Melissa Setubal

Alimentação e autocuidado: o que você costuma comer?

Conheça alguns caminhos para transformar sua relação com a comida e ganhar mais autonomia nos cuidados com a própria saúde

Alimentação e autocuidado: o que você costuma comer?

O que veio na sua mente quando você leu essas duas palavras do título do texto: alimentação e autocuidado?

Quais alimentos você tem o hábito de comer que indicam que está se cuidando? E quais sinalizam, seja por regras ou sintomas do seu corpo, que você não está se cuidando?

Preste atenção nas palavras que você costuma usar para descrever o que é se cuidar, assim como nos tipos de comida ou de ingredientes.

Conheça seus hábitos e comece a transformar sua alimentação e autocuidado

Todas essas percepções refletem hábitos, desejos e regras que vão se formando e se sedimentando em nossa mente a partir do que figuras de autoridade (desde da medicina quanto das nossas relações pessoais) nos impõe dizendo que é o correto ou não fazer, e dos recursos que estão disponíveis.

Olha só quanto da nossa forma de comer e de se cuidar, na verdade, não é exatamente uma escolha consciente. Ao invés de nos oferecer meios de ganharmos conhecimento sobre nosso próprio corpo, nos faz muito dependentes de decisões que instituições e pessoas tomam por nós sem nem nos conhecer direito.

Nós nos acostumamos a terceirizar os cuidados do nosso corpo sem nem questionar muito se aquela indicação realmente está sendo tomada em nosso benefício em todos os aspectos, não apenas para fazer perder peso ou acabar logo com um sintoma incômodo.

Falar de comida, de alimentação e autocuidado, de dieta, de nutrientes, do que é saudável tem sempre um espaço para a polêmica, para as contradições, para as receitas prontas, e, claro, para uma sensação sem fim de culpa e inadequação.

Acho que não há tema mais confuso quando falamos de saúde, ainda mais quando acrescentamos ao nosso repertório o misterioso e pouco explorado caminho da autonomia nos cuidados com a própria saúde com uma visão mais integrativa.

Escuta atenta: avalie o que falam sobre alimentação e autocuidado

Pense nas informações que nos dizem a respeito do que devemos ou não comer, além das questões comportamentais como “tudo depende de força de vontade e disciplina” ou “o segredo de perder peso é fechar a boca”.

Ao refletir sobre elas, começamos a entender porque falhamos miseravelmente em conseguir ficar em paz com o que comemos, como comemos, com nosso peso, com nossa saúde, com nosso corpo, com nossa autoestima.

Pensar sobre alimentação como via de autocuidado genuíno é um jeito singelo de começar, ou até continuar, um processo de se desvencilhar de tudo isso, e cultivar uma relação consciente com a comida, com a nossa saúde física e mental, e assim passamos a viver mais em paz com a gente mesma.

Alimentação e autocuidado: o que aprendemos é verdade, útil e benéfico?

Já se questionou que aquilo que você conhece e é amplamente divulgado como verdade sobre comidas saudáveis, dietas de emagrecimento, tratamentos para doenças e condições crônicas de saúde física e mental pode não ser a única opção para você usar?

E, inclusive, pode ser que existam outras formas de você cuidar da sua alimentação e da sua saúde que sejam mais compatíveis, mais eficientes, com menos efeitos colaterais, e mais benéficas com seu organismo do que outras?

Grande parte do que sabemos sobre alimentação saudável vem das teorias (e lendas urbanas) das dietas restritivas, das receitas de comida saudável com o ingrediente milagroso do mês, da reeducação alimentar por meio de algum jeito mágico, ou, no final das contas, de tentar se encaixar em regras inflexíveis ou em conceitos abstratos e rasos demais.

Claro que a ciência pode ser muito útil, bem como os profissionais de saúde que estudam e nos orientam – tanto da linha convencional quanto holística, que podem e devem ser utilizados para tal. Porém, temos que lembrar de algumas coisas antes de colocar as recomendações e tratamentos em prática.

Para começar a ganhar mais autonomia no seu autocuidado em relação à alimentação e a interferência direta que ela tem na sua saúde, é importante considerar alguns aspectos:

  • Existem outros pontos de vista sobre o dilema que você tem vivido com a sua alimentação, peso, saúde, autoimagem do corpo. Talvez o que aquele profissional ofereça não seja o mais adequado — seja porque você não concorda ou não se encaixa com o plano proposto, seja porque as orientações estão defasadas ou influenciadas por interesses comerciais, já que há uma indústria que lucra com as doenças e com sentimentos de inadequação.
  • Pesquise em fontes credíveis sobre as questões que você vive para ampliar sua forma de enxergar a sua alimentação e saúde e também formas de lidar com elas. Porém, sempre com espírito crítico.

Muito da ciência voltada para a nutrição e os tratamentos de saúde são estudos financiados por grandes corporações com poucos interesses em beneficiar a humanidade e muitos interesses econômicos.

Uma parte considerável das informações holísticas podem ser baseadas em pouco estudo ou em conceitos que não foram colocados em prática por tempo suficiente para se observar os efeitos nos mais diversos tipos de indivíduos.

  • Considere como prioridade o respeito à sua bioindividualidade, ou seja, todas as variáveis que fazem você ser quem é. Ninguém conhece mais como seu corpo e mente funcionam que você.

E mesmo que você não tenha tanta consciência, pode investir em desenvolver essa intimidade consigo mesma exatamente para perceber se as orientações de dieta ou tratamento que vêm seguindo estão surtindo efeito benéfico ou maléfico.

Nem o tratamento mais de ponta da ciência biomédica ou o mais natureba holístico são infalíveis, não têm efeitos colaterais indesejados ou não têm pelo menos um pedaço que seja uma série de tentativas e erros.

Então em quem confiar, nessa história toda? Na sabedoria do seu próprio corpo!

Como começar a ficar mais íntima de sua bioindividualidade?

  • Considere sua idade, momento de vida e o que tem exigido do seu corpo, situação atual de condições de saúde e de tratamentos que vem realizando no último ano e de maneira contínua (todos os medicamentos, procedimentos e intervenções).
  • Avalie sua forma de se alimentar (que tipos de comidas costuma comer, que horários, quais ingredientes usados e formas de preparo, como os alimentos são produzidos, por aí vai) e de se movimentar (desde o que você costuma fazer apenas para seguir o dia até a prática ou não de atividades físicas e sua regularidade).

  • Olhe para sua história: Qual sua ancestralidade? O que costumava comer quando bebê e quando criança? Quais acontecimentos marcaram e quais foram mais frequentes? Quais condições de saúde e tratamentos realizou (todos os medicamentos, procedimentos e intervenções).
  • Analise seu emocional, seu temperamento quando era criança, quais as condições de desenvolvimento e das relações de cada período de sua vida até hoje, incluindo os hábitos e práticas usuais do ambiente sócio-político-cultural (até mesmo religiosas) que esteve e está inserido. Perceba também suas reações a conteúdos das mídias, a acontecimentos atuais e, mais que tudo, aos aspectos mais relevantes de sua vida, como relacionamentos mais próximos, carreira/atividade principal, e conexão com a espiritualidade.

Comece observando esses aspectos e vá se aprofundando nesse estudo de si mesma como se fosse uma cientista médica, antropóloga e investigadora, ao mesmo tempo. Ao longo do tempo, você vai nutrindo sua confiança na sabedoria inerente do seu corpo e aprendendo a usar os alimentos como seus grandes aliados.

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Melissa Setubal

Melissa Setubal

Profissional pioneira em Saúde Integrativa no Brasil, criou sistemas que apoiam mulheres que sofrem com sintomas do ciclo menstrual e com sua imagem no espelho. Atua como coach de saúde, com atendimentos individuais e em grupo. Saiba mais