
Em junho de 2004, quando tinha 48 anos, descobri um caroço no meu seio enquanto tomava banho. Havia feito há pouco uma mamografia que não apontara nada, mas resolvi voltar ao ginecologista para investigar. Após novos exames, foi constatado que eu tinha um tumor maligno: era câncer de mama.
"No fim, disse à minha neta Julia que a minha vitória era ela."
Tenho seis filhos e a mais velha, Luciana, então com 26 anos, estava grávida da minha primeira netinha. O medo de não vê-los crescer e talvez de não chegar a conhecer minha neta me consumia. No ano seguinte seria o casamento da minha segunda filha, Tatiana, e eu não conseguia imaginar que talvez não estivesse lá para ver minha menina vestida de noiva. Comecei então a quimiotererapia e em poucas semanas vi meu longo cabelo caindo em grandes mechas. Como a obstetra que acompanhava a Luciana me aconselhou a não lhe contar a verdade, por conta do risco dela perder o bebê, raspei os poucos fios que ainda restavam e coloquei uma peruca. Toda a família me auxiliou a manter o segredo. Foi difícil, triste, mas nós conseguimos. O que me encorajava era a saúde da minha filha e da minha netinha, além da possibilidade da quimio fazer efeito e me manter viva até o dia do parto.
Além da quimio, fiz radioterapia e uma cirurgia para retirar o tumor e parte do seio. Consegui acompanhar o nascimento da pequena Julia e no ano seguinte, muito emocionada, segui até o altar de braços dados com o sogro da Tatiana, no dia de seu casamento. Contrariando todas as expectativas dos médicos, me curei. Estava livre do medo de não poder ver todos os meus filhos adultos.
Este ano, quase completando os cinco anos exigidos para a “alta definitiva”, descobri que o câncer voltou, desta vez em três lugares diferentes: pescoço, pulmão e mediastino. Voltei a fazer quimioterapia, apoiada por meu marido e filhos. Na verdade, mais uma vez há um filho que não sabe da doença. O Márcio, de 23 anos, está em Londres estudando. Decidi não contar a ele, pois temia que ele abandonasse seu sonho e voltasse ao Brasil. Da outra vez, o diagnóstico era mais negativo, agora meu médico acredita que a quimioterapia seja suficiente como tratamento.
Apesar do sofrimento de ter que passar por um tratamento agressivo novamente, sinto-me realizada. Já venci o câncer uma vez, posso derrotá-lo de novo, com o apoio da minha família. Decidi ser feliz um dia após o outro, comemorar cada conquista. No início de junho, participei emocionada, ao lado de minhas filhas, da caminhada contra o câncer de mama. No fim, disse à minha neta Julia que a minha vitória era ela. Para quem pensava em não conhecê-la, vê-la tão saudável e esperta é minha maior medalha.
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