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O que significa sonhar com morte?

Entenda também como o inconsciente compreende o fim da vida

 

A morte é um dos temas mais controversos para nós, seres humanos. O Ego (núcleo da consciência) é fortemente munido de ferramentas de controle e organização da realidade. Tal fato é importante e até mesmo positivo. Entretanto, quando ele se depara com a morte, a falta de garantias e certezas desestabilizam o ego e dessa maneira somos forçados a buscar algum sentido, alguma referência que balize nossa ansiedade e medo.

Seja pela arte, pela música e principalmente nos rituais, o ser humano expressa criativamente sua angústia sobre o mistério da vida e cria soluções simbólicas e emocionais a fim de criar referências que o confortem de forma mais ou menos duradoura. Por essa razão, as religiões têm tantos seguidores e cada vez mais novas religiões se constituem e se adaptam ao mundo atual, mas falaremos disso mais adiante.

O misterioso e incontrolável fato da vida - ou seja, o seu fim - é aterrorizante para uns e motivo de alívio para outros. Sim, porque a morte é um fato da vida. Isto é, nós a conhecemos e sabemos de sua inevitável existência, ainda que não a tenhamos experimentado de forma objetiva e concreta. E por mais que busquemos conhecer, nossas ideias sobre o assunto sempre serão muito individuais e singulares, mesmo quando são modeladas por alguma religião.

Morte e a finitude do corpo

A morte evoca todas as incertezas em nós e, no entanto, é a única certeza inalterável em nossa existência. A morte é pré-acordada no contrato da vida, no instante em que nascemos. Sabemos que nossos corpos não serão eternos por mais que a tecnologia se esforce para prolongar a qualidade de vida e a própria vida.

Nosso ego está profundamente identificado com a nossa própria corporeidade, ou seja, a maneira pela qual o cérebro reconhece e utiliza o corpo como instrumento relacional com o mundo. Enquanto vivos, usamos como referência nossos sentidos e como nos apresentamos ao mundo. Deste ângulo, morrer pode ser muito angustiante. Afinal, como ficará nosso corpo tão bem cultivado e preservado em vida? E a concretude com a qual nos identificamos e tudo a nossa volta? Nesse sentido, crer em algo pode ser muitíssimo positivo. O próprio ritual do velório, do enterro ou da cremação são benéficos, pois permitem que haja um marco transitório que delimita nossa vivência com um pessoa e nossa iminente vivência sem ela. É o último adeus ao corpo.

Afinal, o que fazemos com nosso corpo ao longo de nossas vidas? O quanto sentimos a vida pelo corpo que tanto tememos perder? Nota-se, hoje em dia, que as pessoas andam adormecidas, anestesiadas, distantes de tudo o que faz seus corpos e suas almas vibrarem. É difícil compreender como a sociedade ocidental, principalmente, teme tanto a morte, quando na realidade não percebe a falta de sentido na própria vida."É difícil compreender como a sociedade ocidental, principalmente, teme tanto a morte, quando na realidade não percebe a falta de sentido na própria vida."

Podemos não saber tanto sobre a morte ou o que ocorre após a vida, mas sabemos que, no mínimo, ela deveria servir para dar significado a cada um de nossos dias.

Sonhos com morte e seus possíveis significados

A cada grande experiência - não necessariamente concreta, mas principalmente emocional - o ser humano renova sua existência e o sentido que atribui a ela. Mas também é confrontado pela finitude de ciclos, de atitudes e, no caso da morte, a finitude do corpo.

Como sabiamente explica Jung, os símbolos relacionados ao processo de individuação (autoconhecimento) podem ser símbolos de morte. Ou seja, os sonhos que trazem símbolos ou conteúdos relacionados à morte, mas que se referem a mudanças profundas na vida do sonhador, não indicam morte concreta. Sonhos de morte podem aparecer em inúmeras circunstâncias da vida, que são marcadas por profundas transformações, como:

  • 1As transições de fases do desenvolvimento humano (infância, adolescência, maioridade e velhice)
  • 2O casamento e o nascimento de filhos
  • 3Uma separação conjugal
  • 4A experiência do aborto ou uma cirurgia muito invasiva
  • 5O término de um namoro
  • 6A perda de um ente querido ou de um animalzinho de estimação
  • 7Um assalto
  • 8Uma experiência de abuso
  • 9Cada escolha significativa e relevante para nosso desenvolvimento, já que quando optamos por algo, em geral, estamos abdicando de alguma outra possibilidade

Essa compreensão é muito importante, pois ajuda a distinguir quando um sonho de morte tem ligação com a vida, e quando o sonho realmente sugere uma morte concreta. Para isso, devemos cautelosamente atentar à totalidade do sonhador e da realidade que ele vivencia.

Há sonhos, porém, que realmente parecem preparar o sonhador para a morte. Estudos importantes realizados por meio da análise de sonhos de pacientes terminais ou muito idosos revelaram que do inconsciente emergem símbolos que preparam o sonhador para o processo de morte, e também abundam em símbolos míticos que mostram claramente ao sonhador a continuidade da consciência no pós-morte.

Alguns exemplos de símbolos coletados nos sonhos de pacientes terminais

Relógios que param, árvores que tombam, plantações pisoteadas, algum animal enterrado, e até alguns mais óbvios como a passagem por túneis escuros e estreitos, o sonhador vendo-se saudável ao lado do corpo doente na cama de um hospital, dentre inúmeros outros.

É como se o inconsciente compreendesse e expressasse por meio dos sonhos que, assim como as grandes transformações vividas nessa existência, a morte é mais um momento de profunda transformação dentro do processo de desenvolvimento da consciência. O inconsciente abriga essa experiência humana: a possível continuidade da vida psíquica.

Não é possível deixar de atentar, ainda que não em detalhes, para a crença religiosa do sonhador, a fim de compreender um sonho de morte. As diversas religiões tratam da morte sob diferentes enfoques e partindo de diversas premissas, muitas vezes até opostas entre si, como as crenças que aceitam a reencarnação e as crenças que aceitam o processo de ressurreição e vida eterna no pós-morte. O papel social das religiões sempre foi tecer uma linha de sentido para a morte, mas nem sempre esse caminho foi suficiente ou satisfatório.

Há muita morte acontecendo ao nosso redor. O grande problema é que nunca fomos ensinados a falar sobre morte, a pensar e usar a morte certa como sentido da vida."Há muita morte acontecendo ao nosso redor. O grande problema é que nunca fomos ensinados a falar sobre morte, a pensar e usar a morte certa como sentido da vida."

Aprendemos a temer a morte, a nos apegarmos ao nosso corpo que, muitas vezes, é dirigido por convenções sociais que nem fazem tanto sentido assim para nós.

Obviamente que pessoas mais jovens morrem e existem sonhos que podem preocupar um analista. Vivenciamos a morte subjetivamente e, de fato, aspectos em nós, assim como planos e ideias morrem cotidianamente, mas em algumas circunstâncias há que se ter atenção. Muitas vezes, os sonhos de morte - sejam da nossa própria morte ou de outras pessoas - são acompanhados de símbolos religiosos importantes que irão variar, na maior parte dos casos, de acordo com a crença do sonhador. E isso torna o sonho novamente muito singular, e precisa necessariamente ser contextualizado.

Sendo assim, se você teve um sonho com morte, é importante atentar para todos esses detalhes e buscar contextualizá-los com a sua realidade. Nesse sentido, a consulta com um psicólogo especializado em interpretação de sonhos pode ajudá-lo a compreender de forma mais profunda as mensagens que seu inconsciente está enviando.

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SOBRE O AUTOR

Thaís Khoury

É psicóloga clínica e utiliza a interpretação dos sonhos, a calatonia e a expressão criativa em seus atendimentos. Também é vegana e fundadora do Veganíssimo, empresa que produz alimentos 100% vegetais. Saiba mais »

contato: thais.khoury@hotmail.com
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