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Precisamos falar sobre luto

Não há como falar da vida, sem falarmos sobre a morte, e o contrário também é verdade.

Precisamos falar sobre  luto

A vida é transformação constante, e há um tema delicado sobre o qual não desejamos falar, que é sobre a finitude da vida e o luto. É muito difícil para nós nos separarmos dos nossos afetos, isso nos causa imensa dor, e, muitas vezes nos sentimos roubados no jogo da vida.

Em nossa mente, dizemos que entendemos,  mas a morte parece sempre chegar de surpresa, e quando nos deparamos com a morte, simultâneamente tomamos consciência do significado da vida.

Muitas vezes nos sentimos culpados, imaginando que deveríamos ter feito algo diferente, usado algum recurso, adivinhado consequências e até queremos voltar no tempo. É neste ponto que a dor pode se transformar num torturante sofrimento.

Não há como falar da morte sem falar da vida, e o contrário também é verdade.

Sallie Nichols, em Jung e o Tarô – uma jornada arquetípica – , diz que o Arcano 13 “A Morte”, representada por um esqueleto com a ceifa, “intromete-se no meio das doze horas do dia e dos doze meses do ano, interrompendo o ritmo da nossa ronda cotidiana”. Diz ainda que “experimentamos a intromissão do esqueleto como uma traição”.

O arquétipo “A Morte” não é especificamente sobre a morte física, mas traz a mensagem de que os ciclos chegam ao fim, para que novos ciclos tenham seguimento, e devíamos estar espiritualmente preparados para deixar ir o que já cumpriu sua etapa na existência.

Quando entendemos que a vida é cíclica, fica mais fácil compreender algumas práticas comuns em muitos povos e sociedades, onde os falecidos são lembrados com festejos. Recomendo o lindíssimo filme “A Vida é uma Festa”, da Pixar, onde um menino viaja para a Terra dos Mortos para desvendar um segredo familiar e acaba descobrindo que o fim do corpo físico é irrelevante e que o importante é quando encontramos nossa verdadeira força.

O que há em comum entre esses povos e sociedades é a aproximação com a  natureza, onde o corpo é uma representação cosmogênica, ou seja, em permanente transformação. A morte, então, é um momento de integração, em que independentemente da idade e causa, o indivíduo realiza inteiramente a sua jornada.

O luto em outras culturas e costumes

Saber como outros grupos humanos se comportam em relação ao luto, em outras culturas e seus costumes, auxilia a quebrar o paradigma de que só há uma forma de vivenciar a dor.

Em muitas culturas, a morte é marcada com rituais de passagem, como beberagem, danças e cânticos dedicados, preces e oferendas. No vasto interior do nosso país, o costume descrito como “beber o morto”, refere-se ao momento em que familiares e amigos relembram anedotas e fatos que envolvem o falecido, assinalando o quanto de vida aquela pessoa expressou, reorganizando a sua representação no grupo, dando-lhe o devido lugar, atestando com gratidão a sua existência e testemunhando a finitude corpórea, paradoxalmente reconhecendo-lhe a vida.

O escritor moçambicano Mia Couto, diz que somos feitos de histórias assim como somos feitos de células e, das histórias de outros povos, conta que nas regiões por onde anda, morre-se de “quem”, e não “de que”, significando que o fator que provoca a morte é intrínseco a pessoa, pois não há essa dualidade que separa corpo, alma, espírito e matéria, não havendo a necessidade de buscar um culpado.

Em seu olhar poético reflete que morremos um pouco junto com nossos queridos, pois fazem parte de nós celular e historicamente e, justamente por isso, é melhor morrer de “quem” do que de “ninguém”.

Quando enfrentamos o luto, também sentimos a vida

Muitas vezes a sensação de ter deixado coisas por fazer ou dizer, mantêm o estado do sofrimento. Parece que ficamos devendo algo ou que a pessoa não viveu “tudo” o que deveria.

Meu pai prestou um grande serviço para nossa família, deixando anotado tudo que precisávamos fazer. Desde a lista com nome e telefone de amigos, até orientações jurídicas. Pode parecer mórbido, mas bem cedo pude vivenciar os resultados desta praticidade em lidar com a morte, já que, na verdade, é sobre o seguimento da vida.

Essas providências permitiram que vivenciássemos a dor da perda do marido e do pai, de uma forma saudável, passando por todas as fases do luto, de incompreensão, de revolta, do medo, e do recolhimento necessário até podermos receber de volta a vida, em que também estão a alegria e tudo que nos faz continuar honrando o que foi feito e vivido pelo nosso familiar.

Quem morre deixa como legado a vida, que deve seguir. E eu repito a prática aprendida com meu pai, facilitando o caminho para meus filhos.

Com o luto, há um vazio sem substituição

Quanto mais urbanas as sociedades, mais distantes da naturalização da vida, e isso implica no modo como lidamos com a morte e o morrer, lançando-nos de encontro a dureza da nossa percepção crítica sobre morte, que torna esse momento muito mais doloroso.

Quando nos deparamos com algo que não pode ser medido, como a dor da perda, ficamos confusos em relação a como devemos expressar o que sentimos. Será que o mundo vai aceitar o “meu jeito” de enlutar?

A subjetividade humana é uma imensidão, algumas pessoas se recolhem em seus recônditos internos, outras querem falar e recontar da sua dor, outras precisarão gritar, tantas e tantas formas para expressar o que sentem.

A questão aqui é compreender que não há uma substituição a ser feita, mas sim a aceitação desse vazio que passa a fazer parte da história daquela família. Cada um encontrará sua própria expressão, respeitando o seu tempo, mas é preciso ter atenção se o estado de luto se torna estagnado, impedindo o seguimento da vida.

As fases do luto

A psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, em seu livro Sobre a Morte e o Morrer, descreveu cinco fases psíquicas do luto ou perspectiva da morte.

  1. Negação – sentimento de perda de sentido, até um certo anestesiamento da realidade, que auxilia no enfrentamento do trauma.
  2. Raiva – manifestação da dor, que pode ser direcionada para algo ou alguém, e não deve ser sublimada. Expressar a raiva coloca em movimento a incompreensão.
  3. Negociação – fase de reflexões sobre o que foi, busca de alívio, tendência a estagnar o luto.
  4. Depressão – aprofundamento da dor e/ou culpa, muitas vezes é a fase mais demorada, e é normal, apesar de doloroso. É importante buscar ajuda.
  5. Aceitação – permissão para o seguimento da vida, entendimento do que não pode ser mudado.

Por mais preparados que estejamos, só saberemos como serão nossas reações quando o luto acontecer.

Enlutados levam feridas, na alma e no corpo, que precisam ser cuidadas, para que se possa, posteriormente, sentir a força que vem desta experiência. Esta força é o que possibilitará que a pessoa volte a sentir que a vida continua, perceber o seu entorno e retomar o fluxo, em seu tempo.

O luto estará como memória indelével, mas estará também toda a coletânea do que foi vivido, das boas histórias e até dos conflitos, que agora não parecerão importantes. Nossa mente é equipada para deixar na nossa memória as melhores imagens, e isto acalentará o coração.

Restabelecendo espaços de pacificação

É difícil mensurar a dor para quem perde alguém amado. Parece não haver consolação possível e é preciso ter compaixão pelas pessoas, entendendo que todos têm o legítimo direito à sua dor.

É necessário restabelecer os espaços internos de pacificação, deixando acomodar dentro de si o paradoxo vida-morte.  Embora, não existam receitas, algumas orientações podem auxiliar:

  • Entenda que reações ao luto não seguem regras, cabe o silêncio, o choro, a fala.
  • Busque pessoas com quem você possa contar.
  • Saiba que o luto pode diferir para cada pessoa.
  • Fale sobre seus sentimentos sem medo, admita tudo.
  • Procure auxílio profissional, terapias corporais são muito eficazes.
  • Busque amparo espiritual.
  • Seja gentil com você, descubra o que te faz sentir-se bem.

Rituais, em geral, trazem a ideia de reorganizar para dar lugar à nova vida.

Das durezas impostas aos enlutados, neste momento social, está a impossibilidade dos abraços, da presença de amigos e parentes que são testemunhas e apoio durante os ritos  de passagem e que traziam o acolhimento para a dor do afastamento.

Não poder oferecer e receber este alento deixa uma lacuna, o luto coletivo para o qual também precisamos dar voz.

Talvez você possa fazer seu próprio ritual, dedicando uma flor, uma pequena fogueira, uma dança, ou outra ação que traga paz ao seu coração, que faça sentido para você, em primeiro lugar.

Se alguém morreu, é porque, antes, viveu e deixou suas pegadas. E, se deixa saudade, é porque muito há para ser honrado.

Com respeito, sigamos com delicadeza, transformando a dor em sabedoria, para que cada um que sofre, compreenda quão imensa é a sua existência e, coletivamente, encontremos força, paz e bons caminhos, lembrando que somos testemunhas de que tudo é sobre a vida.

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Celia Barboza

Celia Barboza

Terapeuta PaRama BodyTalk. Seu trabalho consiste em trazer o ser de volta para si mesmo a partir da observação de possibilidades mais saudáveis. Faz atendimentos em seu consultório no Rio de Janeiro e atende à distância pessoas do Brasil e do Exterior. Saiba mais