Papel de vítima ou sobrevivente: como ressignificar sua história e assumir sua força
Saia do papel de vítima e reconheça sua potência de sobrevivente. Veja como ressignificar traumas antigos e mudar sua vida agora
Por Celia Lima
Você sente que a vida acontece para você ou contra você? Existe uma diferença emocional fundamental entre assumir o papel de vítima e se reconhecer como sobrevivente.
Muitas vezes, sem percebermos, ficamos presas a dores antigas, repetindo padrões que nos impedem de evoluir.
Embora muitas de nós tenhamos passado por situações difíceis que não escolhemos, a forma como narramos nossa história define nosso presente.
O vitimismo é um lugar de passividade e amargura, enquanto ser sobrevivente é um atestado de força. Entender essa dinâmica é o primeiro passo para a cura emocional e para retomar o controle da própria vida.
A formação da nossa percepção de mundo
Para entender se estamos presos ao papel de vítima, precisamos olhar para o início de tudo.
Quando ainda somos, de certa forma, “inconscientes” de nossa presença no mundo — ou seja, lá na nossa primeira infância, que vai do nascimento até por volta de 6 anos de idade —, nosso cérebro está pronto para receber impressões e informações que vão dizer à criança “que mundo é esse”.
Nessa fase, a criança absorve o mundo que a rodeia sem filtros: o que acontece é como é, como deve ser ou como tem que ser na sua percepção.
Os cuidados que lhes são prestados, o afeto que lhe é dado — ou não —, o ambiente gentil ou violento, as oportunidades de diversão, desenvolvimento físico e cognitivo: tudo a criança percebe. Se ela sofre, não sabe ao certo que sofre. Mas sente.
As crianças ficam angustiadas, tristes e confusas quando vivem em ambientes tóxicos ou disfuncionais. Quando são agredidas ou quando presenciam agressões físicas ou emocionais.
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Eventos traumáticos que desequilibram o desenvolvimento
Mas, apesar da primeira infância ser um balizador que de certa forma determina o futuro, é claro que enquanto a pessoa está em formação e dependente de cuidados de um núcleo responsável por seu desenvolvimento, os eventos de sua vida também podem ser — e muitas vezes são — traumáticos e determinantes de seu comportamento adulto.
Para exemplificar, podemos ter alguns eventos que desequilibram um desenvolvimento relativamente saudável:
- Acusações injustas.
- Brigas constantes e violência doméstica;
- Desamparo afetivo;
- Condições materiais precárias;
- Abuso físico, emocional ou sexual;
- Imposição de responsabilidades precoces;
- Perda de pessoas próximas;
- Acusações injustas.
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Ambiente disfuncional promove inversão de papéis
Um exemplo comum é quando uma criança se vê na posição de assumir a proteção da mãe ou irmãos mais novos ao ter um pai, ou padrasto agressivo. Ou, ainda, assumir a posição de guardião de outros membros da família porque os adultos não dão conta de fazer esse papel.
Onde existe um adulto agressivo, constantemente outros adultos são omissos e assumem papel de vítima, sobrando para os filhos essa ingrata crença de que eles são os responsáveis por manter certo equilíbrio.
Até esse ponto, essas crianças e adolescentes são vítimas de todo um cenário que lhes foi dado, não foi por escolha.
A transição para a vida adulta e a escolha de Sartre
Mas… o tempo passa. E essas criaturas tornam-se adultos que certamente sobreviveram a toda espécie de dificuldades.
O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre pontuou uma grande reflexão em seus escritos:
“O homem não é o que fizeram dele, mas o que ele fez com o que fizeram dele.”
Embora a infância e a adolescência possam ter sido permeadas de muitas dificuldades e traumas, o que vamos fazer com isso?
- Responsabilizar eternamente o pai, a mãe, quem deveria ter cuidado e não cuidou, ou quem agrediu, por não conseguirmos evoluir?
- Culpar o passado por não termos um bom parceiro, um bom emprego, por não termos “sorte na vida”?
- A culpa sempre será daquelas pessoas do nosso passado?
E eu? O que eu posso fazer com o que fizeram de mim? Reclamar eternamente ou fazer escolhas próprias e conscientes por minha vida?
Saindo do papel de vítima para assumir a sobrevivência
Existe uma diferença grande entre ser vítima e ser sobrevivente.
Vítima é um lugar bem amargo de ocupar, porque depois de um certo amadurecimento somos os responsáveis por nossa trajetória.
É certo que o molde do que vivemos se instala e vai orientar nossa vida. Isso não desgruda da gente porque não se pode voltar no tempo nem mudar nossa história.
Mas… vamos querer ser coitadinhos para sempre?
Ser sobrevivente não é pejorativo.
Ter sobrevivido aos maus tratos, à ausência de cuidados afetivos, ter vivido numa família disfuncional, ao alcoolismo de algumas pessoas, assistido aos sofrimentos das pessoas… tudo isso faz da gente sobreviventes. O que também faz de nós mais fortes e preparados.
O perigo de ser vítima de si
Depois de um certo momento da vida, se nos consideramos vítimas, seremos vítimas de nós mesmos. Isso acontece por dois motivos principais:
- Porque desejamos ser vistos como um “pobre coitado” para justificar nossa vida indigesta diante de nós mesmos;
- Para conseguir favores ou piedade dos outros, usando esse comportamento como moeda de troca.
Mas ao percebermos e assumirmos que somos sobreviventes de tudo de nefasto que nos aconteceu, deixamos essa roupagem de vítimas para trás e passamos a nos respeitar.
Passamos a respeitar a pessoa que nos tornamos, capazes de entender que até por termos vivido aquelas dificuldades é que somos quem nos tornamos.
Reconhecendo sua força e mudando a narrativa
Muitas vezes é preciso ajuda, apoio psicológico e emocional para encontrarmos esse caminho de tomarmos as rédeas das nossas vidas. É preciso compreender que ser sobrevivente é um enorme reconhecimento de nossa força, de nossa potência!
Nós e todo mundo que passou por coisas difíceis, somos incríveis, a menos que ainda nos coloquemos no lugar de vítimas. Somos vítimas quando crianças; depois disso, não mais.
É preciso saber que podemos acolher todas aquelas partes de nós que foram mal cuidadas para podermos estruturar o adulto que desejamos ser.
Então vale perguntar: o que estou fazendo com o que fizeram de mim? E daí em diante a vida muda!
Psicoterapeuta holística com abordagem junguiana há mais de 30 anos e estudiosa de Psicologia da Saúde e Hospitalar. Utiliza os florais, entre outras ferramentas, como método de apoio ao processo terapêutico, como vivências xamânicas, buscando um pilar metafísico para uma compreensão mais ampla da vida, da saúde física e emocional.
Saiba mais sobre mim- Contato: celiacalima@gmail.com
