Marcia Fervienza
Por Marcia FervienzaLeia em 5 min.30/08/2018 

De astrólogo para astrólogo: o que considerar numa leitura astrológica

Pontos importantes para garantir interpretações assertivas

Como astróloga, eu também me consulto com astrólogos de tempos em tempos para obter orientações gerais a respeito das minhas revoluções solares e trânsitos. E, justamente por ser astróloga, eu sou bastante seletiva a respeito dos profissionais que escolho. Há alguns anos, encontrei uma astróloga canadense com quem me identifiquei muito. Fiz vários trabalhos com ela e gostei da sua abordagem à leitura de trânsitos. Tanto que pedi que ela preparasse um material de longo prazo pra mim, envolvendo os próximos cinco anos da minha vida.

Durante os três primeiros anos a sua precisão na leitura das previsões, incluindo datas e eventos, foi altíssima. Até que ela previu que algo aconteceria no final do terceiro ano que não aconteceu. Ela disse que eu passaria por uma mudança de estado devido ao trabalho do meu marido, e isso não aconteceu. Mas naquele mesmo período eu estive extremamente envolvida com uma mudança internacional de uma pessoa que trabalhava para mim, que foi tão estressante quanto ela disse que a suposta mudança  do meu marido seria. Por entender que a linguagem astrológica é simbólica e, como tal, trabalha mais com analogias do que com “literalismos”, reconheci sua previsão ocorrendo naquele evento análogo, e dei o assunto por encerrado. Mas, um ano depois, o trabalho do meu marido nos informou que precisaríamos mudar de estado em dois meses. Exatamente um ano depois. Não entendi. Como assim? Como pode a previsão ocorrer com doze meses de defasagem?

Voltei a ela e questionei. E ela me deu algumas explicações para isso, que não me convenceram. Nem ela sabia precisar ao certo porque as coisas tinham acontecido daquela forma. Como profissional, respeito a sua sinceridade em me oferecer possibilidades sem nenhuma falsa certeza. Eu mesma já tive inúmeras situações com clientes nas quais trânsitos ocorreram de maneira mais subjetiva (internamente) do que objetiva (concretamente), dependendo do nível de autoconsciência da pessoa. E, se não conhecemos o cliente, não temos como prever se o trânsito se manifestará no concreto ou no subjetivo. Mas nunca tive um caso, em todos os meus anos de prática, em que o trânsito ocorreu doze meses depois do momento previsto. Algumas pessoas me perguntaram: será que a Astrologia falhou?

Certamente, não! A Astrologia nunca falha. Dizer que a Astrologia falha seria o mesmo que dizer que a força da gravidade falhou. E, até hoje, isso não aconteceu. Mas os astrólogos, sim, podem falhar. E muitos têm horror a admitir isso, porque significaria que o trabalho não foi feito corretamente,

Que aspectos podem contribuir para uma leitura astrológica que não acontece?

Alguns dos astrólogos mais famosos que conheço erraram feio em previsões comigo. Por que? Porque, em nome de uma abordagem mais comercial, fizeram previsões extremamente específicas. Uma vez me disseram literalmente “no dia 5 de novembro você vai encontrar o amor da sua vida”. O trânsito era de Nodo Norte sobre Vênus. Desnecessário dizer que isso nunca aconteceu. Mas imagina se tivesse acontecido? Eu teria idolatrado essa profissional pelo mundo inteiro, e ela teria feito inúmeros atendimentos em decorrência do marketing boca-a-boca que eu teria feito para ela.

Existe um outro fator relevante neste caso: o poder da sugestão. Veja, se eu disser para uma pessoa que no dia 5 de novembro ela vai encontrar o amor da vida dela, e ela for uma pessoa sugestionável, no dia 4 ela já começa a se arrumar para sair no dia 5 e encontrar o seu grande amor. E ela realmente o encontrará, porque ela sentirá por qualquer pessoa que cruzar o seu caminho um sentimento inexplicável de amor. E se essa pessoa não corresponder, ela certamente não vai desistir até conseguir reverter o quadro. Em Psicologia, a isso chamamos de “profecia que se auto-cumpre”. Ou seja, fazem uma previsão para você e você sai da consulta imbuída de determinação para torná-la realidade. Mérito do Astrólogo? Não! Mérito seu.

Simbolismo não é literalismo

Um trânsito de Nodo Norte sobre Vênus é, antes de qualquer coisa, um símbolo, não um evento. E como símbolo, ele pode se manifestar de diferentes maneiras. O astrólogo escolher através de qual evento o símbolo vai se manifestar é arrogante e arriscado: se ela errar, o cliente não volta nunca mais (eu não voltei). No entanto, se der certo, ela ganhou o cliente para sempre. E eu entendo que muita gente procura exatamente isso, alguém que lhe diga não só que vai acontecer, mas o que ela tem que fazer. No entanto, não acho que essa estratégia para fazer um nome para si seja ética, porque coloca em jogo a credibilidade da Astrologia como um todo, para todos os astrólogos que a praticam. Não tenho dúvidas de que o trânsito se manifestou em minha vida, mas como ela me deu apenas uma opção para a sua manifestação, a minha percepção leiga foi de que não ocorreu.

O astrólogo escolher através de qual evento o símbolo vai se manifestar é arrogante e arriscado: se errar, o cliente não volta nunca mais.

Por isso, quando trabalho com clientes, faço previsões abrangentes, que falam mais da essência do trânsito do que de sua manifestação na matéria. Por exemplo, trânsitos de Urano falam de mudança na área da vida representada pela casa astrológica onde o trânsito está ocorrendo. Mas muitos astrólogos leem trânsitos de Urano pela casa 7 da maneira como estes se manifestam mais frequentemente: divórcio. Só que esta manifestação não é determinada pelo trânsito, e sim pela pessoa. Em outras palavras, embora divórcio seja uma de suas manifestações mais frequentes, não é a única. Urano em trânsito pela casa 7 pede, principalmente, mudanças na sua forma de se relacionar com o outro, mudanças radicais, que deem mais espaço a cada um de exercer sua própria individualidade. O momento é de renovar e reinventar a relação. O divórcio ocorre quando não há espaço para essa renovação. Se houver, a relação pode continuar, e de forma saudável.

Todo trânsito tem um significado evolucionário maior, não importa o difícil que pareça. E os seres humanos são criativos o suficiente para criar novos significados para situações difíceis. Portanto, é preciso se concentrar no significado essencial do trânsito, abrindo espaço para diferentes manifestações na matéria que se alinhem a proposta original do planeta, seja ela transformação, renovação, expansão, etc.

O trânsito não funcionou, ou não funcionou ainda?

Um outro ponto importante: é preciso sempre observar o trânsito no médio/longo prazo. Isto porque muitas vezes só podemos ver a mensagem do evento quando não estamos mais envolvidos na situação por ele criada. Voltando ao exemplo anterior da minha relocação: o trânsito sob o qual ela ocorreu no mapa da minha filha foi um trânsito de Júpiter, que significa ganhos e expansão. Mas ela está vivenciando a mudança de maneira difícil, como uma perda, não como um ganho. O que está acontecendo? Mudou o significado de Júpiter? Certamente, não! Mas talvez seja preciso olhar este momento dentro do contexto maior da sua vida, e para isso é preciso dar tempo ao tempo.

Talvez agora ela não consiga perceber nenhum benefício nesta mudança, mas em 4 ou 5 anos, quando olhar para trás, talvez ela tenha outra percepção do evento. Os trânsitos acontecem dentro de uma linha contínua de tempo, não isoladamente. Ele sinaliza eventos de forma direta quando está ativo, e aquilo que foi criado quando estava em atividade continua criando novos eventos, com significados análogos ou semelhantes. Se olharmos para os seus trânsitos novamente, neste momento não será possível explicar esta dissonância entre o significado do trânsito e sua percepção do mesmo. Mas talvez, em dois ou três anos, quando ela olhar para esse momento, ela conseguirá perceber os eventos deste momento de outra forma, observando os ganhos por ele trazidos.

Qual a necessidade deste trânsito acontecer?

Pensemos nos trânsitos como ferramentas usadas pelo Universo para indicar que é chegada a hora de expandir nossa consciência, de corrigir algo ou de curar algo. E pensemos que a natureza, sábia como é, sempre funciona com base na lei do menor esforço. Ou seja, antes da ocorrência de cada evento, surge a pergunta: quanto esforço é preciso para atingir tal resultado? Com base nestas ideias, lembremo-nos do que eu falei acima sobre autoconsciência e autoconhecimento. Quanto mais conectados estamos com nós mesmos, mais conectados estamos com o todo a nossa volta. E quanto mais conectados estamos com o todo, mais fácil é percebermos os sinais do Universo de que é hora de mudar, crescer, partir, renunciar ou resgatar. Daí que alguns trânsitos acontecem de forma mais material e avassaladora para algumas pessoas, enquanto para outras eles ocorrem de maneira mais subjetiva e interna.

Quanto mais conectados estamos com nós mesmos, mais conectados estamos com o todo a nossa volta. E quanto mais conectados estamos com o todo, mais fácil é percebermos os sinais do Universo de que é hora de mudar, crescer, partir, renunciar ou resgatar.

Por exemplo, trânsitos de Plutão pela casa 7 podem indicar morte – de pessoas queridas, do cônjuge e até do próprio nativo. Mas eu vivi um trânsito de Plutão pela 7 onde não morreu ninguém na minha vida. Pelo menos, não fisicamente. Eu perdi emocionalmente tudo e todos, inclusive o meu marido (nos separamos temporariamente). Aliás, perdi não: renunciei. Isso porque eu já entendia de Astrologia e, ao ver que o trânsito se aproximava, sabendo qual era a energia do momento, me antecipei e me alinhei ao princípio do planeta. Me perguntei: sobre o que eu baseio o meu sentido de poder pessoal? Com base nesta resposta, renunciei a tudo que pensava ser meu e que, no fundo, eram ilusões que impediam meu crescimento. Perdi muito, doeu muito, mas mudanças auto-iniciadas são sempre menos dolorosas do que as que nos são impostas. E a mensagem de Plutão foi entregue com a mesma eficiência.

A Astrologia é uma ferramenta construída dia a dia

A maioria dos astrólogos modernos treme ao pensar na possibilidade de praticar Astrologia sem usar os planetas Urano, Netuno e Plutão. Mas até idos de 1700 nem sabíamos da existência de Urano. A Astrologia Tradicional, aliás, é praticada até hoje considerando somente os planetas que podemos observar a olho nu (até Saturno), e não por isso é menos eficiente do que a Astrologia moderna. Por que? Porque embora eles não dispusessem destes arquétipos, eles possuíam ferramentas alternativas para compensar esta ausência, e porque as demandas da sociedade para quem aqueles mapas natais eram lidos eram diferentes (e menos complexas) do que a nossa sociedade atual.

Da mesma forma que hoje contamos com estes arquétipos para ajudar na construção de previsões, ainda não possuímos inúmeros recursos, que certamente surgirão no futuro, e que sem sombra de dúvidas contribuirão para uma leitura mais precisa. E, da mesma forma que faziam os astrólogos da antiguidade, fazemos o melhor possível para compensar sua ausência com outras ferramentas. Mas não tenho dúvida de que nem sempre somos bem-sucedidos. Será justo então dizer que a Astrologia falhou se algum evento não é previsto? Talvez seja uma questão de a ferramenta ainda não estar completa. E talvez ela jamais estará 100% terminada, porque da mesma forma que estamos sempre progredindo, a Astrologia também.

Um outro elemento importante a considerar é que a Astrologia dispõe de inúmeras ferramentas e cada astrólogo se especializa em somente algumas delas. Isso porque seria impossível ser fluente e dominar todas as ferramentas disponíveis: são muitas, vastas e complexas. Assim, quando ocorre um evento que não foi previsto pela Astrologia, seria o caso de nos perguntarmos se não foi uma questão de escolha de ferramentas. Talvez a partir de uma outra abordagem teria sido previsto. Mas prever tudo, absolutamente tudo, será sempre difícil devido à questão da escolha das ferramentas.

E a hora de nascimento, está certa?

Por fim, precisamos nos perguntar a respeito da hora do mapa. Se a hora estiver incorreta, muita coisa prevista não vai acontecer, e muitas previsões feitas serão incorretas. O problema é que muitas vezes o nativo não sabe que sua hora está errada: ele consultou com a mãe, com o pai e na certidão de nascimento, então ele tem certeza que é aquela. Mas, especialmente no caso de pessoas mais velhas, é muito comum que o registro de nascimento tenha sido feito muito depois do parto e, com isso, a lembrança de quando este ocorreu já não seja tão clara.

Lembro que minha avó me contava que muitas de suas irmãs tinham a data de aniversário que os pais lembravam, porque eles não sabiam com certeza quando elas tinham nascido. Outras, por exemplo, tinham sido registradas com a data de uma semana depois do seu nascimento e, por isso, tinham dois aniversários. Minha avó era de 1926, nascida em fazenda, longe de tudo. Naquela época, um registro preciso do momento de nascimento não era tão importante como nos dias de hoje. Se pensarmos que a cada 4 minutos a posição do ascendente muda em 1 grau, imagine horas ou dias de defasagem. Claro que só podemos pensar em uma hora errada quando vemos erros consistentes de previsões feitas por diferentes astrólogos. Do contrário, é mais provável que uma das possibilidades anteriores tenha ocorrido.

Marcia Fervienza

Marcia Fervienza

Astróloga há mais de 15 anos e psicóloga, atua como colaboradora em Astrologia para diversas revistas e possui trabalhos publicados em vários países. Oferece atendimentos astrológicos presenciais e virtuais.