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Anorexia: uma doença que nunca foi tão atual

Pressão para ser magro e atraente pode gerar ciclo de autodestruição

 

Desde o final do século XX, é comum vermos imagens de mulheres muito magras por todos os lados. Modelos e atrizes estão cada vez mais esquálidas e o padrão de beleza ideal torna-se mais longilíneo a cada ano. Esses modelos de magreza extrema, amplamente difundidos pela mídia, contribuem para o aumento da prevalência de transtornos alimentares na população.

A Anorexia Nervosa, mais conhecida simplesmente como anorexia, foi o primeiro transtorno alimentar reconhecido como um problema psiquiátrico. Neste transtorno, não existe um real comprometimento da fome, mas um esforço intenso para não comer, em virtude de uma obsessão por emagrecer. O principal sintoma é o desejo de ser magro, o que leva a um grande medo de engordar.

A pessoa anoréxica recusa-se a comer por sentir-se gorda e quanto mais emagrece, mais gorda se enxerga. Devido a essa imagem corporal distorcida, recusa-se a manter o peso dentro de padrões saudáveis, podendo chegar à morte por inanição. Esse ciclo torna-se uma obsessão e o comportamento é muito semelhante a um vício. Podem ocorrer complicações decorrentes do baixo peso, como desidratação, anemia, hipoglicemia, osteoporose, atrofia muscular, insuficiência renal, problemas cardíacos, morte por choque hipovolêmico (que são causados por alguma insuficiência cardíaca) e, no caso da mulher, interrupção do ciclo menstrual.

Mas quem pode desenvolver a doença?

A anorexia costuma ser mais comum em pessoas para quem a magreza é especialmente desejável, ou mesmo uma exigência profissional. Modelos, atletas, bailarinos e atores apresentam maior risco de desenvolver anorexia, mas o problema não se restringe a esses grupos específicos e atinge também pessoas comuns, de todas as classes sociais.

O transtorno ocorre principalmente em meninas adolescentes e mulheres jovens. Os homens também podem desenvolver a doença: embora seja menos frequente, a prevalência tem aumentado nos últimos tempos. O problema costuma ter início na puberdade e pode começar com uma simples dieta de emagrecimento, que vai se tornando cada vez mais restritiva, levando a uma perda de peso abaixo dos limites considerados saudáveis. Muitas vezes também ocorrem outros comportamentos associados, como excesso de exercícios, abuso de remédios moderadores de apetite, uso de laxantes e diuréticos, sempre com o objetivo de reduzir o peso corporal.

O ciclo de autodestruição geralmente começa com uma forte pressão para ser magro e atraente, que é agravada por uma autoimagem ruim. Um ideal de perfeição está associado à magreza, ou seja, pessoas anoréxicas acreditam que emagrecer as tornará perfeitas. Além disso, a sensação física da fome gera um sentimento de domínio sobre o corpo, ao mesmo tempo em que a perda de peso torna-se um símbolo de controle e vitória.

Embora menos comum, a anorexia também pode atingir adultos, de todas as faixas etárias. A pressão por parecer mais jovem é um dos fatores desencadeantes, mas, ao perceber que ficou mais magra, a pessoa acaba por desviar a atenção dos reais problemas da vida. Perder peso passa a ser o foco central, como se isso trouxesse a solução para tudo. Recentemente, as atrizes Demi Moore e Angelina Jolie apareceram extremamente magras em fotos divulgadas em revistas de fofocas e houve boatos de que estariam doentes, embora não tenham confirmado serem anoréxicas.

Padrões de magreza na mídia

Além delas, diversas outras celebridades internacionais já apresentaram indícios, ou mesmo confirmaram sofrer de anorexia. As modelos Kate Moss, Candice Swanepoel, Nicola McLean e a brasileira Alicia Kuczman; as atrizes Lindsay Lohan, Mary-Kate Olsen, Keira Knightley, Christina Ricci, Jennifer Aniston, Gwynneth Paltrow, Calista Flockhart e Jane Fonda; as socialites Paris Hilton e Nicole Richie; as cantoras Geri Halliwell, Victoria Beckham, Alanis Morissette e Madonna e também as princesas Diana, Caroline e Vitória, dentre muitas outras. Há pouco tempo, também houve rumores de que o ator Matt Damon sofre desse transtorno.

Um caso famoso que comoveu o mundo foi o da cantora Karen Karpenter, que faleceu em função da anorexia na década de 1970. No Brasil, a atriz Débora Evelyn revelou que já sofreu do transtorno. Outro caso foi o da modelo Ana Carolina Reston, que morreu em 2006, em decorrência de problemas causados pela anorexia. Há alguns anos, na França, houve uma campanha para prevenção dos transtornos alimentares, protagonizada pela modelo francesa Isabelle Caro, que na época tinha 28 anos. Ela chegou a pesar 25kg e morreu devido à falência pulmonar, causada pela anorexia.

Atualmente, a grande maioria das mulheres comuns apresenta alguma insatisfação com seu corpo e essa tendência tem afetado também cada vez mais homens. Entre os mais jovens, essa preocupação atinge índices alarmantes. Estudos recentes nos EUA e Canadá demonstraram que mais da metade dos adolescentes já fez algum tipo de dieta para emagrecer antes dos 14 anos, e cerca de metade das meninas e um terço dos meninos adolescentes já utilizaram métodos não-saudáveis para tentar controlar o peso. Essas tentativas incluem jejuns, laxantes ou vômitos, assim como pular refeições, exagerar nos exercícios físicos ou fumar, para perder o apetite. Estima-se que um quarto das meninas adolescentes apresentam algum sintoma de transtorno alimentar. A pressão para ser magro também está afetando igualmente as crianças. As internações de crianças menores de 12 anos, devido a transtornos alimentares, mais do que dobraram na última década.

Mas a anorexia não é uma doença exclusiva da atualidade. Há muitas descrições de mulheres que praticavam jejuns voluntários no século XIII. Consideravam essa prática como um modo de se aproximar de Deus e foram chamadas de "santas anoréxicas". Da mesma forma que as anoréxicas atuais, elas também eram perfeccionistas e insatisfeitas consigo mesmas, além de apresentarem distorções cognitivas e rigidez nos comportamentos.

Não se sabe exatamente o que causa a anorexia, mas estudos sugerem que fatores genéticos podem desempenhar um papel significativo na suscetibilidade de uma pessoa ao transtorno. Entretanto, problemas de privação alimentar na infância e abusos sexuais também podem estar relacionados. Mães críticas e competitivas, ou com sintomas depressivos, podem contribuir para o desenvolvimento da anorexia nos filhos. Outras características de temperamento que predispõem à anorexia são o perfeccionismo, a obsessão e a negatividade.

Doença ou estilo de vida?

Pacientes com anorexia geralmente não aceitam que estão doentes e entendem a doença como uma companheira, que os ajudará a atingirem a beleza e a perfeição. Desta forma, não a veem como algo a ser combatido, mas sim como um estado desejado. Qualquer pessoa que tente afastá-los desse ideal de perfeição distorcido é vista como inimiga.

É comum meninas anoréxicas acharem que o transtorno é apenas um estilo de vida. Unem-se em comunidades virtuais e trocam informações com outras meninas, através da internet. Essas meninas criaram uma linguagem própria para se comunicar: utilizam os pseudônimos ANA e MIA (derivados de anorexia e bulimia), além de outros apelidos para os comportamentos, como MIAR, que significa vomitar. As dietas radicais são chamadas de LF (low food) e os jejuns de NF (no food). Através de blogs e fóruns de discussão, incentivam umas às outras a permanecerem nas "dietas", trocam experiências e fórmulas para emagrecer, além de divulgarem a prática de jejuns suicidas. Nos relatos, fica evidente a dor que sentem. Buscam emagrecer infinitamente, para atingir um ideal de perfeição, baseado em uma imagem totalmente distorcida que têm de si mesmas. Estabelecem metas de pesos cada vez mais baixos, tentando superar "barreiras" progressivas: pesar menos de 50Kg, 45Kg e até menos de 40Kg.

Como funciona o tratamento

A anorexia é um transtorno mental muito grave e a recuperação é difícil. O curso da doença é variável. Há casos de meninas que passam por um único episódio de anorexia e depois se recuperam totalmente, enquanto outras apresentam diversas recaídas. Há ainda um terceiro grupo, que evolui com cronificação do quadro e morte por inanição. Em hospitais universitários, a mortalidade atinge mais de 10% dos pacientes. Nos casos mais severos, o tratamento exige internação e visa manter a pessoa viva, em condições razoáveis. A distorção da imagem na anorexia é muito forte e dificilmente vai mudar.

Mas, mesmo após o tratamento, geralmente permanecem sintomas alimentares. É bastante comum a anorexia evoluir para a bulimia. Na bulimia, que também é um transtorno alimentar, a principal característica é comer grandes quantidades de comida, para, logo em seguida, vomitar ou tentar compensar o excesso de alguma outra forma não-saudável.

Além do tratamento com uma equipe de profissionais qualificados, adotar algumas atitudes em relação à pessoa com anorexia pode ajudar. A primeira delas é evitar ao máximo fazer críticas, pois a própria anoréxica já se exige demais. Em vez de criticar, é importante procurar e apontar as qualidades. Elogios são muito importantes, desde que sejam sinceros. A autoestima dessas pessoas é muito baixa, elas sentem que não têm valor nenhum e tentam atingir uma "perfeição" ilusória, através do emagrecimento. É importante tentar sempre mostrar que a autoestima não deve se basear no peso e nem só na aparência. Aceitar-se significa enxergar a realidade, para aprender fazer o melhor com o que se tem.

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SOBRE O AUTOR

Cristiane Costa Cruz

Formada em Psicologia pela PUC/SP em 1990. Utiliza a abordagem cognitivo-comportamental. Ministra cursos sobre Psicopatologia e Transtornos Alimentares. Presidente da Mensa Brasil. Saiba mais »

contato: cristianepsico@gmail.com
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