Zoe de Camaris
Por Zoe de CamarisLeia em 2 min.10/06/2015 

O Diabo: invisível espelho da paixão

Reflita sobre arquétipo do arcano e aprenda truque para fugir da armadilha do desejo

Nas questões de amor, o aparecimento da carta do Diabo é indício de uma paixão avassaladora. Embora nossos olhos brilhem, promessa de novas sensações e estremecimentos, a armadilha está montada. Submissos a um sentimento incontrolável, perguntamos: “Quem nos amarra assim, com tanta força?” O poeta francês Charles Baudelaire diz que o artifício mais hábil do Diabo é fazer de conta que não existe. Sim, ele é o rei dos disfarces.

Vamos analisar a cena do arcano XV no Tarô de Marselha? No primeiro plano, duas pessoas, agora transformadas em diabretes, estão atadas por uma corda a um pedestal. Encoleirados como animais, não se dão conta que sofrem uma gradual transformação. No segundo plano, sobre o pedestal, a figura hermafrodita do Diabo segura com a mão esquerda uma tocha, e com a outra, parece acenar para nós, sorrindo ironicamente. O casal não pode vê-lo, já que o Diabo se posta atrás deles. Nós, que observamos a carta, podemos ver claramente.

No entanto, a ideia da paixão é tão intensa que, mesmo olhando o cenário que a carta de Tarot nos apresenta, a imagem do cativeiro pode passar despercebida e ser substituída por uma exclamação de alegria: “Oba, isso significa que vou me apaixonar?”

Incrível, não? Este é o poder da paixão. A paixão cega. Todos nossos sentidos são tomados por um impulso incrível, elétrico, viciante. É como nascer de novo, um entusiasmo que ultrapassa os limites da razão. Nossas emoções difusas encontram um centro magnético que se traduz em disposição, vigor, alegria. “Como isso pode ser um mal se me faz tão bem?”

Envolver-se ou não: é possível conter a paixão?

Depois de alguma experiência de vida, você pode até sentir um rastro de enxofre no ar, mas, em segundos, aquele cheiro estranho se transforma no perfume mais envolvente de toda a sua existência. É natural não querer se soltar, mesmo careca de saber que depois da bonança vem a tempestade, que os primeiros momentos de prazer são tão fortes em intensidade quanto o sofrimento decorrente.

É natural não querer se soltar, mesmo careca de saber que depois da bonança vem a tempestade, que os primeiros momentos de prazer são tão fortes em intensidade quanto o sofrimento decorrente.

Isso quer dizer que todo enamoramento é uma ação diabólica? Não. E existem formas de driblar o Diabo? Sim. O lance é descobrir o enredo. Então vamos lá:

– Desmontando a armadilha

As interpretações dos textos bíblicos e não-bíblicos relacionadas ao Diabo são complexas e não é da nossa alçada discuti-las aqui. Partimos então da imagem cristianizada do Tarot, mas levando em conta também o seu suporte mitológico e literário, ou seja, seu valor arquetípico.

Lúcifer, o anjo portador da luz, era o braço direito de Deus. Seu dom era a música e ele vestia-se das mais belas gemas. Em torno do querubim se alastrava um jardim de topázios, safiras, diamantes, ouro e esmeraldas. Como o Narciso da lenda grega, viu-se refletido nas pedras preciosas e encantou-se com sua imagem. Era puro brilho e fascínio, beleza e sedução. Tomado de orgulho e vaidade, desafiou o poderio do Amor. E foi lançado dos céus com uma legião de anjos aos abismos subterrâneos, um lugar escuro e vedado aos nossos olhos. O mais brilhante dos anjos escondido nas profundezas, no reino das sombras. E Lúcifer, agora chamado de Satanás, acirrou o ressentimento que já havia sentido de forma violenta contra aquele que era o seu melhor amigo.

Se pararmos para pensar um pouco sobre os traumas do Diabo, não é difícil chegar à conclusão de que ele é um ressentido e busca por reconhecimento. Não aprecia nem um pouco a ideia de que o Mal não existe; de que ele não passa da ausência do Bem. E vivendo sem luz, a luz que era o seu mundo e seu traço principal, resolve vingar-se de Deus e de sua criação.

A arma mais poderosa do Diabo é o espelho, o mesmo espelho em que ele se mirou um dia. respeite-o. Considere seu poder de fogo. Ninguém coloca a mão na fogueira sabendo que vai se queimar. Ou seja, olhe para ele e em seguida se afaste, lentamente.

respeite-o. Considere seu poder de fogo. Ninguém coloca a mão na fogueira sabendo que vai se queimar. Ou seja, olhe para ele e em seguida se afaste, lentamente.

Imagine que tem um olho tatuado na nuca e mantenha essa imagem na sua tela mental. Reconhecimento e consideração são o que ele quer.

Essa é a forma de devolver para o Diabo o seu espelho. E agora, já distante, centre-se. Respire fundo. Perceba que o que ele estava lhe mostrando era uma imagem sua. Você se apaixonou pela sua própria força, intensidade, pelo fascínio que você emana. Todas essas qualidades são suas e se voltaram contra você com força duplicada. Por isso essa eletricidade toda. Agora é sua vez de dar-se conta do seu próprio poder, com todo o respeito e consideração, e responder a pergunta que não quer calar: “O que eu verdadeiramente desejo?” Nesse momento, uma transformação irá ocorrer. Quando nos damos conta de nossa individualidade e singularidade, a máxima alquímica “Só o que está separado pode ser verdadeiramente unido” entrará em ação. E você poderá olhar para o outro e abrir-se para a visão pura e real do amor – sem reflexos, ciente das suas projeções. Amar é muito melhor do que só apaixonar-se.

Agora, se nada deu certo e você caiu na armadilha, paciência. Aproveite o mel e o fel, pois esta também é uma oportunidade de autoconhecimento. O lado divertido do Diabo no Tarot é o Carnaval, mesmo que aconteça fora de época. Gargalhe, use suas máscaras e lembre-se: para se achar, muitas vezes é preciso se perder.

Zoe de Camaris

Zoe de Camaris

Taróloga. Pós-graduada em Linguística. Incluiu o Tarot nos seus estudos de especialização no intuito de revalidá-lo como um sistema de linguagem visual interdisciplinar. Autora do Tarot Direto Personare.