Existem cartas negativas num jogo de Tarot para o amor?

Dicas para compreender significados dos arcanos temidos, como O Pendurado e A Morte, entre outros

Existem cartas negativas num jogo de Tarot para o amor?

Para começo de conversa, é preciso lembrar que que não existe carta boa ou carta ruim no Tarot. Cada uma traz em si belezas e agruras, facilidades e dificuldades. O Mundo, por exemplo, carta que fala de integridade, do fechamento de um ciclo, do coroamento de uma situação, é reputada como uma das melhores cartas do baralho.

No entanto, pode significar em determinados contextos, como primeira carta na abertura de uma mandala astrológica, por exemplo, que a pessoa está, fechada em si mesmo. O Sol, outra das cartas “gracinha”, não raro potencializa os efeitos de uma sequência complicada. A Estrela pode indicar, ao invés de inocência, ingenuidade. O Mago é “escorregadio”, e vez ou outra usa seus dotes comunicativos para manipular quem encontre no seu caminho.

Algumas cartas são consideradas neutras, como A Roda da Fortuna. Afinal, você pode estar no topo de uma situação ou, quem sabe, no momento mais difícil, caída ou fundo do poço. O contexto é que irá esclarecer sua posição.

E o que dizer do Pendurado? Da Morte? O Diabo, A Torre, a Lua e O Louco, cartas que podem causar arrepios?

Pois bem, vamos lá. Nem tanto à Terra, nem tanto ao Céu. O copo pode estar meio cheio ou meio vazio. Tudo irá depender do seu olhar e da atitude que tomará diante da interpretação do arcano.

O PENDURADO

Perceber-se em uma situação em que seus pés não tocam a terra é altamente aflitivo. Você pode ter a sensação de aprisionamento, de ansiedade para romper aquilo que restringe o livre fluxo dos acontecimentos. Mas, perceba: existem situações em que impedimentos são necessários. Nem sempre o que parece ruim é péssimo. Se algo travou sua ação é porque você precisa reavaliar a situação. Isso irá impedir movimentos que possivelmente não iriam dar em nada.

Se algo travou sua ação é porque você precisa reavaliar a situação. Isso irá impedir movimentos que possivelmente não iriam dar em nada.

Murros em ponta de faca. Energia gasta sem resultado visível. Dar um tempo e reavaliar sua postura, nesse caso, é o melhor caminho. Mas você não para, não quer parar, e continua no firme no mesmo impulso. Pois bem, então lá vem o arcano XII e freia tudo bruscamente, obrigando que você veja a realidade sob um ângulo diferente, uma nova perspectiva.

A inversão a que O Pendurado nos apresenta é necessária. Você já experimentou mudar deliberadamente o ângulo de visão? Ver a situação de um lugar diferente? Suba na mesa e olhe para sua sala. Fique de ponta-cabeça e observe seu jardim. As árvores não ficaram curiosamente interessantes? Pois é. O Pendurado, assim como uma quadratura em um Mapa Astral, nos lança um desafio. Frente a ele você pode esmorecer, desistir, ficar abatido, tão abatido que fechará os olhos. Ou você poderá aproveitar a situação no que ela traz de melhor. Ver com olhos livres e entregar-se àquilo que desconhece. A escolha é sua! Mesmo estando pendurado.

A MORTE

Quando A Morte aparece em uma tiragem há uma clara indicação de mudança radical na condução de um relacionamento afetivo. Isso não seria um grande problema se o desprendimento fosse um exercício costumeiro. Nos apegamos aos objetos, às pessoas e, principalmente, aos nossos comportamentos. Raramente refletimos profundamente sobre as nossas condutas. E elas estão lá, firmemente introjetadas e repetidas, indefinidamente.

Abrir mão, soltar âncoras. É triste? Achamos que sim, porque a ordem é manter, segurar. Mas frente ao aço inoxidável da foice, não há remédio a não ser abrir mão. Já parou para pensar que isso pode ser ótimo? Você está livre. Livre para ressignificar sua vida, suas propostas, pensar sobre um novo caminho.

Ah, outra coisa bem importante. Você já ouviu falar da “petit mort”, a pequena morte? Trata-se do momento transcendente que acontece a partir do orgasmo. Um estado de dissolução, onde um é uno com o outro. Uma experiência mística, que segundo Bataille, em O Erotismo, interpretando a célebre frase de Santa Teresa “Morro de não morrer”, nos esclarece que este é um estado extremado de vida, a sua exaltação. La petit mort é nome de filme, tema de poemas, letra de canção. E pode também fazer parte da sua vida.

O DIABO

Sim, trata-se de uma carta que confere àquele que a recebe as algemas da paixão. Paixão não é amor. Paixão é arrebatamento, entusiasmo, alegria de viver e… sofrimento. Sofrimento porque não conseguimos entender o que nos aconteceu. O Diabo nos traz um espelho mágico. Ao vermos o seu reflexo, imaginamos que há outro alguém nele, a pessoa perfeita que cumpre todos os nossos desejos. Mas isso é apenas um dos seus melhores truques! O Diabo é um grande zombeteiro. Somos nós que estamos ali refletidos, apenas não conseguimos enxergar através das aparências. Mas aí costuma já ser tarde, a armadilha foi montada e estamos enredados. No entanto, quanto vigor, quanta alegria! Tomados por uma corrente elétrica, um estado magnético, somos capazes de desafiar o mundo. Toda e qualquer tristeza desaparece, pulamos cedo da cama e todas obrigações se tornam estranhamente leves.

Quando isso acontecer com você, perceba seu efeito sobre os outros. Eles dirão que seus olhos brilham, que sua pele está incrível, que seu sorriso é cativante. O arcano XV nos dá a oportunidade de saber o quanto podemos ser belos. Aproveite, deixe que essa vitalidade toda invada.

O arcano XV nos dá a oportunidade de saber o quanto podemos ser belos. Aproveite, deixe que essa vitalidade toda invada.

E, baixinho, diga para o Tinhoso: dessa vez você não vai me pegar!

Quando a carta do Diabo aparece, é possível reconhecer-se em uma situação extremada. E esse reconhecimento traz uma oportunidade de superação. Mesmo que você caia na armadilha, experimentar seu efeitos pode ser um grande aprendizado.

Já dizia William Blake: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Nem sempre. Mas passar por essa vida, caro leitor, sem se perder na paixão algumas vezes, você há de convir comigo que não tem graça nenhuma.

A TORRE

Carta temida pelos consulentes, a Torre traz em seu bojo a ideia de libertação. Um raio vem do nada e quebra uma estrutura rígida. Edifícios construídos rápido demais costumam cair frente a intempéries, material de má qualidade. Alicerces insuficientes. Não adianta nada catar alguns tijolos para tentar reedificar algo, porque nem o calhamaço ali presta. E se caiu era porque tinha que cair.

Agora, é começar do zero. Dói? Dói. Mas a partir desse momento você está livre.Todas as máscaras agarradas ao seu rosto desaparecem como num passe de mágica. A luz emitida pelo raio dissolve sistemas de crenças e, por consequência, desperta a consciência, tão lindamente representada pela Estrela, carta que segue o arcano XVI. A Estrela não irá brilhar para você se a Torre não cair. Seu destino não ficará claro. A verdadeira vocação da sua alma ficará para sempre escondida se o raio não abalar a Torre.

A carta pode indicar também o cancelamento de uma situação que não nos faria bem, é um ótimo aviso. Tirou A Torre antes de sair para uma festa? Não vá. Está prestes a se envolver com alguém e resolveu consultar o Tarot? Melhor deixar ir, se a Torre despontar na sua leitura.

A LUA

Nem o satélite físico da Terra, nem o romântico astro dos poetas. A Lua no Tarot é o mundo do devaneio, da imaginação, das formas cambiantes. Um terreno inseguro que atravessamos com medo, por que nos é desconhecido. Trata-se do espaço do inconsciente que, segundo os doutores da alma, toma grande parte do nosso organismo mental.

Tudo que é reprimido pela consciência vai para o fundo do poço. E ali fica, adormecido, até que uma situação externa acorde os lobos. E como o caranguejo que lentamente emerge das águas, vamos tateando no escuro.

Investigar nossos medos faz com que tenhamos a possibilidade de ultrapassá-los. Este é um passo muito muito importante nos relacionamentos amorosos porque é através do autoconhecimento que nos tornamos pessoas melhores para nós mesmos e, por consequência, para os outros. É enfrentando as inseguranças e circunstância confusas que nos tornamos mais fortes. O medo pode ser norteador.

É enfrentando as inseguranças e circunstância confusas que nos tornamos mais fortes. O medo pode ser norteador.

E acaba que, nesse processo de mergulho interior, podemos criar conexões psíquicas muito interessantes. Reconhecer forças ambivalentes, abrir-se para eventos sincrônicos, acessar através de sonhos o nosso potencial criativo, permitir que imagens inusitadas venham a tona.

Aquilo que, para grande parte das pessoas está oculto, abre-se na nossa consciência com maior facilidade. E lembre-se: depois de uma noite escura, se você continuar enfrentando o desconhecido corajosamente, só existe uma possibilidade. O nascer do Sol.

O LOUCO

Aquele que traz consigo a rosa selvagem não possui nada além de uma trouxa em seus ombros e da companhia de um cãozinho. E alegremente, despreocupadamente, vai caminhando pelo arco-íris sem certeza alguma de que encontrará um pote de ouro no final do caminho. Ele não se importa com recompensas porque traz em si o dom da liberdade e da inocência. A vida, para O Louco no Tarot, é uma aventura.

Nós, ao contrário, queremos garantias, reconhecimento e alimento constante para nossas expectativas, inclusive no relacionamentos afetivos. Juras de amor, contratos de compromisso, segurança. Mas já parou para pensar o quanto pode ser libertador embarcar no acaso? Abrir-se para novidades, sem nenhum preconceito? Experimentar curtir a vida um pouco, descontrair-se?

Sempre que saio para um viagem nas férias, penso: abri a porta da aventura! E a única regra que obedeço é encarar qualquer atraso ou circunstância que em outro momento consideraria inconveniente com bom humor e disposição. É uma forma de garantir a diversão não querer garantia nenhuma. O Louco nos lança em um universo curioso, original, onde sempre é primavera.

Quando aparece em uma tiragem relacionada ao amor, o Arcano Zero pode oferecer a possibilidade de vivenciar algo surpreendentemente exótico e original, espaço em que o coração se abre como a rosa selvagem, o centro pulsante da nossa consciência.

Pense fora da caixa quando se trata dos arcanos considerados como negativos ou difíceis. Todos eles nos colocam no caminho da libertação.

Zoe de Camaris

Zoe de Camaris

Taróloga. Pós-graduada em Linguística. Incluiu o Tarot nos seus estudos de especialização no intuito de revalidá-lo como um sistema de linguagem visual interdisciplinar.