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Seus relacionamentos se baseiam no apego?

Insegurança do apego pode ser substituída por vontade de estar juntos

 

Em um artigo anterior conversamos sobre a necessidade de nos desapegarmos de hábitos e padrões que tornaram-se obsoletos em nossas vidas. Ao terminar de lê-lo, o apego pode ter lhe parecidor algo muito prejudicial. Por isso, lhe convido agora a olhar mais profundamente para a questão: o apego tem uma razão de ser, até mesmo biológica, o que o torna mais difícil.

Nosso corpo físico é gerado pelo pai e pela mãe, naquela história da sementinha que muitos já ouviram. Ficamos nove meses imersos dentro do útero da mamãe. Alguns mais apressados saem antes da longa estada. Quando digo imersos, é porque há líquido o bastante dentro do útero para que a sensação de peso do feto seja anulada, como quando boiamos no mar ou numa piscina. Há um momento em que o útero fica pequeno (ou será que crescemos muito?) e essa gostosa sensação de flutuação é substituída pela de aperto, e assim começa o trabalho de parto. Há um aumento de liberação de um hormônio chamado ocitocina no sangue da mãe, que vai dar início às contrações do útero. Até então havia um hormônio, chamado progesterona, que circulava em níveis altos no sangue dela, e permitia o fenômeno de manter as paredes do útero, que são feitas basicamente de músculos, relaxadas por tantos meses. Eis que nascemos, saindo de um mundo protegido, limitado, cheio de líquido e calor, para um mundo sem limites definidos, frio e cheio de ar.

Segurança e proteção

Quando éramos recém-nascidos tínhamos alguns reflexos que em poucos meses desapareceram: os reflexos de preensão palmar e plantar e o de Moro. Ao encostar qualquer objeto na palma da mão ou na planta do pé, os dedos imediatamente faziam o movimento de fechar, tentando segurar o objeto, o que constitui os reflexos de preensão palmar, se for na mão, ou plantar, se for no pé. O reflexo de Moro é aquele movimento que os recém-nascidos fazem como se estivessem tentando se abraçar a alguma coisa, e muitas pessoas acham que o neném tem medo de cair, ignorando que o reflexo é comum a todos os recém-nascidos. Esses são reflexos muito primitivos e são uma tentativa do neném desprotegido se segurar, se apegar a alguém que pode lhe garantir proteção.

De certa forma, repetimos esses reflexos durante a vida toda, de uma forma mais sutil, sempre que nos sentimos desprotegidos. Isso é importante, pois precisamos da ajuda dos outros em vários momentos de nossa vida, e apegar-se a alguém que pode caminhar conosco por estradas pedregosas ou nos carregar quando não temos mais forças é muitas vezes necessário e requer humildade para aceitar ajuda e gratidão pela ajuda recebida.

Por que então se fala tanto em desapego? Porque podemos nos sentir incapazes de caminhar com as próprias pernas por qualquer estrada, por acharmos que uma pedrinha no meio do caminho é suficiente para precisarmos de ajuda. Ou podemos nos sentir em dívida para com aquela pessoa que nos ajudou a atravessar uma jornada difícil e, agora que o caminho parece mais fácil, seria uma ingratidão dispensar sua companhia, mesmo que ela só represente para nós uma lembrança. É este apego a pessoas ou a situações (a uma história) que pode ser prejudicial, por ter como motivação algo que foge ao que é essencial num relacionamento, que é o amor e a amizade. A intenção do amor ou da amizade são vencidas pelo medo de termos que enfrentar alguma estrada pedregosa novamente e não termos mais a companhia daquela pessoa que nos ajudou a atravessá-la uma vez. O oposto também é verdadeiro, e podemos nos apegar a alguém ou a uma situação porque nossa ajuda pode ser necessária a qualquer momento e precisamos estar a postos para isso.

Quais são as motivações de seus relacionamentos?

Quando recém-nascidos éramos indefesos e desprotegidos, mas o objetivo de nosso desenvolvimento como seres humanos é nos tornarmos cada vez mais autônomos, sabendo que dependemos de outras pessoas e que outras pessoas também precisam da gente, numa teia em que precisamos dosar sempre o dar e o receber, o apego e o desapego. O apego é uma necessidade do corpo, enquanto o desapego é uma aspiração da alma."O apego é uma necessidade do corpo, enquanto o desapego é uma aspiração da alma."

Se você olha para seus relacionamentos com atenção e percebe que a motivação maior deles existirem não é o essencial (o amor e a amizade), mas a necessidade de proteção sua ou das outras pessoas, estes relacionamentos se baseiam no apego, que tornou-se automático e funciona como os reflexos do recém-nascido. A insegurança que leva ao apego precisa ser substituída pela vontade de estar juntos pelo amor, pela amizade, pela admiração, pela troca de experiências. Assim podemos viver relacionamentos mais autênticos, nos quais e a tão necessária tolerância não é um peso, mas apenas um aspecto da caminhada.

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SOBRE O AUTOR

Marcelo Guerra

Médico graduado pela UFRJ. Começou a carreira como Psicanalista e depois enveredou pela Homeopatia e Acupuntura. Ministra oficinas e palestras em todo o Brasil e atende em consultório no RJ. Saiba mais »

contato: marceloguerra@terapiabiografica.com.br
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