Celia Lima
  • Por Celia Lima
  • Leia em 3 min.
  • 09/11/2010
  • Atualizado em 22/07/2019 às 20:48

Generosidade ou egoísmo?

Ao fazer sempre o que o outro quer, quem cede se perde de si mesmo

Generosidade ou egoísmo?

Somos condicionados desde crianças a ser simpáticos, prestativos, amáveis e a atender às solicitações prontamente. Muitas pessoas passam uma vida inteira procurando uma forma de agradar primeiro seus pais, depois professores e amigos e, por fim, seus parceiros. Independentemente do amor que possa existir entre os pares, as relações muitas vezes se alicerçam na constante busca de aprovação e aceitação por parte dos envolvidos. No início dos relacionamentos tudo parece ser possível, principalmente transformar o parceiro naquela pessoa gentil, afetiva e atenciosa. Mas quando o encantamento dos primeiros tempos se esvai, cada um mostra a si mesmo e ao outro sua verdadeira e inconsciente intenção.

De forma incompreensível as brigas passam a ser a tônica da relação e os motivos brotam do nada: Por que aquele homem (ou mulher) estava olhando para você?”, É assim que você quer? Depois não reclame!”. Assim, a vida passa a ser um calvário de cobranças, agressões e ameaças. Por mais que se faça, nunca um dos dois ou ambos está satisfeito. As exigências são inatingíveis.

Quando um dos dois ousa fazer algo por si mesmo é acusado de ser egoísta. Por que sempre tem que ter alguém insatisfeito? Por que sempre um dos dois tem que se submeter aos caprichos e vontades do outro na obtenção de harmonia? Por que as pessoas colocam na mão de seus pares a responsabilidade por sua felicidade?

Ao fazer sempre o que o outro quer, quem cede se perde cada vez mais de si mesmo. Já não sabe onde está sua vontade, suas preferências, e passa o tempo todo tentando evitar brigas ao invés de viver a vida. Torna-se apático, triste, ansioso, tenta agradar o tempo todo para evitar desentendimentos. E se frustra.

Por que é que quando temos que escolher quem vai ficar chateado, escolhemos sempre a gente mesmo e nunca o outro? Por que o outro sempre tem que ser atendido? Parte dessas respostas está no condicionamento da infância: “se você não fizer o que estou pedindo, o papai (ou mamãe) vai ficar triste”, “Você me desobedeceu então não gosto mais de você”. São tantas as frases que ouvimos que nos levam a acreditar que para sermos amados, admirados, aceitos e não corrermos o risco do abandono, que acabamos levando para a vida adulta a crença de que é preciso ser generoso com o outro para não sermos punidos de alguma forma.

É preciso entender que você está aparelhado para suprir suas antigas necessidades de afeto e atenção. Como esse comportamento foi forjado desde a infância, existe uma criança faminta que acredita que só poderá obter esse alimento afetivo a partir do outro, quando na verdade é você mesmo ? e só você – , que poderá nutri-la. Se ficar atento, perceberá que a sensação emocional que tem quando alguém grita com você, por exemplo, é idêntica à que tinha quando o pai ou a mãe gritavam. Por aí você pode perceber que é “sua criança” que tem medo, e não você. Fazer o exercício de deixá-la sentir-se segura do afeto que você tem por ela é um bom começo para que você mesmo sinta-se seguro de que é um gerador de atenção a você.

Dizer sim a você mesmo não é ser egoísta com o outro, é ser generoso consigo. Se você se satisfizer, obterá do outro o respeito que tanto procura, pois estará se respeitando.

Mas ser generoso com o outro desta forma, anulando sua vontade, você não estará sendo extremamente egoísta consigo mesmo? Antes de tudo é preciso entender que fazer a vontade do outro esperando obter um retorno que supra suas necessidades de carinho, consideração e reconhecimento, não é uma atitude generosa, é apenas uma tentativa de obter alimento afetivo. E é preciso compreender também a necessidade de colocar limites em si mesmo. Dizer um basta para suas atitudes repetitivas é uma boa forma de mudar o foco, de colocar o holofote em você, de fazer com que você se torne o personagem principal de sua vida.

Experimente:

  • Não ir a lugares que não lhe dão prazer
  • Vestir as roupas que você gosta
  • Dizer não sem medo de brigar
  • Liberar o parceiro para fazer o que ele quer sem a sua companhia
  • Ser honesto com seus desejos e sentimentos
  • Negociar ao invés de ceder sempre
  • Não criar expectativas nas atitudes do outro
  • Fazer acordos de comportamento antes de sair para um passeio ou uma viagem
  • Fazer a sua comida predileta
  • Não ceder a provocações. Um bom “truque” é sair de cena, indo ao banheiro, por exemplo. Isso dá tempo do outro também esfriar a cabeça.
  • Ficar ligado nos seus desconfortos físicos, que irão sinalizar quando você está indo contra suas verdades. A região do umbigo ou estômago são geralmente as que se desestabilizam primeiro.
  • Pedir um carinho, uma massagem – e entregar-se sinceramente a esse momento.
  • Falar calmamente sobre suas necessidades e seus sentimentos sem clima de acusação, buscando soluções.

Seja generoso com você mesmo e estará dando um passo importante na harmonia do relacionamento. Lembre-se sempre que o medo é o maior inimigo do amor. Não é fácil mudar certos comportamentos, mas acredite que é possível. E se estiver encontrando dificuldades, procure ajuda profissional. Invista em você e no seu bem-estar.

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Celia Lima

Celia Lima

Psicoterapeuta Holística, utiliza florais e técnicas da psicossíntese como apoio ao processo terapêutico. Presta atendimento também por meio de terapia breve com encontros semanais, propondo uma análise lúcida e realista de questões pontuais propostas pelo cliente objetivando resultados de curto/médio prazo. Saiba mais