Carolina Arêas

Solidariedade na infância

Estender o olhar para o outro torna o mundo e o coração melhores

Solidariedade na infância

A professora universitária Márcia de Castro acredita que a solidariedade deva ser a base da convivência das pessoas. E pensando nisto, acaba de lançar o livro Solidariedade – uma grande palavra grande, destinado ao público infantil. “Discutir o assunto com crianças pode ser o começo da mudança”, diz ela, que tem esperança de ver valores como ética e solidariedade cada vez mais praticados pela sociedade.

O sentimento que a levou a escrever o livro é triste e nobre. Há cinco anos, seu filho mais novo, Luiz Fernando, na época com 29 anos, ao tentar salvar uma senhora de 89 anos de um assalto, perdeu a vida baleado. Márcia costuma dizer que ele morreu de solidariedade. A dor da mãe é grande mas o orgulho do gesto do filho é ainda maior. A vontade de espalhar o legado solidário de Luiz Fernando move a professora. “Ele sempre foi preocupado com as pessoas próximas e com a justiça”, conta.

Ao invés de se trancar em sua dor, Márcia encontrou força no último gesto do filho – ajudar ao outro – e fez disto seu lema de vida. Já promoveu campanhas de arrecadação de alimentos e agasalhos e foi a escolas e universidades debater sobre solidariedade. “Em pequenas ações podemos demonstrar preocupação com alguém próximo”, afirma. E agora, veio o livro. É dando voz a uma professora primária e sua turminha que ela convida as crianças a observarem melhor suas ações no dia-a-dia e aprender a ajudar aos outros.

Leia abaixo a entrevista de Márcia e entenda como ela canaliza a imensa saudade que sente estendendo o olhar e a mão ao próximo. Através do livro, dos debates e das campanhas de solidariedade, ela não só mantém viva a memória de Luiz Fernando mas também traz alívio ao próprio coração e se sente um ser humano melhor.

Personare: Por que você quis escrever para crianças?

Márcia de Castro: Ouvi de uma pessoa conhecida que, ao comentar a história do Luiz Fernando com sua filha, já adolescente, ela teria perguntado: “mas por que ele quis ser bonzinho? Isso me impressionou muito. O individualismo está muito grande hoje em dia. Todos pensam na importância de “ter” coisas, a qualquer preço e isso já é incentivado nas crianças. Construímos necessidades e delas nos tornamos dependentes. Discutir o assunto com crianças pode ser o começo da mudança. Temos que começar por algum lugar!

Trazendo este tema para o universo infantil, é possível pensar numa sociedade futura mais solidária?

MC: Se conseguirmos discutir um pouquinho com as crianças sobre este assunto, podem começar a agir de forma diferente e elas serão responsáveis pelas transformações da sociedade no futuro.

O quê do Luiz Fernando está no livro?

MC: O seu jeito de ser e de fazer as coisas. Ele sempre foi muito solidário: quando tinha 10 anos eu trabalhava numa escola para portadores de deficiência física e mental. Ele ia para lá, participar das aulas de artes, ajudando a professora. Participava das peças de teatro que fazíamos, lendo os textos ou sendo o apresentador. Quando entrou para a Universidade, seu primeiro trabalho foi um jogo de coordenação visual-motora, que doou para a instituição, onde funcionava a escola. Com 18 anos participou de um projeto da Cruz Vermelha e passou um mês ajudando em uma comunidade pobre do Espírito Santo. Assim era ele, não se conformava com injustiças e sempre reagia ao que considerava errado.

Como a solidariedade transforma a vida das pessoas?

MC: Se cada um se preocupar com quem está próximo, certamente já teremos um mundo melhor e menos violento. O problema é que muitas vezes é mais fácil ser solidário com quem está longe, porque não afeta nossa vida

Se colocar no lugar do outro às vezes dói…

É possível a superação de um acontecimento tão difícil?

MC: É possível, porque inevitável, viver com ele. Aprende-se a conviver com a presença constante da ausência, com a saudade. A vida segue seu rumo e a necessidade de sobreviver e de manter algum equilíbrio, inclusive para o bem do resto da família, nos faz encontrar forças.

Como transformar a dor em um gesto solidário?

MC: O Luiz Fernando morreu por ter sido solidário com uma senhora de 89 anos, que ele não conhecia. Sua preocupação, a caminho do hospital, era saber se ela estava bem. Daí, e do orgulho pelo seu gesto, veio a inspiração para a primeira campanha, para asilos de idosos.

Promover ações solidárias e escrever o livro fizeram e fazem o quanto por você?

MC: Fazem com que meu filho não seja apenas um número de uma estatística que não para de crescer. Quando há uma tragédia coletiva, todos, incluindo governos e autoridades, se manifestam, mas todo dia a violência mata diversas pessoas. Só que ai, como eu digo, é “no varejo” e como a fila anda rápido os casos caem logo no esquecimento. Essa é a minha forma de não deixar isso acontecer.

Cinco anos, várias campanhas, um livro e um neto depois, dá para dizer que o tempo cura e traz o sorriso de novo?

MC: O tempo é muito estranho, ele passa num ritmo próprio: parece que foi ontem, e a cada dia, que o Luiz Fernando saiu de casa todo arrumado – não era seu estilo, porque ele gostava mesmo de ficar na fábrica, mexendo com seus plásticos e resinas – dizendo que ia visitar clientes e, portanto, tinha que ficar bonito… Parece que faz um século que ele não volta para casa e que não me dá um abraço ou um beijo. Mas de qualquer forma o tempo passa e a gente vive. Acontecem coisas boas, que nos fazem felizes, como o nascimento do Theo, o neto querido, e outra coisas menos boas, mas certamente se aprende a valorizar o que é importante e a deixar de lado coisas menores.

Visão de crianças sobre a palavra solidariedade

“É quando você percebe que um amigo ou uma pessoa precisa da sua ajuda antes mesmo de eles te pedirem. Você percebe, vai e faz uma coisa bacana para ajudar.” Antônio Monteiro – 8 anos – Toronto – Canadá

“É ser bom para seus amigos e tentar ajudar se eles não sabem alguma coisa na escola. Ano passado eu li um livro para meu amigo Owen que ainda não havia aprendido a ler.” Tadija Vukas, 6 anos – Toronto, Canadá

“Pessoas solidárias pensam em outras antes delas e fazem com que outras ganhem mais com isso. E tudo que fazem é sem esperar nada em troca.” Kristin Louise Pettersen – 11 anos – Koge – Dinamarca

“Solidariedade para mim é quando eu ajudo um amigo na escola. Eu empresto borracha, lápis ou qualquer coisa que eles precisam.” Nahyra Cunha – 8 anos – Rio de Janeiro

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Carolina Arêas

Carolina Arêas

Iniciou sua formação como terapeuta floral através do Healing Herbs, da Inglaterra, estudando as essências de Bach. Também trabalha com Reiki nível II e massoterapia ayurvédica, e é co-criadora do projeto "Word Rocks". Saiba mais