Maria Cristina
Por Maria CristinaLeia em 3 min.02/03/2018 

Viva! A vida é uma festa: quando pertencer é mais importante que um sonho

Animação da Pixar aborda conceitos da Constelação Familiar no cinema

O garoto Miguel tem um sonho muito simples: ser músico. Contudo, ele nasce numa família na qual a música foi banida devido a uma ocorrência do passado. Seguir a música é uma ofensa e vai contra toda uma geração familiar. O garoto de apenas 12 anos deve escolher entre romper a tradição familiar e deixar um grande sonho de lado.

Este é o pano de fundo desta nova animação da Pixar, candidata ao Oscar 2018 como melhor longa de animação. “Viva – A vida é uma festa” (Ou Coco, no nome original em inglês), aborda com sensibilidade e bom humor grandes questões familiares. A animação ajuda a refletir como a exclusão de um membro da família pode repercutir em futuras gerações, gerando impasses quanto a pertencer ao grupo, sendo leal às tradições, ou construir seu próprio caminho, correndo o risco de ser banido do sistema familiar.

Seguir o sonho ou a tradição?

A tradição da família de Miguel é fazer sapatos. É assim com sua mãe, sua avó e foi assim com sua bisavó e tataravó – quem começou esta longa tradição. Contudo, este padrão tem sua origem a partir de uma grande perda, o que torna a tradição praticamente uma maldição. Assim como na animação, podemos nos deparar com impasses em algum momento de nossa existência dentro de nossas próprias famílias.

Questões como seguir a mesma profissão dos pais ou escolher algo diferente e assumir a empresa da família ou abrir o próprio negócio são comuns. Talvez, nossos familiares não sejam tão intensos como os de Miguel, a ponto de fazer de tudo para manter a tradição. Mas, inconscientemente, podemos sentir esta cobrança sobre nós.

A decisão de seguir ou não o sonho é um trabalho interno. Racionalmente, podemos estar bem resolvidos com a questão, mas o registro no inconsciente é de que a tradição deve ser seguida. Alguns processos de autossabotagem podem nos impedir de ir contra esse sistema familiar. Afinal, negando a tradição, se é excluído do grupo.

PERTENCIMENTO É EXPLICADO NA CONSTELAÇÃO FAMILIAR

O que é constelação familiar?

A Constelação Familiar, é um método terapêutico criada pelo filósofo alemão Berth Hellinger. Helinger descobriu em seu trabalho terapêutico, que existem leis, segundo as quais se desenvolvem identificações e implicações trágicas entre os membros de uma família, e as define como as ordens do amor. As leis são: Pertencimento, Equilibrio de troca e Ordem ou Hierarquia. Pode ser aplicada para harmonizar situações de separação, relacionamentos desgastados por conflitos entre familiares, ou mesmo doenças e dificuldades de crescimento individual. O método implica um encontro em grupo em que o terapeuta escolhe o número de pessoas que considera necessário para representar os membros da família de quem irá constelar um problema. A ideia é que os escolhidos e participantes dessa dinâmica representem os familiares e abordem de uma forma compartilhada os sentimentos e emoções daquela família. O processo também pode ser feito individualmente e as representações feitas por meio de bonecos.

Todos querem pertencer. Está é uma das leis do método de terapia Constelação Familiar. O pertencimento é a base da lealdade familiar. Ou seja, eu desejo pertencer ao meu sistema familiar e, de forma inconsciente ou não, serei leal aos padrões familiares custe o que custar, mesmo que custe caro. Muito sofrimento e sintomas podem ser gerados a partir destas lealdades invisíveis.

Como nosso protagonista Miguel, que é um grande talento musical e sofre por estar sozinho e ter que esconder-se da família. O menino, inclusive, arca com as consequências da maldição de sair dos padrões, mas sempre na tentativa de obter o apoio da família. Um erro comum é querer romper com a família para ter a autonomia tão desejada, pois é uma ação que pode ter efeitos opostos para as futuras gerações.

Excluir alguém prejudica toda a família

Miguel tinha um tataravô músico que foi banido do sistema. Independente do motivo que causou sua exclusão, este fato repercute nas gerações futuras até chegar ao protagonista. Ele é quem vai tentar, de alguma maneira, dar voz ao tataravô excluído.

Neste aspecto, o filme faz um paralelo ao que ocorre na vida real. As crianças muitas vezes são um porta-voz do sistema. Elas podem manifestar sintomas ou comportamentos diferentes como uma maneira de trazer à tona aqueles que foram excluídos no passado. Não só as crianças, como qualquer membro da família, pode estar vivenciando a dor de um excluído do passado sem saber o que está ocorrendo.

Não só as crianças, como qualquer membro da família, pode estar vivenciando a dor de um excluído do passado sem saber o que está ocorrendo.

O grande problema é que isso tudo é inconsciente. Dificilmente nós olhamos para o passado para encontrar a solução para algo que ocorre aqui e agora. Muitas vezes, este olhar de inclusão é suficiente para alterar todo um sistema disfuncional. O inconsciente familiar tem grande força e membros dessa família que foram excluídos podem ficar como fantasmas, tentando serem vistos. Afinal, eles também querem pertencer.

Pertencer e ser desleal ao sistema

O garoto Miguel não desiste facilmente de seu grande sonho. Seu maior desafio, entretanto, é encontrar algo, ou alguém, que o ligue à família, que o faça continuar pertencendo ao grupo, mesmo quebrando uma antiga tradição que é fazer sapatos.

Essa é uma boa dica para nos mantermos ligados ao grupo familiar: “constelar” nossos sentimentos e angústias. Ao fazer a terapia de constelações familiares podemos obter informações do inconsciente em busca de conexões com os familiares ou antepassados. Muitas vezes bastará um ato simbólico ou uma conversa com algum familiar que traga revelações do passado, junto a outras elaborações em processo terapêutico, para trazer um alívio e um retorno do sentimento de pertencimento.

Muitas vezes, quando investigamos gerações anteriores em nossa família, encontramos, aquele algo que nos faltava e que nos fazia ser tão diferente. E, mesmo que isto não ocorra, é possível pertencer mesmo sendo desleal há alguns padrões. Caso contrário, também privamos as futuras gerações de fazerem novas escolhas.

A lealdade aos pais, avôs e parentes é uma construção do inconsciente. Da mesma forma que incluir alguém de novo no sistema não significa concordar ou perdoar as suas atitudes. Ser desleal aos antigos padrões pode significar uma lealdade consigo mesmo e com as futuras gerações, desde que você não se exclua da família.

Assim, esta bela animação pode nos fazer refletir sobre os sonhos esquecidos ou deixados de lado. Muitas vezes, ficamos procurando as soluções no futuro, mas basta um olhar mais apurado para o passado para entendermos melhor o que nos impede de avançar. Parece que a magia do cinema está mais perto do que imaginamos.

Maria Cristina

Maria Cristina

É psicóloga e atende em consultório em BH e online, por Skype. Tem amor pela profissão e o desejo constante de auxiliar as pessoas a enfrentar suas crises e a buscar o autoconhecimento.