Taís Vinha
Por Taís VinhaLeia em 3 min.26/08/2016 

Depoimento: vaginas no espelho

O relato da mulher que participou de um curso de pompoarismo

O relato da mulher que participou de um curso de pompoarismo

As mulheres chegam tímidas ao salão de convenções do hotel onde será realizado o curso de pompoarismo. As idades são bem variadas, desde garotas bem novas até mulheres maduras na menopausa. A maioria não se conhece e mal sabe o que é pompoarismo. São recebidas de forma espontânea e acolhedora pela recepcionista, o que as ajuda a descontrair.

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O curso começa e uma ex-participante é convidada a dar seu depoimento. É uma jovem que conta emocionada ter sido criada cheia de preconceitos sobre tocar-se e sobre a sexualidade. Tudo era considerado errado. Casou-se cedo e os preconceitos foram para cama com ela e o marido. A relação foi azedando até que o casal se separou. Ela confessa estar hoje numa jornada para ressignificar-se como mulher, buscando relacionar-se de outra forma com o próprio corpo. Diz que não tem como saber se a relação teria fracassado se, naquela época, soubesse o que sabe hoje, mas com certeza as coisas teriam sido diferentes entre ela e o esposo.

A fisioterapeuta que comanda o curso agradece a contribuição da moça e prossegue perguntando às participantes o que é pompoarismo. Uma delas arrisca um palpite: é fazer truques com a vagina, tipo fumar e atirar bolinhas de pingue pongue. O público dá risada: nenhuma delas estava ali para aquilo. A instrutora explica que existem pompoaristas que fazem esse tipo de truque, principalmente em países asiáticos, mas que o objetivo do pompoarismo é o controle da musculatura da vagina, assim como controlamos a musculatura do braço quando queremos pegar um objeto, ou da face, quando franzimos a boca para dar um beijo. E segue com uma apresentação de slides que explicam a anatomia da vagina e o funcionamento do assoalho pélvico.

A manhã segue com informações bem técnicas. O grupo almoça junto e nessa hora as participantes interagem mais. Contam uma para as outras o motivo de estarem ali. São jovens que sentem dor ao transar. Mulheres que já pariram e sentem vazar urina ou fezes. Casadas há décadas que querem apimentar a relação. Mulheres sem lubrificação, mulheres que não gozam, mulheres que querem evitar cirurgia de períneo ou usar fralda no futuro. A grande variedade de motivos demonstra o quanto a pelve feminina impacta na qualidade de vida da mulher.

A segunda parte do curso é no chão. Sentadas em cangas, as mulheres são convidadas a olhar suas vaginas no espelho. Protegidas por saias longas, é tudo muito discreto e não há nenhuma exposição. Algumas reclamam. Acham as vaginas feias. Outras olham com curiosidade, dando risadinhas nervosas. Muitas olham para seus órgãos pela primeira vez.

Sentadas em cangas, as mulheres são convidadas a olhar suas vaginas no espelho. Protegidas por saias longas, é tudo muito discreto e não há nenhuma exposição. Algumas reclamam. Acham as vaginas feias. Outras olham com curiosidade, dando risadinhas nervosas. Muitas olham para seus órgãos pela primeira vez.

Aprendem a identificar o clitóris, a uretra, o canal vaginal, os lábios, as cicatrizes de episiotomia, o local das glândulas de Bartholin e o ânus. A professora explica que nenhuma vagina é igual à outra, todas diferem no tamanho, na forma, na cor e solicita às mulheres que meçam a distância do canal vaginal para o clitóris e para o ânus, pois esta distância tem impacto direto na qualidade do sexo e pode ser modificada através de exercícios.

A próxima parte é aprender a usar os instrumentos que ajudam a pompoar. Cada mulher recebe um kit e os equipamentos são apresentados um a um. A ideia é que elas aprendam a utilizá-los com segurança no curso e tirem todas as dúvidas antes de praticarem em casa.

O conhecimento liberta. Aos poucos, as mulheres vão se soltando, fazem perguntas, dão risadas e agem de forma mais natural. Ao conseguir pompoar com os instrumentos, algumas erguem a saia e exibem desinibidas seus feitos. Uma das meninas mais novas, que acreditava não ter força alguma na musculatura da vagina, é a primeira a conseguir realizar uma atividade. Eufórica e orgulhosa de si, pede uma foto, o que causa a risada das demais participantes. A foto é tirada e muitas outras pedem o mesmo. A sala é tomada por um burburinho alegre. A vergonha inicial dá espaço à confiança, à descontração e, principalmente, à cumplicidade. Mesmo sem se conhecerem, todas as mulheres ali se entendem, se apoiam e confiam uma nas outras.

Ao final do curso, viram irmãs. Abraçam-se emocionadas e seguem para suas casas motivadas a iniciar uma nova relação com uma parte do corpo que lhes foi negada durante toda a vida. Nasceram mulheres, mas a vida civilizada amputou suas vaginas.

Nasceram mulheres, mas a vida civilizada amputou suas vaginas.

Seus corpos eram como de bonecas sem genitálias. Agora sentiam que alguém as havia reposicionado no lugar, explicado o funcionamento, a importância, as recompensas, a necessidade de cuidar delas como se cuida dos demais órgãos do corpo. Saíram dali resgatadas, empoderadas e muito mais mulheres.

  1. O curso presencial de pompoarismo é dado pela fisioterapeuta ginecológica Roberta Struzani e a coach de relacionamento Li Rocha. Duas profissionais sérias, competentes e extremamente generosas. Apesar de não se afirmarem feministas, difícil encontrar mulheres militando com tanta coragem pelo empoderamento feminino. Roberta e Li, desculpe, mas vocês são feministas pra xoxota!

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Taís Vinha

Taís Vinha

É escritora, mãe de três meninos e aprendiz de pompoarista. É autora do blog Ombudsmãe, no qual escreve sobre o universo feminino, a maternidade e a relação escola e família. www.ombudsmae.com.br | Contatos pelo email: taisvinha@gmail.com.br