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Depoimento: entreguei meu filho para adoção

Mulher conta experiência e revela como foi reencontro 34 anos depois

Ter um filho é um dos momentos mais importantes na vida da maioria das mulheres. Inclusive, é por meio da maternidade que muitas afirmam conhecer o amor incondicional e outras alegrias. Porém, o que acontece quando uma mãe é forçada a ficar longe de sua cria? A escritora e representante comercial Denise Kusminsky viveu na pele essa realidade quando, aos 18 anos, precisou colocar seu bebê para adoção.

Em 1974, época em que ficou grávida, o sexo era considerado tabu e muito pouco era discutido sobre o assunto. Segundo Denise, a única forma de saber mais sobre o assunto era através de comentários entre os jovens, já que a escola, a família e a sociedade não abordavam a discussão. Quando descobriu a gravidez, ela já havia se separado de seu namorado na época (e pai de seu filho) e imaginava que sua menstruação não vinha por conta da mágoa que sentia após o término da relação. Mesmo não querendo interromper a gravidez, Denise foi em clínicas de aborto a pedido de seu ex-namorado.

Mesmo não querendo interromper a gravidez, Denise foi em clínicas de aborto a pedido de seu ex-namorado.

“Naquela época, para mim, todo filho precisava de um lar, fruto da união de um pai e uma mãe. Queria poder dar essa condição para meu filho e achava que viver com outra família seria ideal para que ele crescesse de modo saudável. Hoje as famílias estão se compondo de forma diferente, mas o cenário, naquela época, era esse. Senti muita frustração por não ter um companheiro para amparar minha vontade de ser mãe, já que meu ex-namorado achava-se muito novo para assumir a paternidade. Estava sozinha para ter esta vida e sem preparo algum. Foi quando o médico de uma clínica em que fui, hoje padrinho do meu filho, me ofereceu a alternativa de colocá-lo para adoção. E foi pensando no meu bebê e no seu bem-estar que considerei isso como uma boa alternativa”, desabafa Denise.

O médico que fez o parto de Denise garantiu a ela que a família que receberia seu filho, que ela prefere chamar pelo pseudônimo de Sylvio, tinha condições financeiras e emocionais para cuidar da criança. Apesar de ter recebido todo o apoio de sua família para o momento da adoção, a decisão de entregá-lo foi mais difícil do que a escritora imaginava. “Constantemente eu pensava nesta dor, mas não sabia que ela poderia ser tão grande. Pensar que eu não poderia ver meu filho crescer tornou-se, com o passar dos anos, uma ferida que não cicatrizou e acredito que nunca cicatrizará” afirma a escritora.

Ela ainda conta que mesmo desamparada após o parto, a sensação de que estava fazendo a coisa certa permanecia. Com os pais adotivos, Denise mostrou-se grata. Recebia frequentemente notícias de seu filho através do médico que fizera a adoção, e a certeza de que ele estava sendo bem cuidado confortava o coração da mãe.

Após aproximadamente cinco anos, já casada com o seu atual marido, o coração de Denise falou mais alto e a vontade de reencontrar seu filho bateu forte. “Consultei inúmeros advogados, mas todos me diziam que eu não teria chance e nem direito de tê-lo de volta. Conversando com meu marido, psicólogos e pedagogos, todos desaconselhavam que eu o procurasse, já que imaginavam que seria melhor para ele que vivesse sua vida sem a mãe biológica. Mais uma vez renunciei em função da felicidade do meu filho, mas meu marido me confortava, dizendo que ele um dia iria me procurar”, conta a escritora.

Reencontro partiu do próprio filho

Ao longo dos anos, a única ponte entre Denise e seu filho eram as constantes notícias que o padrinho de Sylvio trazia. Foram necessários quase 30 anos até que a chance do encontro surgisse. O apoio do marido fortaleceu Denise, que também encontrou nas quatro filhas que teve neste casamento a coragem para seguir seu coração. A iniciativa partiu do próprio Sylvio, que recentemente havia descoberto ser adotado e decidiu procurar a mãe biológica através de uma ONG que ela participava.

Após o primeiro contato, feito por telefone, foram necessários apenas dois dias até que pudessem se encontrar pessoalmente, em uma pizzaria. “Foi emocionante. Eu esperava encontrar um bebê, e ele uma mãe como a que já tinha. Foi uma surpresa para nós, mas ao mesmo tempo, como somos parecidos fisicamente, foi fácil nos reconhecermos”, comemora Denise. Depois deste dia, a escritora tornou-se uma grande amiga de seu filho e até hoje faz o possível para encontrá-lo sempre que pode.

E deste encontro surgiu a vontade de relatar sua história para todas as mães que pudessem estar na mesma situação. O gosto pela escrita ajudou Denise a eternizar seus passos e deixar suas palavras no livro “Reencontro” (Ed. Agora), no qual narra sua história. Para ela, só através de uma obra seria possível mostrar o lado bom de tudo o que viveu, mesmo que sua história pareça unicamente triste em um primeiro momento. “É muito brutal essa separação, tanto para o filho como para a mãe, por melhor que seja a família que o adote. Na verdade, a mãe também se sente abandonada. O importante, na minha opinião, é que todos os lados saibam da verdade, para que a criança cresça confiando em seus pais e sentindo o apoio deles para poder procurar suas raízes quando quiser, sem que isso abale seu relacionamento com os pais adotivos”, finaliza Denise.

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