Alice Duarte
Por Alice DuarteLeia em 4 min.23/08/2017 Atualizado em 02/05/2018
Excluir pai pode gerar problemas na vida

Excluir pai pode gerar problemas na vida

Seja por raiva, medo, vingança ou esquecimento, ausência causa desordem familiar

Eu estava descendo as escadas de um prédio comercial após sair de uma consulta, quando observo à minha frente um menino de uns 4 anos tentando vencer os degraus que pareciam desafiar o tamanho de suas perninhas. “Devagar filho”, dizia calmamente o pai, que descia logo atrás do menino. Pensei: “se o pequeno tropeçar ali, nem o mais rápido reflexo impediria um tombo”. O pai continuou seguindo o menino: “filho, dá a mão para o pai”, mas o garoto preferiu ir sem apoio e, quando precisou se equilibrar, recorreu ao corrimão. E o pai deixou assim, observando-o atentamente.

Inicio este artigo narrando essa breve cena para ilustrar a importância do papel do pai no desenvolvimento dos filhos. Quando nasce, o bebê está em total simbiose com a mãe: ela é o seu “Deus” particular, onisciente, onipotente, onipresente, que provém o alimento e tudo mais que necessita. Ficar no âmbito da mãe nos primeiros anos de vida é fundamental para o desenvolvimento sadio de uma criança – o psicoterapeuta alemão Bert Hellinger chama essa fase de “primeiro movimento afetivo”. Após completar um ano e meio, ou ao dar os primeiros passos, a criança começa a se desprender lentamente da fusão emocional com a mãe e iniciar a sua jornada rumo à própria autonomia. Nesse momento, é adequado que o pai atue como separador emocional, interrompendo essa fusão e liberando tanto a mãe quanto a criança.

+ Estreitando os vínculos entre pais e filhos

Pai é elo de ligação com mundo adulto

Segundo Hellinger, esse é o segundo movimento afetivo: quando a criança passa do âmbito da mãe para o âmbito do pai. Definitivamente, o pai é o elo de ligação da criança com o mundo exterior, o mundo adulto, no qual ela começa a estabelecer contato com a realidade ao seu redor e com a vida.

“A adaptação ao jardim de infância ou a qualquer situação nova se torna mais bem-sucedida quando é o pai quem acompanha o desprendimento”, diz a psicoterapeuta familiar Laura Gutman, no livro “A Maternidade e o encontro com a própria sombra” (Ed. Best Seller).

Voltando naquela cena das escadas, se no lugar do pai fosse a mãe a acompanhar aquela criança, provavelmente ela teria carregado o filho no colo, ou segurado sua mão – mesmo à sua revelia. É instinto de proteção da mãe manter a criança debaixo de suas asas, longe de qualquer perigo. Já o pai é aquele que deixa o filho “se jogar no mundo”: experimentar, brincar, se sujar, cair e levantar.

Desordem nas famílias surge quando pai é excluído da consciência e do coração

Infelizmente, o que acontece hoje é que muitas crianças crescem sem a presença do pai, pelo fato de a mãe ter se separado dele e dos filhos permanecerem com ela. “A mãe tem uma tendência, por qualquer razão, de atrair os filhos pra si mesma, longe de seu pai. O que isso causa aos filhos? Aparta-os do mundo e, portanto, da vida. Somente através de nosso pai entramos em contato com o mundo”, diz Bert Hellinger em seus textos. A desordem nas famílias nasce quando se exclui o pai do convívio, seja por raiva, medo, vingança ou esquecimento. Este ser “não-olhado” cria uma força nociva no sistema familiar e, futuramente, paga-se um preço alto por essa exclusão.

Num passado nem tão distante assim, a sociedade delegava ao pai um papel de provedor e todos dependiam economicamente dele. Ele tinha que estar presente e sólido na vida real, pois somente dessa forma se garantia a sobrevivência das famílias. Porém, nas últimas décadas, com a autonomia e independência financeira das mulheres, acabaram os grandes obstáculos que as impediam de se separarem de seus maridos quando a relação deixava de funcionar. Escritórios de advogados e consultórios de terapeutas ficaram cheios de demanda com divórcios, disputas por pensão alimentícia, guarda dos filhos e alienação parental. Virou rotina da Justiça decidir que a guarda dos filhos ficasse com a mãe. E, em muitos casos após a separação, a mãe acabava impedindo o acesso do pai ao filho, principalmente quando nutria raiva e mágoa do ex-parceiro, devido à traição, abandono ou qualquer outro motivo.

Existem outras tantas causas para uma exclusão: quando alguém teve um pai abusivo, quando nunca o conheceu ou quando este faleceu precocemente. Geralmente há muita mágoa, julgamento, rejeição, reivindicação ou esquecimento por parte dos filhos e ex-mulher.

+ Alguma mágoa lhe prende ao passado?

Quando isso ocorre, a paz se rompe dentro das famílias. E quais as consequências dessa alienação e exclusão dos pais? Em alguns casos, os filhos podem se voltar contra a sua mãe, por lealdade ao pai, e repetir, futuramente, o destino do pai excluído, ou seja, não convivendo com os próprios filhos. Há outras tantas consequências que observamos nas sessões de Constelação Familiar: esse filho, quando adulto, poderá ter dificuldades para manter um relacionamento afetivo satisfatório, para se encontrar profissionalmente, para se manter com os pés na realidade (daí a causa de muitos casos de drogadição), etc.

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Como é possível restaurar a paz perdida nas famílias

O caminho para a paz vem com a inclusão desses pais, desses homens, respeitando e honrando o seu lugar de direito no sistema familiar a que pertencem, independentemente do que tenham feito ou deixado de fazer.

Afinal, o ato de dar a vida é irrevogável. Ninguém pode negar esse protagonismo.

É importante dizer que essa inclusão não significa necessariamente manter um convívio – pois às vezes esse pai já faleceu, não é conhecido ou simplesmente não deseja contato com os filhos. O objetivo é dar um lugar a ele na sua consciência e no seu coração. Para muita gente isso pode ser bastante difícil e, às vezes, leva-se uma vida inteira para conseguir fazer esse movimento afetivo interno. Daí a importância do apoio de um profissional da área terapêutica nesse processo. O ato de incluir a figura paterna na família não pode ser um mero protocolo. A mudança precisa acontecer no nível emocional e não pela via racional, intelectual. A solução, portanto, é sempre uma solução humilde.

+ Relação pai x filhos: como resgatar o contato?

Exercício para curar vínculo com pai

Se você vivencia alguma situação parecida, disponibilizei aqui, em áudio, um exercício sistêmico e fenomenológico que permite curar este vínculo e liberar o fluxo interrompido do amor – seja seu pai ausente, desconhecido, falecido.

Atendimento com a autora

Alice Duarte, especialista em Constelação Familiar e autora do artigo, realiza trabalhos terapêuticos e atendimentos individuais para ajudar pessoas a resolverem questões familiares, no intuito de terem uma vida melhor. Para mais informações, mande um email para contato@aliceduarte.com

Alice Duarte

Alice Duarte

É certificada em Constelação Sistêmica Familiar e Organizacional, graduada em Jornalismo e pós-graduada em Comunicação Audiovisual. Vive em Santiago, no Chile, e trabalha com grupos terapêuticos, workshops e atendimentos individuais (presenciais e online.