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Quando o chão some: como lidar com a ansiedade nas grandes travessias da vida

Entenda por que a Ansiedade aparece nas grandes mudanças e como atravessar esses períodos com consciência

Atualizado em

A ansiedade nas grandes mudanças é uma experiência intensa que todo ser humano pode atravessar.

Quando aquilo que dávamos como certo simplesmente desaparece, o chão some de repente. Um relacionamento que termina, um emprego que acaba, uma mudança de cidade, a perda de alguém amado, o fim de uma fase que durou por anos. 

No lugar do que havia antes, resta apenas um espaço em suspenso. Não é mais o antigo, nem ainda o novo. É um lugar de travessia.

Nesse espaço entre o que foi e o que ainda não se sabe, a ansiedade pode aparecer. Neste artigo, exploramos como atravessar as grandes transições com mais consciência e cuidado.

Por que a ansiedade surge nas grandes mudanças?

A ansiedade que surge nos momentos de grande mudança é, antes de tudo, o sistema nervoso reconhecendo que algo muito significativo está acontecendo. O corpo tenta se proteger nesse campo do desconhecido.

O cérebro busca referências passadas para se proteger do futuro, aciona o modo sobrevivência no corpo e podemos entrar em um estado de alerta constante.

Com isso, o coração acelera, a respiração encurta e o pensamento passeia com velocidade entre passado e futuro a todo o tempo. Acorda-se com angústia e uma sensação de que algo, a qualquer momento, pode acontecer.

Podem emergir medos antigos: de abandono, de não ser suficiente, de não ser capaz, de se machucar. Identificar essas camadas é fundamental para não se perder nelas.

Esses registros nem sempre chegam como lembranças nítidas. Eles podem aparecer como sensações corporais ou como crenças negativas inconscientes que surgem como uma voz interna que diz:

  • “Você não vai conseguir”
  • “Algo ruim pode acontecer”
  • “Você vai ficar sozinho”
  • “Você não merece”

O medo do desconhecido vem da mente que precisa de referências passadas para se defender de riscos e ameaças.

Tudo aquilo que a mente imagina para poder criar cenários de sobrevivência e recursos pra se proteger, vem das informações que ela já tem. Aquilo que é realmente novo não está no alcance do que a mente pode prever.

Portanto, todo medo do que pode vir a acontecer é baseado apenas no que você já conhece, e não no novo em si.

Sinais da ansiedade em momentos de mudança

A primeira reação diante da ansiedade costuma ser querer que tudo isso vá embora. Queremos controle. Queremos saber o que vem depois.

Na perspectiva da psicoterapia corporal reichiana, abordagem da psicologia clínica na qual eu conduzo meus atendimentos, o corpo e a mente estão interligados e são indissociáveis.

Cada sensação corporal carrega uma informação sobre o que está acontecendo em um nível emocional mais profundo. Quando passamos por períodos emocionalmente intensos, o corpo também precisa processar o ocorrido. 

Os sintomas também são mensageiros. O corpo está dizendo que algo importante precisa de atenção.

Alguns sinais de ansiedade podem aparecer como:

  • Aperto no peito
  • Sensação de falta de ar
  • Coração acelerado
  • Suor nas mãos
  • Boca seca
  • Enjoo
  • Dificuldade para dormir
  • Tensão muscular
  • Pensamentos acelerados, entre outros.

O território do entre: quando falta chão

Nas grandes transições, vivemos o que podemos chamar de “entre“. Não somos mais o que éramos, mas ainda não somos o que seremos. É um território de neblina, onde as antigas referências não funcionam mais e as novas ainda não foram construídas.

Esse espaço é profundamente desconfortável para o ser humano. Somos sujeitos de vínculos e significados. Precisamos de narrativas que façam sentido. Quando a narrativa se rompe, o sistema de alarme interno dispara.

O problema é quando, para escapar desse desconforto, começamos a atropelar nosso tempo de processamento emocional, a tomar decisões precipitadas, a nos fechar emocionalmente, a adormecer o corpo com excessos, a bloquear o que sentimos ou a travar em um padrão de ruminação sem fim.

São tentativas de fugir do desconforto do processo, mas que acabam nos impedindo de atravessá-lo.

Como a psicoterapia pode ajudar nessa travessia

É aqui que o trabalho psicoterapêutico se torna especialmente precioso para criar as condições internas em que as emoções que surgem sejam compreendidas e integradas. 

Em meus atendimentos, esse é o momento que pede pausa para ir para dentro e acolher o que está presente.

Ao darmos espaço para sentir e acolher o que se passa internamente com consciência, enviamos a mensagem para o corpo de que estamos seguros e sabemos onde estamos.

Quando permitimos desbloquear o fluxo emocional e cuidar do que se sente, liberamos o mecanismo natural de autorregulação do corpo para que ele possa fazer o seu papel. Podemos, assim, regular o processo de ansiedade.

Não basta falar sobre a angústia; é preciso sentir o que está acionando-a, localizá-la no corpo, deixá-la se mover. Muitas vezes, o que nos trava no meio da travessia é justamente uma emoção que não foi autorizada a existir e virou bloqueio.

Quando o corpo encontra espaço para expressar o que está guardado e um ambiente seguro para sentir-se amparado, o fluxo interno pode se regular novamente em direção ao bem-estar e à clareza mental.

A chave para atravessar a ansiedade nas grandes mudanças

O escuro da transição é como uma gestação. É preciso respeitar o tempo do processo e os desconfortos que fazem parte da maturação de um novo nascimento.

A zona de travessia tem começo, meio e fim. Mesmo quando parece interminável, mesmo quando a neblina é tão densa que não se enxerga a próxima curva, ela passa. A única certeza da vida é que tudo é transitório.

O que determina a qualidade dessa passagem não é a ausência de ansiedade, mas a capacidade de permanecer presente com todas as emoções que se apresentam. Ser uma companhia acolhedora e amorosa para tudo o que te habita. Assim, poder cuidar daquilo que pede cuidado sem fuga.

Conclusão: a travessia tem fim e pode te levar para o novo

A ansiedade que acompanha as grandes mudanças é o sinal de que algo profundo e significativo está acontecendo e o seu corpo está acionando um alerta pra tentar te proteger do desconhecido.

Com isso, são fundamentais recursos que ajudem a ancorar o senso de segurança interna, além de compreender com clareza o processo de transição para atravessa-lo.

Trilhar esse território desconhecido com presença, apoio terapêutico e autoconhecimento é o que tende a transformar a ansiedade de fase de ruptura em um momento de maturação e abertura pra caminhar em direção a algo realmente novo.

Luisa Restelli

Luisa Restelli

Psicóloga e Psicoterapeuta Corporal Reichiana. Realiza atendimentos no RJ e online, grupos terapêuticos para mulheres e palestras.

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