Renata Corrêa
Por Renata CorrêaLeia em 5 min.16/03/2018 Atualizado em 07/05/2018

Depoimento: como superei a síndrome de Burnout e me tornei escritora

Romancista mineira cria personagem inspirada em sua própria história

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Depoimento: como superei a síndrome de Burnout e me tornei escritora

Nasci no interior de Minas Gerais, numa cidade sem muitos recursos. Ainda pequena, coloquei na cabeça que seria médica. Não sou de família abastada, tampouco de médicos, mas acabei escolhendo essa profissão, ainda menina, por me encantar pela forma como o único médico da cidade atendia e tratava bem as pessoas. Quis ser como ele. Certa vez, ele me disse: você sempre poderá ser o que quiser. Provavelmente, passei por uma transformação naquele dia. Aquele senhor inspirou em mim um dos sentimentos mais belos e poderosos: a esperança.

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Seu trabalho te define?

Ainda na adolescência comecei a escrever, era uma forma de desabafar meus medos e angústias, também me tornei uma leitora voraz. Nessa mesma época, por diversas vezes ouvi que seria impossível me formar médica, mas acreditei que conseguiria. Com o apoio de minha família, que até se mudou de cidade, consegui. Passei no vestibular de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia-MG em 2000, em terceiro lugar, depois de um ano e meio de tentativas, sete quilos mais magra. De tanto estudar, me esquecia de comer direito.

Paralelo ao sonho de ser médica, eu tinha outros: ser escritora, casar e ter filhos. Encontrei o amor da minha vida aos 25 anos, no ano em que terminei a faculdade. Nos casamos três anos depois. Após ter me afastado por um tempo, já que os estudos me consumiam, voltei a escrever. Em 2014, a escrita me salvou. Sabe quando a gente deseja tanto algo que, de repente, aquele grande sonho acaba se tornando um pesadelo terrível? Foi assim para mim.

Pressões externas

Logo que comecei a trabalhar como oftalmologista aceitei todas as pressões externas para trabalhar cada vez mais. Ouvi da gerente da clínica que eu trabalhava que eu “tinha que aproveitar enquanto era jovem para trabalhar muito e fazer dinheiro”. Com isso, chegou a um ponto de mal ver a luz do dia.

Ouvi da gerente da clínica que eu trabalhava que eu “tinha que aproveitar enquanto era jovem para trabalhar muito e fazer dinheiro”. Com isso, chegou a um ponto de mal ver a luz do dia.

Entrava às 7h e saía às 21h do serviço. Muitas vezes, sem horário certo para almoçar. Acabei sendo forçada/convencida a trabalhar na hora do almoço pois “muitos pacientes aproveitavam justamente esse horário para se consultar”.

Juntamente a toda a pressão que comecei a sofrer no trabalho, e algumas humilhações que prefiro não relatar, outra grande preocupação caiu sobre mim: meu relógio biológico começou a me dizer que estava passando da hora de ser mãe. Fiquei animada com a ideia de engravidar, parei de tomar remédio e resolvi tentar. Passou um ano e nada. Comecei a ficar triste. Procurei um especialista em infertilidade. Eu e meu esposo fizemos vários exames e todos estavam normais. Mais um ano de tentativas se passou e não engravidei.

Além de triste, comecei a ficar angustiada. De repente, nada mais parecia fazer sentido. Para quê trabalhar tanto se eu mal conseguia aproveitar a vida? Os médicos disseram que o estresse – por causa do trabalho – poderia estar prejudicando minhas tentativas de engravidar. Fui ficando esgotada física e emocionalmente. Até que, em pouco tempo, tudo perdeu cor e graça. A dor da angústia apertava meu peito, sufocava, até que eu desabei.

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A mudança necessária

Caí em prantos em pleno horário de trabalho, ainda pela manhã. Foi nessa época em que percebi que estava doente. Procurei um psiquiatra e fui diagnosticada com Síndrome de Burnout, um esgotamento físico e psíquico decorrente do trabalho excessivo e desgastante, cada vez mais comum em nossa sociedade. Comecei a fazer terapia com uma psicóloga, larguei meu trabalho e montei um consultório próprio, onde podia organizar a minha rotina. Diminuí a minha carga horária, comecei a caminhar no parque da cidade e voltei a escrever.

Quando disse que a escrita me salvou, não estava brincando. Voltar a escrever me trouxe um novo ânimo, frescor e colorido para a vida. Quando me dei conta, tinha escrito meu primeiro romance e logo depois um segundo. Percebi que conseguiria voltar a ser feliz, reconstruir minha vida. Às vezes, tudo o que precisamos é um pouco de coragem.

Percebi que conseguiria voltar a ser feliz, reconstruir minha vida. Às vezes, tudo o que precisamos é um pouco de coragem.

Não é fácil romper barreiras, desfazer-se de velhos hábitos ou se libertar de situações opressoras. Mas, é preciso. A terapia me ajudou muito a me reencontrar. Não cheguei a tomar medicamentos, mas em muitos casos semelhantes, as medicações se fazem necessárias. Quem sofre de Burnout não aparenta estar doente, por isso demora tanto a procurar ajuda.

A doença afeta especialmente algumas profissões como: médicos, enfermeiros, bombeiros, policiais, artistas, arquitetos, controladores de voo e jornalistas. Geralmente, pessoas que costumam trabalhar sobre pressão e cobranças excessivas. Em casos graves, é associada a transtornos de ansiedade e depressão. Pesquisas mostram, ainda, uma correlação com tentativas de suicídio. É uma doença grave que precisa ser conhecida, reconhecida e tratada. Às mulheres acabam ficando mais sujeitas porque, geralmente, levam uma jornada dupla ou tripla de trabalho: dois períodos fora de casa além do trabalho de donas de casa.

Um ano sabático

Diante de tudo que passei, decidi escrever um romance que abordasse esse tema. Lancei em setembro de 2017 o livro “Um ano sabático”, meu terceiro romance, em e-book, de forma independente, na Amazon. É uma bonita história de superação, que narra a busca de Rafaela, personagem central, por si mesma, pela felicidade perdida e pelo amor verdadeiro.

Do Burnout eu me curei, mas é algo que ainda me assombra. Tenho uma tendência a me dedicar demais a tudo que faço. No meio desse processo de tratamento ainda tive um sangramento no ovário e acabei descobrindo uma endometriose, o que provavelmente era a causa da infertilidade. Passei por uma cirurgia para retirar um pedaço do ovário e para cauterizar focos de endometriose e três meses depois engravidei, naturalmente, de gêmeos.

Hoje, sou mãe de um casalzinho de dois anos de idade, médica oftalmologista e escritora. Levo uma jornada tripla, nada fácil. Quem tem filhos pequenos entenderá, mas estou feliz. E, mais do que nunca, tenho plena convicção de que podemos ser tudo que quisermos.

Renata Corrêa

Renata Corrêa

É uma romântica incorrigível, procura sempre passar uma mensagem de esperança com suas histórias. Além do livro "Um ano sabático" escreve também em seu blog www.autorarenatarcorrea.com