porque toda a família irá juntar-se em torno deles e seus aniversários serão lotados por muitos primos, tios, avós, pais e mães.

Sem levar ao pé da letra, vale lembrar que se não fosse a Madrasta da Branca de Neve, por exemplo, a princesa teria ficado infantil e imatura para sempre no castelo do pai.

Sem levar ao pé da letra, vale lembrar que se não fosse a Madrasta da Branca de Neve, por exemplo, a princesa teria ficado infantil e imatura para sempre no castelo do pai.

Assim, o que a priori poderia ser visto como negativo torna-se um motivo de crescimento e desenvolvimento para os filhos. Cumprir o “roteiro mãe” sem fazer essas reflexões, pode acabar prejudicando muito a atmosfera afetiva que rodeia uma mulher. Ao tomar consciência de todas essas questões, a pessoa que está levantando possibilidades de vir a ser mãe ou até sofrendo com o tema e as exigências, pode resolver essas pendências consigo mesma e tomar suas decisões de maneira mais completa.

Marianna Romão

Marianna Romão

Psicóloga clínica, Mestre em "Mulheres, Gênero e Cidadania". Trabalha com temas do feminino, depressão, estudo dos sonhos e mitos em seu consultório