Alice Duarte
Por Alice DuarteLeia em 4 min.08/05/2018 Atualizado em 10/05/2018
Amamentação, colo e laços de vínculo materno

Amamentação, colo e laços de vínculo materno

A qualidade do contato inicial com a mãe pode definir como caminharemos na vida adulta

Nós humanos somos seres relacionais e mamíferos. Necessitamos de vínculo, contato e  pertencimento. Por essa razão, acredito que amamentar é um ato sublime. Em primeiro lugar porque fornece o alimento que mantém e desenvolve a vida no nível físico, com vitaminas, calorias, proteínas etc. Em segundo, porque sustenta o vínculo afetivo: transmite aconchego, proteção, calor e amparo ao bebê.

Seja no peito ou na mamadeira (para as mães que tiveram dificuldades para amamentar), o importante é que o bebê seja nutrido física e energeticamente junto ao corpo da mãe.

Muitos profissionais da saúde, dotados de boas intenções, ainda orientam as mães a amamentarem de três em três horas, durante 20 ou 30 minutos e intercalando os seios na mesma mamada. Alegam que dar o peito toda vez que o bebê pede vai deixá-lo “mal acostumado”, ou que vai usar o seio como chupeta.

Fico me perguntando de onde veio a tese das famosas três horas. Obrigar as mães a ficarem controlando o relógio em um período de tanto cansaço, estresse e adaptações às mudanças hormonais, emocionais e psicológicas do puerpério é impor uma racionalização que só atrapalha a tão necessária fusão emocional entre mãe e bebê nessa fase.

Não dá para fingir que não somos animais. Nesse quesito, somos como qualquer outro mamífero. A amamentação é uma oportunidade única de conexão com esse nosso lado primitivo, selvagem e intuitivo. E, acima de tudo, um ato de amor incondicional. E, como tal, precisa ser oferecido em livre demanda, sem regras rígidas, horários, esquemas e protocolos.

FRÁGEIS E DEPENDENTES

Dentre todos os mamiferos, nós humanos estamos entre os que mais necessitam do vínculo simbiótico com a mãe nos primeiros 24 meses de vida.  Dentre todas as espécies, também somos as que têm o maior cérebro proporcionalmente em relação ao tamanho do corpo. Para dar tempo de o sistema nervoso amadurecer, os bebês humanos deveriam, em tese, nascer com 12 meses. Isso não acontece porque a cabeça seria tão grande que simplesmente não passaria pela pelve da mãe no momento do parto. O preço de nascer “antes do tempo”, aos 9 meses, é que os bebês são extremamente dependentes de cuidado.

O preço de nascer “antes do tempo”, aos 9 meses, é que os bebês são extremamente dependentes de cuidado.

Segundo a teoria da extero-gestação, do pediatra americano Harvey Karp, nos três primeiros meses de vida o bebê humano é como um marsupial: precisa continuar sendo gestado fora do útero, o mais perto possível da corpo da mãe. Essa é justamente a fase mais difícil para os pais, pois o bebê demanda muito cuidado, dorme pouco e chora sem razão aparente.

Em culturas ancestrais e em várias tribos indígenas da atualidade, as mães costumam carregar seus bebês o tempo todo próximo ao corpo, em porta-bebês semelhante a um “sling”. Assim, o bebê quase não chora, pois a mãe está sempre atenta às necessidades de seu filho e ele tem livre acesso ao seio materno. Mas hoje o que mais se vê por aí é a indústria empurrando produtos e falsas necessidades de consumo: carrinhos, bebês-conforto, cadeiras de balanço, berços, babás eletrônicas… Tudo supostamente para facilitar a vida das mães, mas que acabam deixando os bebês separados, perdidos num mundo grande e vazio demais. É preciso ajudar nossos bebês a se adaptarem ao mundo externo, tentando reproduzir a vida que eles tinham antes do nascimento: corpo encolhidinho, apertado e colado no da mãe, sentindo o seu calor e sua voz, e sendo balançado a maior parte do tempo.

O LEITE E O GANHA-PÃO

Além desses fatores que se interpõem no vínculo mãe-bebê nos primeiros meses de vida, há outra grande ameaça: a pressão da sociedade em cima das mães para forçá-las a voltar precocemente ao mercado de trabalho. Uma licença maternidade de quatro meses, como praticado na maioria dos casos no Brasil, chega a ser uma violência psicológica tanto para mães como para bebês. É daí que vem a primeira grande separação emocional da díade, quando a mulher se vê obrigada a buscar uma babá, creche ou o colo de algum outro parente disposto para cuidar do seu filho enquanto ela cuida do ganha-pão.

Isso traz amplas repercussões para toda a vida da criança, segundo a visão sistêmica. Para o bebê humano, a mãe significa o sustento, a vida (lembra de onde vem nosso primeiro sustento como mamífero?). É com ela que a criança aprende a linguagem do amor, do servir. Tudo o que nos separa do amor incondicional à nossa mãe, aparecerá como obstáculo entre nós e os demais. Ou seja, se houver movimento afetivo interrompido em direção à mãe na infância, haverá também em relação ao sustento (dinheiro), ao trabalho e ao sucesso na vida adulta.

A questão é delicada. A verdade é que a esmagadora maioria das mães não têm o privilégio de poder parar de trabalhar fora para simplesmente maternar, quando assim desejam. Mas, enquanto a sociedade não caminha para ter políticas públicas que permitam ampliar a licença maternidade, as mães podem adotar pelo menos seis atitudes para fortalecer os laços de vínculo com seus filhos:

  • Amamente em livre demanda. Não espere seu bebê chorar, sempre ofereça aos primeiros sinais de fome (movimentos de abrir a boca e buscar o peito girando a cabeça, quando chupa os dedos as ou mãozinhas, e ao emitir sons de “maaaaa”). E lembre, livre demanda significa deixar de lado relógio e horários.
  • Enquanto amamentar (no peito ou mamadeira), mantenha seu filho pertinho do seu corpo. Se a temperatura estiver agradável, deixe ele só de fraldas, em contato pele a pele com você. Olhe nos seu olhos, converse ou cante para ele.
  • No tempo que puder estar interagindo com o seu filho, não importa se são 15 minutos ou 3 horas seguidas, que seja um tempo de qualidade. Ou seja, esteja 100% presente e disponível afetivamente para ele. Evite se perder em pensamentos de preocupação com o futuro e remoendo problemas do passado ou se distraindo com coisas ao redor, como TVtevê, ou celular. etc.
  • Dê banho de balde, reproduzindo um mini ofurô, onde seu bebê ficará apertadinho e protegido como na barriga da mãe. Ou então banhe-o no chuveiro segurando-o no seu colo. Para períodos e regiões frias, essa é a hora ideal para ter contato pele a pele com seu filho.
  • Invista num porta-bebês (sling, cadeirinha ou qualquer outro modelo que permita carregar seu bebê colado no seu corpo) e aprenda a usá-lo – em grandes cidades há workshops gratuitos que ensinam diferentes formas de usá-los, além de diversos vídeos educativos disponíveis no YouTube.
  • Quando precisar sair para trabalhar ou se ausentar, converse com seu filho e explique o que você vai fazer, quanto tempo vai ficar fora, por que precisa fazer isso e como está se sentindo. Ainda que o bebê não entenda a linguagem verbal, ele é mais do que dotado a compreender a linguagem emocional e não-verbal.
Alice Duarte

Alice Duarte

É certificada em Constelação Sistêmica Familiar e Organizacional, graduada em Jornalismo e pós-graduada em Comunicação Audiovisual. Vive em Santiago, no Chile, e trabalha com grupos terapêuticos, workshops e atendimentos individuais (presenciais e online.