Melissa Setubal

Alimentação Intuitiva: usando emoção e razão para comer bem

Nosso sexto sentido nos ajuda a nos reconectar com nosso estado natural de saúde e com a comida que consumimos

Alimentação Intuitiva: usando emoção e razão para comer bem

A gente come o que tem vontade, ou não come porque não pode ganhar peso. Continua repetindo esses comportamentos, provavelmente se sentindo cada vez pior. Passa mal, se olha no espelho, surgem mais espinhas ou estrias, as dores de cabeça ou o desânimo não deixam você continuar o dia normalmente. A Alimentação Intuitiva pode te ajudar a transformar esse mecanismo.

São inúmeras as maneiras que nos relacionamos com a comida e algumas nos fazem nos sentir muito mal conosco mesmas.

Fora as questões sociais, culturais e políticas envolvidas nesse descompasso, os sintomas físicos desde os simples que se resolvem com um comprimido até os graves que fazem parte de uma doença crônica sistêmica (como diabetes, autoimune, câncer, entre outros).

Nós sabemos exatamente de que maneira a culpa e o mal-estar surgem e imediatamente pensamos na comida como causa deles.

Alimentação Intuitiva e o olhar atento às escolhas alimentares 

A terceirização da preparação da comida para as indústrias em nome da praticidade, as dietas restritivas e rígidas e o excesso de informações nutricionais muitas vezes confusas, e até mesmo contraditórias, levaram a gente para um comportamento alimentar muito desconectado com nossa saúde, a produção de ingredientes e da comida que consumimos.

Milênios acumulados de experimentos, costumes e sabedoria foram ignorados solenemente em nome do avanço tecnológico desassociado de valores básicos da coabitação no planeta Terra e do bem-estar de corpo e mente do ser humano.

Não existe comer melhor, seja para recuperar a saúde ou para nos sentirmos bem, se nós não refletirmos sobre todos os aspectos que envolvem nossas escolhas alimentares.

E o que tudo isso tem a ver com sexto sentido? TUDO! 

É exatamente essa falta de conexão, de intimidade com nosso corpo e a separação que fazemos dele da natureza como um todo que leva a gente a aceitar como normal uma forma de comer contra-intuitiva.

Como seres humanos, fomos adquirindo conhecimento ao longo de muito tempo sobre o que a natureza já fornecia, e como poderíamos usar nossa capacidade de observação do funcionamento dela e das nossas necessidades como indivíduos e como comunidade.

E esse conhecimento tácito se formou a partir do que foi ficando óbvio pela percepção repetida, bem como de gente e de civilizações que se aventuraram a ir além de seus territórios e do que era perceptível pelos cinco sentidos para encontrar maneiras de consumir de forma segura ingredientes que envenenavam e até matavam as pessoas.

O resgate da sabedoria de nossos ancestrais na Alimentação Intuitiva

Como diz Michael Pollan, autor de vários livros sobre alimentação e um expoente mundial no assunto, prefira comer as comidas que nossos bisavós identificavam como alimento. E se vier em um pacote e conter mais de cinco ingredientes descritos, desconfie.

Antigamente as pessoas sabiam o quê/quando/como/com quem comer. Aprendiam com os mais experientes e com os testes que a curiosidade levava a fazer.

Hoje a alimentação de grande parte da sociedade é guiada por indústrias interesseiras e uma ciência que, em grande parte, visa lucro (que fique claro que existem sim ciência séria e marcas responsáveis que tem como valor principal a regeneração do meio ambiente e o consumo consciente).

A alimentação intuitiva passa, justamente, por resgatar essa sabedoria acumulada por gerações, trazer ela para o contexto contemporâneo.

Ela nos convidar a realizar as transformações necessárias para que a comida volte a fazer sentido para nosso corpo, na forma da expressão do estado natural de saúde, e para o meio ambiente, em forma de modos de produção sinérgicos com o funcionamento pleno dos sistemas naturais.

Para entender a Alimentação Intuitiva precisamos saber o que é a intuição

Alimentação Intuitiva não é achismo, nem uma coisa mística, nem apenas para pessoas mais sensíveis. Intuição, na verdade, tem mais a ver com usar razão e emoção em conjunto para tomar decisões mais alinhadas com o que está acontecendo com seu corpo, sua mente, sua vida.

Segundo a pesquisadora Brené Brown, “intuição não é independente de qualquer processo de raciocínio. De fato, psicólogos acreditam que a intuição é um processo de associação instantâneo e inconsciente – como um quebra-cabeças mental.

O cérebro faz uma observação, escaneia seus arquivos e pareia a observação com memórias, conhecimento e experiências existentes. Uma vez que ele junta uma série de associações, nós temos um pressentimento sobre aquilo que nós observamos”, e daí podemos tomar uma decisão de como agir a respeito.

Tem gente que ignora essa “sensação” ou que nem percebe que a teve, e tem gente que não consegue a distinguir de uma criação da imaginação.

Assim como tem gente que usa bastante isso para cada aspecto da vida. No caso da forma como a gente come no dia a dia, é mais comum tomarmos uma de duas decisões:

  1. Decisão extremamente racional, como iniciar uma dieta restritiva, bem regrada, baseada em dados e fatos determinados pela ciência, por profissionais de saúde, pela mídia ou inspirada naquela amiga que emagreceu muito;
  2. Decisão extremamente emocional, como seguir o desejo por alguma comida simplesmente porque sentiu vontade e não parou para pensar se aquela comida era realmente gostosa, ou se poderia prejudicar o organismo. A vontade é tão forte ou tão inconsciente que se come, sem pensar.

A duas formas costumeiramente nos fazem mal. Se vamos pelo caminho racional, é comum as emoções “sabotarem” nossa força de vontade e disciplina. Se vamos pelo caminho emocional, é comum a racionalidade vir criticar a gente com requintes de crueldade.

Que aspectos emocionais envolvem nossas escolhas?

O culto à estética do corpo e ao consumo, que a cada geração nos dita o que é ser mais atraente, poderoso e aceito; e nos convencem o que é mais desejoso, saudável ou aceitável de comer, exacerbam nossos sentimentos de inadequação, de que não somos merecedores de atenção, afeto e acolhimento. O que obviamente influencia nossas escolhas do que/quando/como/com quem comer.

Sentimos vontade e vamos comer, comemos e sentimos todos esses elementos, que claramente são tóxicos para nosso corpo e mente. Nos sentimos mal, mas não conseguimos nos libertar dessa rodinha do hamster.

Tentamos encontrar uma fórmula de sucesso que vai resolver nossos problemas com a comida, com a forma física e com nossa saúde.

Mas depois somos frustradas pelos resultados não alcançados ou muito difíceis de se manter, quando inevitavelmente a vida vai mudando os contextos e o funcionamento do nosso organismo, e colocamos a culpa na gente mesma.

Vale esclarecer que existem dietas, ou melhor, métodos que nos ajudam a comer de uma determinada forma que buscam o resgate da saúde porque estamos sofrendo com uma doença que precisa de cuidados específicos, e que as pessoas podem se beneficiar demais disso.

Outro caso que vale destacar são as dietas por escolhas éticas, como é o caso do veganismo, frugivorismo, entre outras.

Porém, na grande maioria das vezes, elas não são sustentáveis no longo prazo porque podem trazer malefícios para a saúde física e mental.

Em casos como esse, depois que alcançar o resultado desejado, é importante entrar em um modo de manutenção que considere, com flexibilidade, os sinais do organismo e da mente como tão válidos quanto as recomendações de profissionais de saúde ou de instituições alinhadas com certos princípios.

Alimentação Consciente x Alimentação Intuitiva

Recentemente, o Mindful Eating, ou Alimentação Consciente, começou a ganhar mais visibilidade como uma técnica que nos ajuda a nos reconectar com nosso corpo e mente por meio da comida.

O que é sim um valioso instrumento para começarmos a enxergar a comida como aliada e os sinais e os sintomas como instrumentos valiosos de autocuidado.

No entanto, a Alimentação Intuitiva vai um passo além do Mindful Eating porque amplia nossa percepção dos cinco sentidos e da habilidade consciente de fazer escolhas que vão nos beneficiar.

Ela nos convida a usar o sexto sentido para decidir o que comer evocando a capacidade conjunta de todas as áreas do cérebro combinadas com a do coração e dos intestinos, que são nossos principais centros neurais responsáveis pelas nossas tomadas de decisão, tanto para a sobrevivência quanto pelo bem-estar.

O sentir tem tanta importância quanto o saber, o que as técnicas meditativas ajudam a acessar, como mostra a Alimentação Consciente.

Praticando a Alimentação Intuitiva: pode onde começar?

Agora que você já leu sobre os mecanismos emocionais e racionais que nos levam a comer, vou te ajudar a usar a intuição para fazer escolhas mais saudáveis. Você pode começar a praticar a alimentação intuitiva:

  • Escolhendo questionar a cultura da dieta restritiva, da medicamentalização de ingredientes ou da produção em massa de alimentos.

Como? Perceba como nos ensinam a comer de maneira inflexível ou a buscar metas insustentáveis. Como anunciam que vão trazer resultados imediatos e persistentes ou como usa estratégias para manter a gente dependente dessa conveniência.

Podemos usar nossa capacidade racional para avaliar as informações e os resultados que são coletados e analisados com critério. E usar nossos sentimentos para avaliar com profundidade as emoções que surgem a partir das práticas dessas dietas e dessas recomendações, como também do consumo desses produtos.

  • Preferindo cultivar a autocompaixão e o amor próprio, não importando nosso estado de saúde ou a forma do nosso corpo, no lugar de fazer escolhas alimentares a partir do medo, das regras rígidas, dos sentimentos de inadequação.

Acontece um processo muito bonito e leve quando a gente ama todos os pedaços do que constitui nosso ser, incluindo como nosso organismo funciona para nos manter vivos e para nos mostrar que ele gostaria de mais atenção e cuidados, como a sensação de fome e os sintomas incômodos, por exemplo.

Fique tranquila, não vai ficamos acomodadas, vamos sim minimizar o estado de estresse constante que nosso corpo fica por não se aceitar, o que já ajuda demais a diminuir o estado de inflamação generalizada decorrente disso, e contribui enormemente para resgatar o funcionamento dos sistemas do organismo e ter um peso mais compatível com nossa bioindividualidade.

Nossa mente ganha mais espaço e nosso corpo tem mais energia para se movimentar, e inclusive passar a estudar e praticar mais os cuidados de corpo e mente. Ganhamos maior confiança para fazer escolhas adequadas combinando esse conhecimento externo com nosso mundo interno.

  • Praticando a autonomia nos cuidados com a saúde, que é combinar o conhecimento científico, conhecimento das culturas tradicionais, pesquisas idôneas e profissionais que se baseiam em tudo isso com nossas próprias percepções pessoais ao colocar em prática.

Acrescente a curiosidade intuitiva, que surge a partir de uma voz sutil interna que vamos aprendendo a ouvir, que gentilmente nos convida a explorar alguma prática que parece não ter dados e fatos para comprovar antes de praticar, mas que parece fazer sentido emocional.

Quantas vezes sentimos que aquele profissional de saúde era a pessoa que iria nos ajudar, ou que não era alinhada com o que buscávamos?

Quantas vezes olhamos para uma comida e sentimos que vamos passar mal, mesmo sem conter nenhum ingrediente considerado ruim?

Quantas vezes a gente se arrepende de não ter ouvido nossa intuição, em casos como esse?

  • Considerando que os benefícios daquela forma de alimentar precisam expandir da nossa individualidade.

É nos darmos conta que nos alimentarmos em consonância com nossa bioindividualidade vai muito além de saúde e sobrevivência: é honrar os conhecimentos acumulados pelas gerações anteriores; é nos conectarmos com o momento presente, considerando tudo que afeta nossa escolha do que comer; e é tomarmos decisões que intencionam a sustentabilidade e uma cultura regenerativa que promovem maior qualidade de vida.

Alimentação Intuitiva conecta a natureza interna à externa

Não é pela cobrança, ou pela obsessão por informações, ou pelo medo, pois esses estados mentais indicam desconexão.

Temos a chance de reconexão a cada refeição, a cada compra de ingredientes e utensílios, a cada minuto preparando um prato ou lavando as louças, a cada reação de prazer ou de dor quando estamos comendo ou depois de comer.

Nós podemos amadurecer essa conexão por vários caminhos com escolhas possíveis para aquele momento, sem adicionar a pressão de estar seguindo um modelo à risca, mas nutrindo uma intimidade com sua natureza interna e com a natureza externa para confiar mais nas próximas escolhas alimentares.

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Melissa Setubal

Melissa Setubal

Profissional pioneira em Saúde Integrativa no Brasil, criou sistemas que apoiam mulheres que sofrem com sintomas do ciclo menstrual e com sua imagem no espelho. Atua como coach de saúde, com atendimentos individuais e em grupo. Saiba mais